Clavis Libri

Símbolo

A barquinha do leitor

O que é

A barquinha é a imagem com que o poema fala ao leitor e o separa em dois. No começo do canto II, antes de qualquer cena, Dante se volta a quem o segue num barco pequeno atrás do navio dele e lhe diz que volte às praias que conhece, porque no mar alto pode se perder. A água que o poeta toma nunca foi percorrida, e três ajudas a governam: Minerva sopra, Apolo conduz, as nove Musas lhe mostram as Ursas. O convite vai só aos poucos que ergueram cedo o pescoço para o pão dos anjos, do qual se vive sem se fartar. Quem fica na praia não é culpado de nada: escolheu o barco. A imagem é de navegação, e vem do pedido a Apolo do canto I, em que o poeta já se descrevia como quem enfrenta matéria maior. Mais adiante, o barco pequeno volta como lembrança e como limite.

Onde aparece

O aviso abre o canto II:

O voi che siete in piccioletta barca, / desiderosi d’ascoltar, seguiti / dietro al mio legno che cantando varca, / tornate a riveder li vostri liti: / non vi mettete in pelago, ché forse, / perdendo me, rimarreste smarriti. Quem segue num barquinho pequeno deve voltar à praia que já conhece, porque o mar alto que se abre daqui em diante é outro nível de dificuldade.
Paraíso

Os três auxílios do mar novo são pagãos, e o poeta os dá com ofício de piloto:

L’acqua ch’io prendo già mai non si corse; / Minerva spira, e conducemi Appollo, / e nove Muse mi dimostran l’Orse, a água que tomo nunca foi percorrida; Minerva sopra, e Apolo me conduz, e nove Musas me mostram as Ursas.
Cantos I a IV: A Lua

O convite aos poucos que ergueram cedo o pescoço:

Voialtri pochi che drizzaste il collo / per tempo al pan de li angeli, del quale / vivesi qui ma non sen vien satollo, vós, poucos que erguestes cedo o pescoço ao pão dos anjos, do qual aqui se vive, mas não se sai saciado.
Cantos I a IV: A Lua

No canto X o poeta entrega o livro ao leitor:

Or ti riman, lettor, sovra ’l tuo banco, / dietro pensando a ciò che si preliba, / s’esser vuoi lieto assai prima che stanco, agora fica, leitor, no teu banco, ruminando o que apenas se provou, se queres ser alegre muito antes de cansado.
Cantos IX a XII: Vênus e o Sol

No canto XXIII o poema lembra o aviso e confessa que precisa saltar:

e così, figurando il paradiso, / convien saltar lo sacrato poema, / come chi trova suo cammin riciso., e assim, figurando o paraíso, convém saltar o poema sagrado, como quem encontra o caminho cortado.
Cantos XXI a XXIV: Saturno e as estrelas fixas

No canto XXXIII o poeta pede uma faísca para deixar à gente futura:

O somma luce che tanto ti levi / da’ concetti mortali, a la mia mente / ripresta un poco di quel che parevi, / e fa la lingua mia tanto possente, / ch’una favilla sol de la tua gloria / possa lasciare a la futura gente, ó suma luz, que tanto te elevas acima dos conceitos mortais, empresta de novo à minha mente um pouco do que parecias, e faz a minha língua tão poderosa que uma só faísca da tua glória ela possa deixar à gente futura.
Cantos XXIX a XXXIII: O Empíreo

O que significa

A barquinha divide os leitores pelo apetite, não pelo saber, e põe a dificuldade como parte do pacto: o Paraíso é a cântica em que o poema avisa o leitor de que pode não acompanhar. O barco serve também ao poeta, porque dá o limite de quem escreve: o mar é fundo para quem lê, e para quem conta também. O mesmo gesto aparece no canto XXIII, em que a pena aceita saltar, e no XXXIII, em que a memória cede ao excesso.

O texto sustenta duas leituras do aviso. Na primeira, é cortesia de quem reconhece que nem todos querem a dificuldade e os deixa ir. Na segunda, é seleção: o poeta quer um leitor que aceite perder-se, e o convite aos poucos sugere que a obra não se completa sem esse tipo de leitor. O poema não escolhe entre elas.

Relações