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Símbolo

A cruz de Marte

O que é

A cruz de Marte é uma cruz feita de luzes que se movem de ponta a ponta e entre o alto e o baixo, no céu dos que lutaram pela fé. Dante a vê no canto XIV, depois de subir com Beatriz, quando dois raios lúcidos e rubros dentro da estrela de Marte o fazem exclamar Ó Elíos, nome que os comentadores leem como o de Deus ou o do Sol. Dentro dos raios aparece a cruz, que o poeta diz que lampejava Cristo, de modo que não sabe achar exemplo digno. Os lumes cintilam ao se juntarem e ao passarem, como as partículas dos corpos no raio de sol que listra a sombra, e sobe pela cruz uma melodia que arrebata o peregrino sem que ele entenda o hino. Ouve só duas palavras, ressurgir e vencer. No canto XV, de um dos braços corre uma luz até o pé da cruz: é Cacciaguida. No XVIII, é nos braços da cruz que ele mostra os que tiveram na terra grande voz, e cada nome faz uma luz correr pela cruz como fogo veloz na nuvem.

Onde aparece

A cruz aparece no canto XIV:

Qui vince la memoria mia lo ’ngegno; / ché quella croce lampeggiava Cristo, / sì ch’io non so trovare essempro degno, aqui a memória vence o meu engenho, porque aquela cruz lampejava Cristo, de modo que não sei achar exemplo digno.
Cantos XIII a XVI: O Sol e Marte

O hino que o peregrino ouve sem entender:

Ben m’accors’ io ch’elli era d’alte lode, / però ch’a me venìa «Resurgi» e «Vinci» / come a colui che non intende e ode, bem percebi que era de altos louvores, porque me vinha «Ressurge» e «Vence» como a quem não entende e ouve.
Cantos XIII a XVI: O Sol e Marte

No canto XV a luz do trisavô corre do braço ao pé da cruz como fogo súbito num céu sereno, e a saudação lembra o encontro de Eneias e Anquises:

Sì pïa l’ombra d’Anchise si porse, / se fede merta nostra maggior musa, / quando in Eliso del figlio s’accorse. / «O sanguis meus, o superinfusa / gratïa Deï, sicut tibi cui / bis unquam celi ianüa reclusa?», tão piedosa se estendeu a sombra de Anquises, se fé merece a nossa maior musa, quando no Elísio reconheceu o filho. Ó meu sangue, ó graça de Deus infundida em excesso: a quem, como a ti, a porta do céu foi aberta duas vezes?
Cantos XIII a XVI: O Sol e Marte

No canto XVIII os nomes dos guerreiros fazem as luzes correr pela cruz, de Josué a Roberto Guiscardo, e Cacciaguida mistura-se às outras luzes antes da subida a Júpiter.

O que significa

A cruz diz que a vitória do cristão passa pelo sacrifício e que ressurgir e vencer são a mesma palavra de Páscoa. É também o lugar onde Dante, ao se explicar por ter posposto os olhos de Beatriz a ela, descobre que os vivos selos de toda beleza agem mais quanto mais se sobe. Em Marte, a cruz ordena o céu: as luzes dos guerreiros da fé correm pelos braços dela, e é de um deles que sai o trisavô.

A imagem tem duas leituras. A cruz de luzes é a da guerra santa, do trisavô cruzado e de Josué, e é a da ressurreição, a que dá a Dante um hino que ele só entende pelas duas palavras. O poema junta as duas na mesma figura, sem dizer qual pesa mais.

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