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Os três círculos e a roda

O que é

Os três círculos e a roda são as duas imagens com que o poema fecha. Os três círculos aparecem na profunda e clara substância da alta luz, de três cores e de uma só medida: um refletido do outro como arco-íris de arco-íris, e o terceiro, fogo que sopra dos outros dois por igual. É a Trindade. Um dos círculos, olhado com mais atenção, pareceu a Dante pintado com a nossa imagem, a figura humana dentro do círculo divino. O peregrino tenta entender como a imagem se ajusta ao círculo e como ali se aloja, como o geômetra que se empenha em medir o círculo e não acha o princípio de que carece, e a tentativa falha, porque as penas dele não bastam. A roda é a imagem do último terceto: o desejo e a vontade do peregrino já giravam, como roda movida por igual, pelo amor que move o sol e as outras estrelas. Entre as duas imagens ficam o volume em que o universo se reúne por amor e a confissão de que a fala é curta e fraca para o concebido.

Onde aparece

O volume vem antes dos círculos, no canto XXXIII:

Nel suo profondo vidi che s’interna, / legato con amore in un volume, / ciò che per l’universo si squaderna: / sustanze e accidenti e lor costume / quasi conflati insieme, per tal modo / che ciò ch’i’ dico è un semplice lume, no seu profundo vi que se interna, ligado com amor num volume, o que pelo universo se desencaderna: substâncias e acidentes e seus modos, como que fundidos, de tal maneira que o que digo é uma simples luz.
Cantos XXIX a XXXIII: O Empíreo

Os três círculos:

Os três círculos, antes da falha que se torna visão. Ne la profonda e chiara sussistenza / de l’alto lume parvermi tre giri / di tre colori e d’una contenenza; Na profunda e clara substância da luz altíssima parecem-lhe três círculos, de três cores e de uma só grandeza, a imagem trinitária que antecede o instante final. Um dos círculos, olhado com mais atenção, mi parve pinta de la nostra effige, pareceu-lhe pintado com a nossa própria imagem humana, e é diante desse enigma, a figura humana dentro do círculo divino, que Dante tenta entender e falha.
Paraíso

A comparação com o geômetra:

tal era io a quella vista nova: / veder voleva come si convenne / l’imago al cerchio e come vi s’indova; / ma non eran da ciò le proprie penne: / se non che la mia mente fu percossa / da un fulgore in che sua voglia venne, assim era eu diante daquela vista nova: queria ver como se ajustava a imagem ao círculo e como ali se aloja; mas para isso não eram as minhas penas: senão que a minha mente foi atingida por um fulgor em que o seu querer veio.
Cantos XXIX a XXXIII: O Empíreo

A roda é o terceto final:

O mesmo terceto no original, que fecha o poema inteiro. A l’alta fantasia qui mancò possa; / ma già volgeva il mio disio e ’l velle, / sì come rota ch’igualmente è mossa, / l’amor che move il sole e l’altre stelle. Aqui faltou poder à alta fantasia, mas já o desejo e a vontade de Dante giravam, como uma roda movida igualmente por toda a parte, pelo Amor que move o sol e as outras estrelas.
Paraíso

Carpeaux isola o verso do amor:

Amor che muove il sole e l'altre stelle
Carpeaux, História da Literatura Ocidental

E o poema registra que as três cânticas terminam com a mesma palavra:

As três cânticas da Comédia terminam com a mesma palavra, stelle, estrelas: no Inferno, rever as estrelas; no Purgatório, subir às estrelas; e no Paraíso, o amor que move o sol e as outras estrelas.
Cantos XXIX a XXXIII: O Empíreo

O que significa

Os três círculos são o limite do que o poema consegue ver e dizer: a visão é de uma luz simples, e o que se diz é o que a emoção guardou. O enigma da imagem humana dentro do círculo divino é a pergunta que o poema não resolve. A roda é o oposto, uma resposta em movimento. O poema não termina com uma tese, termina com uma rotação, e o imperfeito do verbo mantém o movimento em curso. O verbo que fecha, mover, já abria a cântica.

O texto sustenta duas leituras. Na primeira, a visão final é um fracasso honrado do intelecto, e o que sobra é a vontade movida. Na segunda, a vontade movida é a compreensão que o intelecto não alcança: Dante entende pelo amor o que não entende pelo conceito. O poema as sugere sem escolher.

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