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Personagem

Ievguiêni Pávlovitch Radomski

Quem é

Ievguiêni Pávlovitch Radomski é um parente distante do príncipe Sch., ajudante de ordens de vinte e oito anos, rico, espirituoso e de boa família, que entra na casa dos Iepántchin pela mão do noivo de Adelaida e se torna assíduo depois de ver Aglaia Ivánovna Iepántchina (capítulo I da Segunda Parte). Aparece em cena no capítulo VII da Segunda Parte, quando chega ao terraço da datcha de Pávlovsk ao lado do general Iepántchin. É o único personagem do romance que analisa os outros com distância e clareza, em vez de os viver por dentro como Míchkin, Rogójin ou Hippolit. É o interlocutor lúcido de O Idiota: o diagnóstico do liberalismo russo que ele expõe no capítulo I da Terceira Parte é a peça mais direta de crítica social do livro, e é ele quem, na Conclusão (capítulo XII da Quarta Parte), assume a tarefa de cuidar do príncipe e de explicar aos outros o que aconteceu com ele, depois de a razão de Míchkin já ter cedido de vez. O que ele quer é entender, e ter Aglaia, que o recusa (capítulo III da Terceira Parte); o que teme é o ridículo e o escândalo que Nastácia Filíppovna arma em torno dele; onde se engana é em medir o príncipe só pela régua do mundo.

Trajetória

No capítulo I da Segunda Parte o narrador o apresenta pelo que se diz dele: rico, brilhante, com fama de algumas conquistas. No capítulo VII da Segunda Parte chega em trajes civis, depois de pedir baixa do serviço, no meio da balada do cavaleiro pobre, e, entre os que percebem o que Aglaia fez com o escudo, é o único que faz questão de mostrar que percebeu:

во время чтения Аглая позволила себе переменить буквы A. M. D. в буквы Н. Ф. Б., durante a leitura Aglaia se permitiu trocar as letras A. M. D. pelas letras N. F. B.
Segunda Parte: O quadro

Quando pergunta a Aglaia se o cavaleiro pobre está de volta, ela o olha como se não entendesse. No capítulo IX da Segunda Parte, diante do caso Burdóvski, lembra rindo o advogado que defendeu um homem que matara seis por pobreza perguntando quem, no lugar dele, não teria pensado o mesmo; no capítulo X da Segunda Parte resume a teoria do grupo como o triunfo do direito antes de se saber em que consiste o direito, de onde se pula para o direito da força, o dos tigres e dos crocodilos.

Antes de discursar sobre política, ele já havia entrado no enredo por um episódio obscuro: no fim do capítulo X da Segunda Parte, Nastácia Filíppovna Barachkova, de uma caleche, grita a ele, tratando-o por tu, que não tema as promissórias de Kupfer, porque Parfen Semeónovitch Rogójin as comprou a trinta, por insistência dela. Ele diz que é uma louca e que não sabe de que promissórias se trata. No capítulo XI da Segunda Parte o príncipe Sch. garante que um homem tão rico não pode ter promissórias com agiota nem tratá-la por tu, e o general Iepántchin jura que é calúnia; Gavrila Ardaliónovitch Ívolguin, ao contrário, acha que a história pode ser verdadeira, porque os negócios de Radomski andam em alguma desordem. O vínculo nunca chega a se explicar por completo.

Na reunião na datcha dos Iepántchin que abre a Terceira Parte, no capítulo I da Terceira Parte, Ievguiêni Pávlovitch discursa sobre o liberal russo diante de todos, antes de o príncipe entrar na conversa:

русский либерализм не есть нападение на существующие порядки вещей, а есть нападение на самую сущность наших вещей [...] Мой либерал дошел до того, что отрицает самую Россию, то есть ненавидит и бьет свою мать, o liberalismo russo não é um ataque à ordem existente das coisas, mas um ataque à própria essência das nossas coisas [...] O meu liberal chegou ao ponto de negar a própria Rússia, isto é, odeia e espanca a própria mãe.
Terceira Parte: A explicação

A fala não é digressão de salão: é a única vez, no romance, em que alguém generaliza da política para o caráter nacional com essa frieza analítica, sem a paixão religiosa que toma conta de Míchkin quando ele fala da Rússia e do Cristo russo na reunião do capítulo VII da Quarta Parte, ou de Chátov, mais tarde, em Os Demônios.

No mesmo capítulo ele confessa que inventou para o príncipe a pergunta seguinte, se a distorção das ideias no caso do rapaz que matou seis é caso particular ou geral, e recebe uma resposta séria que o desconcerta:

искажение идей и понятий [...] встречается очень часто, есть гораздо более общий, чем частный случай, к несчастию. И до того, что если б это искажение не было таким общим случаем, то, может быть, не было бы и таких невозможных преступлений, как эти, a distorção das ideias e dos conceitos [...] é muito frequente, é um caso muito mais geral do que particular, infelizmente. E a tal ponto que, se essa distorção não fosse um caso tão geral, talvez nem houvesse crimes tão impossíveis como esses.
Terceira Parte: A explicação

Olha o príncipe sem sorriso pela primeira vez e devolve a pergunta: por que ele não viu a mesma distorção no caso Burdóvski? Quando zomba de Hippolit Tieriêntiev e diz que já lhe perdoa tudo, o príncipe inverte a posição:

надо так, чтоб и вы согласились принять от него прощение, é preciso que o senhor também aceite receber o perdão dele.
Terceira Parte: A explicação

No capítulo II da Terceira Parte o príncipe lhe diz, num estado estranho, que o considera o mais nobre dos homens. No vauxhall, Nastácia Filíppovna finge só então reparar nele, trata-o por tu como a um íntimo e anuncia para todos que o tio dele, Kapiton Alieksêievitch, se matou de manhã com um tiro, deixando um rombo de trezentos e cinquenta mil rublos do erário, insinuando que o sobrinho deixou o serviço a tempo porque sabia; o oficial amigo dele, que propõe o chicote, leva uma bengalada no rosto. No capítulo III da Terceira Parte o general Iepántchin confirma ao príncipe que o tio de fato se matou, conta que Ievguiêni Pávlovitch pedira Aglaia um mês antes e fora recusado, e que a filha explicou rindo o escândalo: a louca quer enxotar o pretendente para casá-la com o príncipe.

No capítulo IV da Terceira Parte ele aparece, para espanto do príncipe, na festa de aniversário: arranjou as coisas com o oficial, viaja de manhã por causa da morte do tio e quer antes uma conversa franca, porque veio buscar a amizade de um homem que não mente, e talvez também arrancar algo dele. No debate sobre a estrela Absinto, solta um paradoxo por esporte:

Закон — это правда, но столько же нормальный, сколько и закон разрушения, а пожалуй, и саморазрушения, Que é lei, é verdade, mas tão normal quanto a lei da destruição e, quem sabe, da autodestruição.
Terceira Parte: A explicação

A frase cai em quem está decidido a se matar ao nascer do sol, e Ievguiêni Pávlovitch, que não tira os olhos de Hippolit a noite inteira, diz ao príncipe que o rapaz tem más intenções. No capítulo V da Terceira Parte pede, com o príncipe, que Hippolit não leia a Explicação; no capítulo VII da Terceira Parte, depois do tiro sem cápsula, duvida do esquecimento, adia a conversa com o príncipe, aconselha-o a expulsar o rapaz e o chama de Lacenaire caseiro, capaz de matar dez pessoas por brincadeira; nota, ao sair, que Hippolit legou a confissão a Aglaia. No capítulo VIII da Terceira Parte Aglaia quer saber tudo do tiro, sobretudo o que ele disse, e ela conta ao príncipe que o recusou porque não quer que a casem a toda hora.

Na Quarta Parte, ele é o nome que irrita Aglaia: no capítulo VI da Quarta Parte ela sai da sala quando o príncipe diz que gostaria de revê-lo, e na reunião solene conversa com ele e com o príncipe N. enquanto o príncipe a olha (capítulo VII da Quarta Parte). É esse mesmo olhar cético, e não ingênuo, que ele aplica ao casamento anunciado entre Míchkin e Nastácia Filíppovna. No capítulo IX da Quarta Parte, quando os Iepántchin partem para Kolmino e todos os que eram da casa viram as costas ao príncipe, é o único que o visita, e confronta o príncipe numa análise quase clínica de como nasceu o envolvimento dos dois, um rapaz vindo da Suíça com sede de pátria que, num dia de degelo, ouviu a história de uma mulher ofendida e quis proclamar uma ideia generosa:

что ложью началось, то ложью и должно было кончиться; это закон природы., o que começou com mentira com mentira tinha de acabar; é uma lei da natureza.
Quarta Parte: O desfecho

Acusa-o de ter humilhado uma moça pura diante da rival e pergunta onde estava o coração cristão dele; ouve que o príncipe se casa porque a outra morreria, e que tem medo do rosto dela; e conclui que Míchkin talvez nunca tenha amado nem uma nem outra mulher:

Аглая Ивановна любила как женщина, как человек, а не как… отвлеченный дух. Знаете ли что, бедный мой князь: вернее всего, что вы ни ту, ни другую никогда не любили!, Aglaia Ivánovna amava como mulher, como ser humano, e não como... um espírito abstrato. Sabe de uma coisa, meu pobre príncipe? O mais certo é que o senhor nunca tenha amado nem uma nem outra!
Quarta Parte: O desfecho

É o contraponto que o romance precisa ter: onde Míchkin trata toda fantasia alheia (a do general Ívolguin, a de Nastácia Filíppovna) com uma delicadeza que a alimenta em vez de desmontá-la, Ievguiêni Pávlovitch é o único que aponta, sem crueldade mas sem poupar, que o que começou com mentira com mentira tinha de acabar (capítulo IX da Quarta Parte).

Depois da morte de Nastácia Filíppovna e do colapso final de Míchkin, no capítulo XII da Quarta Parte, é Ievguiêni Pávlovitch, procurado por Nikolai Ardaliónovitch Ívolguin, quem consegue o retorno do príncipe ao sanatório de Schneider, na Suíça, e quem o visita a cada poucos meses; diz-se um homem supérfluo na Rússia, mora na Europa e, depois de cada visita, escreve a Kólia e a Vera Liébedieva, com quem se corresponde com uma amizade crescente que o narrador não sabe explicar. Numa dessas cartas, de Paris, conta o destino de Aglaia:

Пленил он Аглаю необычайным благородством своей истерзавшейся страданиями по отчизне души, и до того пленил, что та, еще до выхода замуж, стала членом какого-то заграничного комитета по восстановлению Польши и сверх того попала в католическую исповедальню какого-то знаменитого патера, овладевшего ее умом до исступления., Ele cativou Aglaia pela nobreza extraordinária da sua alma dilacerada de sofrimento pela pátria, e a cativou a tal ponto que ela, ainda antes de casar, tornou-se membro de um comitê no estrangeiro pela restauração da Polônia e, além disso, foi parar no confessionário católico de um padre famoso, que se apoderou da mente dela até o delírio.
Quarta Parte: O desfecho

O romance termina assim com a razão fria de Ievguiêni Pávlovitch ao lado da dor à russa de Ielisavieta Prokófievna Iepántchina diante do príncipe irreconhecível: são as duas últimas vozes do livro, uma que explica e outra que sofre, e a última fala, contra a Europa e a fantasia, é dela e é dita a ele; nenhuma das duas resolve a pergunta que o romance deixou em aberto sobre se a bondade sem cálculo de Míchkin valia a pena.

Temas que encarna

Ievguiêni Pávlovitch encarna a Verdade e mentira vista do lado da inteligência: ele não mente, como Liébediev ou o general Ívolguin, nem diz a verdade sem medida, como o príncipe; diz a verdade com ironia, de modo que ninguém sabe se ele crê no que diz (capítulo I da Terceira Parte). Por isso procura o príncipe: é o único que ele não consegue ler, um homem que responde a sério a uma pergunta feita por esporte. A amizade que pede no capítulo IV da Terceira Parte, porque o príncipe não mente, é a de quem sabe que a própria verdade vem sempre com uma ressalva.

A régua dele é a do mundo, e por ela o diagnóstico do capítulo IX da Quarta Parte é exato: o príncipe não ama como homem, e humilhou Aglaia. O que a régua não mede é o que o próprio narrador registra no capítulo X da Quarta Parte, que o príncipe ama Nastácia Filíppovna como se cuida de uma criança doente. Ievguiêni Pávlovitch sai da conversa se perguntando, divertido, como se pode amar duas mulheres com dois amores diferentes, e a pergunta, que ele faz por graça, é a que o livro faz a sério.

Leituras divergentes

O texto sustenta duas leituras dele. Numa, é o homem do mundo que acerta tudo e não entende nada: o liberalismo, o caso Burdóvski, Hippolit, o casamento, tudo diagnosticado com exatidão, sem que ele perceba o que o príncipe vê. Na outra, é a única personagem que aprende alguma coisa com o príncipe: começa zombando dele (capítulo VII da Segunda Parte), procura a amizade dele (capítulo IV da Terceira Parte), é o único que não lhe vira as costas (capítulo IX da Quarta Parte) e termina como o seu guardião, visitando um homem que já não o reconhece (capítulo XII da Quarta Parte). O narrador concorda com o diagnóstico do capítulo IX da Quarta Parte e, ao mesmo tempo, não sabe explicar a amizade dele com Kólia e Vera, que é a parte dele que o diagnóstico não cobre.

Relações