O tema na obra
A Primeira Parte é um mercado: em vinte e quatro horas quase todos aparecem com uma cifra na mão. Afanassi Ivánovitch Totski oferece setenta e cinco mil rublos para se livrar de Nastácia Filíppovna Barachkova e poder casar; o general Ivan Fiódorovitch Iepántchin leva a ela umas pérolas caríssimas de que a mulher dele ouviu falar; Gavrila Ardaliónovitch Ívolguin aceita pelo dote uma noiva que despreza; Parfen Semeónovitch Rogójin, que acaba de herdar milhões, sobe o lance de dezoito para cem mil. Liev Nikoláievitch Míchkin chega sem nada e, quando perto da meia-noite descobre que herdou um milhão e meio, não usa o dinheiro como lance. A noite termina com o dinheiro no fogo e com a descoberta de que ele não compra ninguém. O resto do livro mostra o que o dinheiro faz quando deixa de ser lance e vira direito, dívida ou esmola: o grupo de Burdóvski exige o que o príncipe já ia dar, Lukian Timofêievitch Liébediev lê no Apocalipse um século em que tudo é medida e contrato, o general Ívolguin tira quatrocentos rublos do bolso do amigo e a carteira reaparece na aba do casaco de Liébediev. No fim, a fortuna de Rogójin passa ao irmão, e Aglaia se casa com um conde que não era conde e cuja fortuna não existia.
No capítulo IV da Primeira Parte, Nastácia Filíppovna aceita o capital de Totski e recusa o sentido que ele teria.
если она и принимает теперь капитал, то вовсе не как плату за свой девичий позор, в котором она не виновата, а просто как вознаграждение за исковерканную судьбу, se ela agora aceita o capital, não é de modo nenhum como pagamento por sua desonra de moça, da qual ela não tem culpa, mas simplesmente como indenização por um destino estropiado.
No capítulo X da Primeira Parte, na casa dos Ívolguin, Rogójin, que viera comprar Gánia, oferece dinheiro a ela.
Настасья Филипповна! — вскричал он, глядя на нее, как полоумный, робея и вдруг ободряясь до дерзости: — вот восемнадцать тысяч! — и он шаркнул пред ней на столик пачку в белой бумаге, обернутую накрест шнурками. — вот! И… и еще будет!, Nastácia Filíppovna! (gritou ele, olhando para ela como um meio louco, intimidado e de repente se encorajando até a insolência) aqui estão dezoito mil! (e largou diante dela, na mesinha, um maço embrulhado em papel branco e amarrado em cruz com cordões) Aqui! E... e ainda vai haver mais!
No capítulo XI da Primeira Parte, Gánia se abre com o príncipe e explica o que quer do dote.
Деньги тем всего подлее и ненавистнее, что они даже таланты дают. И будут давать до скончания мира., o dinheiro é o que há de mais vil e odioso justamente porque dá até talentos. E vai dar até o fim do mundo.
No capítulo XV da Primeira Parte, Rogójin põe os cem mil na mesa, e ela diz o preço em voz alta.
Во сто тысяч меня оценил! [...] Да неужто ты меня в свою семью ввести хотел? Меня-то, Рогожинскую!, me avaliou em cem mil! [...] Será que você queria mesmo me levar para a sua família? A mim, a mulher de Rogójin!
No capítulo XVI da Primeira Parte, ela joga o maço no fogo e conclui, diante de Gánia, que não foi buscá-lo (O dinheiro no fogo).
а не пошел-таки, выдержал! Значит, самолюбия еще больше, чем жажды денег., e não foi, aguentou! Quer dizer que tem mais amor-próprio do que sede de dinheiro.
No capítulo II da Segunda Parte, Liébediev conta ao príncipe o que leu do Apocalipse com Nastácia Filíppovna.
мы при третьем коне, вороном, и при всаднике, имеющем меру в руке своей, так как всё в нынешний век на мере и на договоре, и все люди своего только права и ищут, estamos no tempo do terceiro cavalo, o preto, e do cavaleiro que tem a balança na mão, porque no século de agora tudo é medida e contrato, e todos os homens só procuram o próprio direito.
No capítulo VIII da Segunda Parte, o grupo de Burdóvski transfere da lei para a consciência o direito ao dinheiro do príncipe.
мы именно понимаем, что если тут нет права юридического, то зато есть право человеческое, натуральное, право здравого смысла и голоса совести [...] Требуем, а не просим!, nós entendemos muito bem que, se aqui não existe direito jurídico, existe em compensação o direito humano, natural, o direito do bom senso e da voz da consciência [...] Exigimos, não pedimos!
No capítulo IX da Segunda Parte, depois das provas de Gánia, Burdóvski joga sobre a mesa um envelope em que deviam estar duzentos e cinquenta rublos e só há cem, e Doktorenko jura que o grupo pagará a diferença, nem que seja um rublo de cada vez.
No capítulo IX da Terceira Parte, Liébediev conta ao príncipe que perdeu quatrocentos rublos na noite do aniversário e o conduz, entre risos, até a suspeita sobre o general que diz não suspeitar.
No capítulo III da Quarta Parte, a carteira reaparece na aba do casaco de Liébediev, que passa a andar com ela batendo nas pernas à vista do general, e que diz ao príncipe, indignado, que não o tortura.
Не мучаю, князь, не мучаю, — с жаром подхватил Лебедев; — я искренно его люблю-с и… уважаю-с; а теперь, вот верьте не верьте, он еще дороже мне стал-с; еще более стал ценить-с!, Não torturo, príncipe, não torturo, emendou Liébediev com fervor; eu o amo sinceramente, senhor, e... o respeito, senhor; e agora, acredite ou não, ele ficou ainda mais caro para mim, senhor; passei a dar-lhe ainda mais valor, senhor!
No livro o dinheiro não falta a quem o deseja: falta-lhe o que ele devia comprar. Rogójin herda milhões e não compra Nastácia Filíppovna; Gánia tem os cem mil nas mãos e os devolve; o príncipe herda e reparte, pagando no capítulo I da Segunda Parte até os credores sem documento. Quem mede tudo em dinheiro, como Gánia no capítulo XI da Primeira Parte, o faz porque o dinheiro lhe daria o que não tem, a originalidade; e o que o livro mostra é que a falta continua do outro lado da fortuna.
Quem o encarna
Gánia, que sabe que o dinheiro é vil e o quer assim mesmo, porque o que lhe falta é ser alguém. No capítulo XI da Primeira Parte:
нет ничего обиднее человеку нашего времени и племени, как сказать ему, что он не оригинален, слаб характером, без особенных талантов и человек обыкновенный, não há nada mais ofensivo para o homem do nosso tempo e da nossa estirpe do que lhe dizer que ele não é original, que é fraco de caráter, sem talentos especiais, um homem comum.
Rogójin, que só tem o dinheiro como voz. No capítulo I da Primeira Parte, mal conhece o príncipe, oferece-lhe o que o dinheiro compra.
Князь, не известно мне, за что я тебя полюбил. Может, оттого, что в эдакую минуту встретил [...] Приходи ко мне, князь. Мы эти штиблетишки-то с тебя поснимаем, одену тебя в кунью шубу в первейшую [...] поедем к Настасье Филипповне! Придешь, али нет?, príncipe, não sei por que fui gostar de você. Talvez por ter encontrado você num momento destes [...] Venha à minha casa, príncipe. Vamos tirar de você essas polainazinhas, vou vesti-lo com uma peliça de marta, da melhor [...] vamos ver Nastácia Filíppovna! Vem ou não vem?
O príncipe, que não dá preço a nada e por isso erra no preço. No capítulo IX da Segunda Parte, depois de pedir perdão de modo desconexo pela oferta pública dos dez mil, ouve de Doktorenko as duas leituras de si mesmo.
Это или уж слишком невинно, или уж слишком ловко, Isso ou é inocente demais, ou é hábil demais.
Onde aparece
- Primeira Parte, capítulo I: Rogójin conta que comprou brincos de brilhante para Nastácia Filíppovna com o dinheiro das apólices do pai, e promete ao príncipe uma peliça de marta.
- Primeira Parte, capítulo IV: Totski, com o general ao lado, oferece a Nastácia Filíppovna setenta e cinco mil rublos para casá-la com Gánia, e ela os aceita como indenização, não como pagamento.
- Primeira Parte, capítulo X: Rogójin põe dezoito mil numa mesinha e sobe o lance para quarenta e para cem mil.
- Primeira Parte, capítulo XI: Gánia diz ao príncipe que o dinheiro é vil porque dá até talento, e que com o dote começará do capital.
- Primeira Parte, capítulo XIV: Nastácia Filíppovna devolve a Totski os setenta e cinco mil e ao general as pérolas.
- Primeira Parte, capítulo XV: Rogójin põe os cem mil na mesa, e ela diz a todos que ele a avaliou em cem mil.
- Primeira Parte, capítulo XVI: O príncipe herda um milhão e meio; Nastácia Filíppovna joga os cem mil no fogo, e Gánia não os tira.
- Segunda Parte, capítulo I: Em Moscou, o príncipe paga quase todos os credores do comerciante morto, até os sem documento; Gánia lhe devolve o pacote meio queimado.
- Segunda Parte, capítulo II: Liébediev diz que se vive no tempo do cavalo preto do Apocalipse, em que tudo é medida e contrato.
- Segunda Parte, capítulo VIII: O grupo de Burdóvski exige o dinheiro de Pavlischov em nome da consciência, e o príncipe oferece dez mil em público.
- Segunda Parte, capítulo IX: Burdóvski recusa os dez mil e devolve um envelope em que faltam cento e cinquenta rublos.
- Terceira Parte, capítulo IX: Liébediev conta ao príncipe que perdeu quatrocentos rublos e que só três homens podiam tê-los tirado.
- Quarta Parte, capítulo III: A carteira de Liébediev reaparece na aba do casaco dele, e o príncipe pede que o general só perceba que a aba está vazia.
- Quarta Parte, capítulo V: Aglaia examina o noivo como numa negociação e se espanta de que ele tenha só cento e trinta e cinco mil rublos.
- Quarta Parte, capítulo XII: A fortuna de Rogójin passa ao irmão, e Aglaia se casa com um falso conde cuja fortuna não existia.
Onde as leituras divergem
O fogo do capítulo XVI da Primeira Parte se lê como vingança ou como teste. Nastácia Filíppovna diz que quer ver a alma de Gánia pela última vez porque ele a atormentou três meses; mas a conclusão dela, ao vê-lo aguentar, é um reconhecimento, e ela lhe dá o dinheiro assim mesmo. O narrador, no capítulo I da Quarta Parte, acrescenta que Gánia levou o dinheiro de volta ao príncipe, arrependeu-se mil vezes e não parou de se envaidecer da devolução.
Os dez mil que o príncipe oferece a Burdóvski no capítulo VIII da Segunda Parte mostram o limite da caridade com dinheiro: ele concede mais da metade da razão ao grupo e não sabe dizer o que falta, e o que falta é justamente o que o dinheiro não dá, a possibilidade de pedir e de agradecer. Duas leituras: o grupo recusa a esmola por dignidade, ou recusa a gratidão porque ela os poria abaixo de quem dá. O texto sustenta as duas, e Ielisavieta Prokófievna Iepántchina, no capítulo IX da Segunda Parte, diz que eles recusam a gratidão e vivem dela.