Clavis Libri

Símbolo

A águia de Justiça

O que é

A águia é o sinal do império romano e, no Paraíso, o sinal da justiça. Aparece em dois momentos que o poema liga: na boca de Justiniano, no céu de Mercúrio, que conta a sua história desde que Constantino a voltou contra o curso do céu, e no céu de Júpiter, onde as almas dos justos se juntam em forma de águia e falam com uma só voz. A primeira é história, a segunda é visão. Na primeira o imperador julga quem se apropria do sinal e quem se opõe a ele, os dois lados com a mesma simetria. Na segunda a águia é feita de milhares de luzes que desenham primeiro letras soltas, depois uma frase que aconselha os que julgam a terra, e por fim a cabeça e o pescoço da ave. Fala em primeira pessoa do singular, em nome de todas as almas, e responde à dúvida de Dante sobre o homem do Indo. No olho dela estão Rifeu e a luz que a leitura corrente identifica com Trajano.

Onde aparece

No canto VI, a história começa pelo gesto de Constantino:

Poscia che Costantin l’aquila volse / contr’ al corso del ciel, ch’ella seguio / dietro a l’antico che Lavina tolse, depois que Constantino voltou a águia contra o curso do céu, que ela seguira atrás do antigo que tomou Lavínia.
Cantos V a VIII: Mercúrio e Vênus

O critério do julgamento vem antes da lista:

perché tu veggi con quanta ragione / si move contr’ al sacrosanto segno / e chi ’l s’appropria e chi a lui s’oppone, para que vejas com quanta razão se move contra o sacrossanto sinal tanto quem dele se apropria quanto quem a ele se opõe.
Cantos V a VIII: Mercúrio e Vênus

E a acusação cai sobre os dois lados:

L’uno al pubblico segno i gigli gialli / oppone, e l’altro appropria quello a parte, / sì ch’è forte a veder chi più si falli, um opõe ao sinal público os lírios amarelos, e o outro o apropria para um partido, de modo que é difícil ver quem mais erra.
Cantos V a VIII: Mercúrio e Vênus

No canto XVIII as almas escrevem como bandos de aves, e a frase é uma ordem aos que governam:

‘DILIGITE IUSTITIAM’, primai / fur verbo e nome di tutto ’l dipinto; / ‘QUI IUDICATIS TERRAM’, fur sezzai., Diligite iustitiam foram os primeiros, verbo e nome de toda a pintura; qui iudicatis terram, os últimos.
Cantos XVII a XX: A profecia e a Águia

Aquietadas, desenham a ave sem pintor humano:

e quïetata ciascuna in suo loco, / la testa e ’l collo d’un’aguglia vidi / rappresentare a quel distinto foco. / Quei che dipinge lì, non ha chi ’l guidi; / ma esso guida, e da lui si rammenta / quella virtù ch’è forma per li nidi., e, aquietada cada uma em seu lugar, vi a cabeça e o pescoço de uma águia representados por aquele fogo distinto. Aquele que ali pinta não tem quem o guie; ele guia, e dele se recorda aquela virtude que é forma para os ninhos.
Cantos XVII a XX: A profecia e a Águia

No canto XIX ela fala:

ch’io vidi e anche udi’ parlar lo rostro, / e sonar ne la voce e «io» e «mio», / quand’ era nel concetto e ‘noi’ e ‘nostro’., pois vi e ouvi falar o bico, e soar na voz eu e meu, quando no pensamento era nós e nosso.
Cantos XVII a XX: A profecia e a Águia

A resposta à dúvida de Dante recusa o lugar do juiz:

Or tu chi se’, che vuo’ sedere a scranna, / per giudicar di lungi mille miglia / con la veduta corta d’una spanna?, agora tu, quem és, que queres sentar-te na cadeira para julgar de mil milhas de distância com a vista curta de um palmo?
Cantos XVII a XX: A profecia e a Águia

A resposta da Águia pode soar pouco satisfatória, porque recusa o lugar de quem pergunta em vez de explicar o caso.

No canto XX ela mostra os seis espíritos do olho e da sobrancelha, e entre eles Rifeu e o que a leitura corrente lê como Trajano:

Chi crederebbe giù nel mondo errante / che Rifëo Troiano in questo tondo / fosse la quinta de le luci sante?, quem acreditaria, lá no mundo errante, que Rifeu troiano, neste círculo, fosse a quinta das luzes santas?
Cantos XVII a XX: A profecia e a Águia

O que significa

A águia diz duas coisas que parecem opostas. Por um lado, é o império como instrumento da providência: o sinal tem origem divina, e quem o toma para um partido ou o combate erra. Por outro, é a justiça que nenhum mortal alcança: o olho humano no mar alto não vê o fundo, e quem se senta para julgar de longe mede mal. Os dois lados se encontram no sujeito dela, um eu feito de nós, que dá ao discurso de justiça uma voz sem dono. O poema também faz a águia mudar de função: em Mercúrio ela é matéria de política terrestre, em Júpiter é o lugar onde a política se cala diante da justiça de Deus.

O texto sustenta duas leituras. Na primeira, a águia é a defesa do império contra a Igreja política, e o céu de Júpiter só confirma o que Justiniano disse. Na segunda, ela é a crítica da pretensão de qualquer sinal terrestre de dizer a justiça, e o discurso sobre o homem do Indo e sobre Rifeu mostra que a justiça de Deus é maior do que o império. As duas convivem, e o poema não as concilia.

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