O que é
A escada de Saturno é uma escada de cor de ouro, erguida tão alto que a vista de Dante não a segue, e por onde descem esplendores, como gralhas que ao raiar do dia se movem juntas para aquecer as penas frias. Aparece no sétimo céu, o de Saturno, que o poema não nomeia: chama-o de cristal que leva o nome do caro chefe sob o qual jazeu morta toda malícia, lembrança de uma idade sem mal. É a escada dos contemplativos. No canto XXII, Bento diz que ela vai até a última esfera e que ninguém mais tira os pés da terra para subi-la, e a escada que Dante vê é a que o patriarca Jacó viu, carregada de anjos. Na outra ponta, quem sobe é Dante, levado por Beatriz com um sinal, e não pelos próprios degraus. Os esplendores que descem são almas: Pedro Damião e Bento, entre outros, falam de um mundo em que as abadias viraram covas e as cogulas, sacos cheios de farinha ruim.
Onde aparece
A escada aparece no canto XXI:
Dentro al cristallo che ’l vocabol porta, / cerchiando il mondo, del suo caro duce / sotto cui giacque ogne malizia morta, / di color d’oro in che raggio traluce / vid’ io uno scaleo eretto in suso / tanto, che nol seguiva la mia luce., dentro do cristal que leva o nome, girando em torno do mundo, do seu caro chefe, sob o qual jazeu morta toda malícia, de cor de ouro em que o raio transluz, vi uma escada erguida para o alto tanto que a minha luz não a seguia.
A alma que desce explica o silêncio do céu e o limite de Dante, e dá a regra de não presumir mover os pés rumo a tal meta:
E al mondo mortal, quando tu riedi, / questo rapporta, sì che non presumma / a tanto segno più mover li piedi. / La mente, che qui luce, in terra fumma; / onde riguarda come può là giùe / quel che non pote perché ’l ciel l’assumma»., e ao mundo mortal, quando voltares, leva isto, para que não presuma mais mover os pés rumo a tal meta. A mente, que aqui luz, na terra fumega; vê, pois, como poderá lá embaixo o que não pode, ainda que o céu a tome.
A sátira dos prelados é de corpo:
Cuopron d’i manti loro i palafreni, / sì che due bestie van sott’ una pelle: / oh pazïenza che tanto sostieni!»., cobrem com os seus mantos os palafréns, de modo que duas bestas vão sob uma pele: ó paciência, que tanto suportas.
No canto XXII Bento nomeia a escada pela de Jacó:
Infin là sù la vide il patriarca / Iacobbe porger la superna parte, / quando li apparve d’angeli sì carca., até lá em cima a viu o patriarca Jacó estender a parte de cima, quando lhe apareceu tão carregada de anjos.
A passagem do Gênesis:
E teve um sonho: via uma escada, que, apoiando-se na terra, tocava com o cimo o céu; e anjos de Deus subiam e desciam pela escada. No alto estava o Senhor, que lhe dizia: "Eu sou o Senhor, o Deus de Abraão, teu pai e o Deus de Isaac; darei a ti e à tua descendência a terra em que estás deitado. Tua posteridade será tão numerosa como os grãos de poeira no solo; tu te estenderás, para o ocidente e para o oriente, para o norte e para o meio-dia, e todas as famílias da terra serão benditas em ti e em tua posteridade. Estou contigo, para te guardar aonde quer que fores, e te reconduzirei a esta terra, e não te abandonarei sem ter cumprido o que te prometi".
E a queixa:
Le mura che solieno esser badia / fatte sono spelonche, e le cocolle / sacca son piene di farina ria., as muralhas que costumavam ser abadia viraram covas, e as cogulas são sacos cheios de farinha ruim.
O método de Bento é olhar o começo e depois aonde se chegou:
Pier cominciò sanz’ oro e sanz’ argento, / e io con orazione e con digiuno, / e Francesco umilmente il suo convento; / e se guardi ’l principio di ciascuno, / poscia riguardi là dov’ è trascorso, / tu vederai del bianco fatto bruno., Pedro começou sem ouro e sem prata, e eu com oração e com jejum, e Francisco humildemente o seu convento; e se olhares o princípio de cada um, e depois olhares aonde chegou, verás o branco feito escuro.
No alto, Dante olha para baixo e vê a Terra pequena:
L’aiuola che ci fa tanto feroci, / volgendom’ io con li etterni Gemelli, / tutta m’apparve da’ colli a le foci, o canteiro que nos faz tão ferozes, enquanto eu girava com os Gêmeos eternos, apareceu-me todo, das colinas às fozes.
O que significa
A escada diz que a contemplação é um caminho com degraus, e o poema mostra o preço de a deixar sem uso. Opõe-se, por contraste, à escada alheia do exílio, a que Cacciaguida disse que Dante teria de subir e descer:
A sentença do exílio, na boca de Cacciaguida.Tu lascerai ogne cosa diletta / più caramente; e questo è quello strale / che l’arco de lo essilio pria saetta. / Tu proverai sì come sa di sale / lo pane altrui, e come è duro calle / lo scendere e ’l salir per l’altrui scale.Deixarás tudo o que mais amas, e essa é a primeira flecha que o arco do exílio atira; provarás como tem sabor de sal o pão alheio, e como é duro caminho descer e subir pela escada dos outros. É o coração autobiográfico do poema: Dante escreve a Comédia já exilado, e coloca na boca do próprio ancestral a imagem exata da humilhação que vivia ao escrevê-la.
Aqui a escada é a que ninguém sobe, ao passo que lá é a que o exilado sobe contra o gosto. A imagem junta Jacó, Bento e Dante: o patriarca a viu, o santo diz onde ela termina, e o peregrino a escala sem pés.
O texto sustenta duas leituras. Na primeira, a escada é o convite à vida contemplativa, que continua aberta a quem sabe subir. Na segunda, é a acusação de quem vê o vazio: a regra de Bento virou papel gasto, a escada sem quem suba, e o poema fala mais do abandono do que do caminho.
Relações
- Temas-padrão: Religião, Deus e o divino, Fé.
- Temas da obra: Fé, Deus e o divino.
- Personagens: Dante, Beatriz, São Pedro.
- Símbolos vizinhos: a cruz de Marte, o ponto de luz e os nove coros.