Clavis Libri

Personagem

Beatriz

Quem é

Beatriz é, no Paraíso, a guia que ensina e depois se afasta. Dos primeiros versos ao canto XXXI ela lê o rosto de Dante, responde a dúvidas que ele ainda não formulou, corrige o que ele imagina e o leva de céu em céu pelo simples gesto de olhar para cima. No trigésimo primeiro canto cede o lugar de guia a São Bernardo e volta ao trono que lhe cabe. A mulher que no Éden julgava e acusava aparece aqui como mestra: sorri, explica, ri quando o peregrino a esquece por Deus, e no canto XXI recusa o riso, porque a beleza dela, acesa a cada degrau, reduziria a cinza um corpo mortal. Ensina por princípios e por exemplos de ofício (o raio refletido, o carvão em brasa, o nó que ninguém tenta), e pede a Dante o que ele pensa antes de refutá-lo com prova. A identificação com a florentina Beatrice Portinari vem da tradição dos primeiros comentadores, não do poema: dentro da Commedia ela nunca recebe sobrenome nem biografia verificável. Aqui interessa o que ela faz depois de perdoar.

Trajetória

Antes do Paraíso, o que Beatriz é para a viagem já foi dito por ela mesma, no canto II do Inferno, ao descer ao Limbo para mandar Virgílio socorrer o peregrino. Quem desce não vem por obrigação, vem por amor, e é com essa voz que ela reaparece no canto I do Paraíso:

I’ son Beatrice che ti faccio andare; / vegno del loco ove tornar disio; / amor mi mosse, che mi fa parlare, eu sou Beatriz, a que te faz ir; venho do lugar aonde desejo voltar; amor me moveu, que me faz falar.
Cantos I a IV: A selva e a porta

No canto I ela olha o sol de frente e Dante olha para ela, e é do olhar dela que nasce o gesto dele. Quando ele pensa estar na terra, corrige antes de ele perguntar:

Tu non se’ in terra, sì come tu credi; / ma folgore, fuggendo il proprio sito, / non corse come tu ch’ad esso riedi, tu não estás na terra, como crês; mas nem o raio, ao fugir do seu lugar, correu como tu, que voltas ao teu.
Cantos I a IV: A Lua

A explicação que vem a seguir não descreve a subida, descreve a ordem em que subir é natural:

Le cose tutte quante / hanno ordine tra loro, e questo è forma / che l’universo a Dio fa simigliante, todas as coisas têm ordem entre si, e esta é a forma que faz o universo semelhante a Deus.
Cantos I a IV: A Lua

Ela fecha com a imagem do rio que desce do monte, e o que seria espantoso, diz, é Dante parado:

Non dei più ammirar, se bene stimo, / lo tuo salir, se non come d’un rivo / se d’alto monte scende giuso ad imo. / Maraviglia sarebbe in te se, privo / d’impedimento, giù ti fossi assiso, / com’ a terra quïete in foco vivo, não deves te espantar mais com a tua subida, se bem julgo, do que com um rio que desce do alto monte ao fundo. Espanto seria em ti se, sem impedimento, te tivesses assentado embaixo, como a quietude no fogo vivo sobre a terra.
Cantos I a IV: A Lua

No canto II a primeira lição vira disputa: Dante diz que as manchas da Lua vêm de corpos ralos e densos, e ela o refuta passo a passo, com um argumento e uma experiência de três espelhos. Antes de responder, sorri e mostra onde o método falha:

certo non ti dovrien punger li strali / d’ammirazione omai, poi dietro ai sensi / vedi che la ragione ha corte l’ali, certamente não deveriam te ferir mais as flechas da admiração, já que vês que, atrás dos sentidos, a razão tem asas curtas.
Cantos I a IV: A Lua

No canto III ela explica que as faces que Dante vê como reflexos são substâncias verdadeiras e manda que ele fale com elas, e no canto IV lê no rosto dele as duas dúvidas que o calam. Antes de responder, classifica a que tem menos veneno:

Parere ingiusta la nostra giustizia / ne li occhi d’i mortali, è argomento / di fede e non d’eretica nequizia, que a nossa justiça pareça injusta aos olhos dos mortais é argumento de fé, e não de heresia malvada.
Cantos I a IV: A Lua

E responde com uma imagem física, a do fogo que volta a subir por mais que o torçam:

ché volontà, se non vuol, non s’ammorza, / ma fa come natura face in foco, / se mille volte vïolenza il torza, pois a vontade, se não quer, não se extingue, mas faz como a natureza faz no fogo, mesmo que a violência o torça mil vezes.
Cantos I a IV: A Lua

No canto V o brilho dela já vence os olhos de Dante, e ela começa a resposta sobre o voto pelo valor da liberdade:

Lo maggior don che Dio per sua larghezza / fesse creando, e a la sua bontate / più conformato, e quel ch’e’ più apprezza, / fu de la volontà la libertate; / di che le creature intelligenti, / e tutte e sole, fuoro e son dotate, o maior dom que Deus, por sua largueza, fez ao criar, e o mais conforme à sua bondade, e o que ele mais preza, foi a liberdade da vontade, de que as criaturas inteligentes, todas e só elas, foram e são dotadas.
Cantos V a VIII: Mercúrio e Vênus

No canto VII, depois do hino de Justiniano, ela ri e desfaz a questão da cruz. Admite que o decreto está escondido e dá o critério de quem o vê:

Questo decreto, frate, sta sepulto / a li occhi di ciascuno il cui ingegno / ne la fiamma d’amor non è adulto, este decreto, irmão, está sepultado aos olhos de todo aquele cujo engenho não está adulto na chama do amor.
Cantos V a VIII: Mercúrio e Vênus

No canto X Dante entrega todo o amor a Deus e esquece quem o conduz, e ela, em vez de se queixar, ri:

Cor di mortal non fu mai sì digesto / a divozione e a rendersi a Dio / con tutto ’l suo gradir cotanto presto, / come a quelle parole mi fec’ io; / e sì tutto ’l mio amore in lui si mise, / che Bëatrice eclissò ne l’oblio, coração de mortal nunca esteve tão disposto à devoção e a se entregar a Deus, com toda a sua gratidão tão pronta, quanto eu fiquei àquelas palavras; e todo o meu amor nele se pôs de tal modo que Beatriz se eclipsou no esquecimento.
Cantos IX a XII: Vênus e o Sol

No canto XIV fala pelo peregrino antes de ele ter formado a pergunta, e depois é ele quem se explica por ter posposto os olhos dela à cruz:

A costui fa mestieri, e nol vi dice / né con la voce né pensando ancora, / d’un altro vero andare a la radice, a este faz falta, e não vo-lo diz nem com a voz nem pensando ainda, ir à raiz de outra verdade.
Cantos XIII a XVI: O Sol e Marte
Forse la mia parola par troppo osa, / posponendo il piacer de li occhi belli, / ne’ quai mirando mio disio ha posa, talvez a minha palavra pareça ousada demais, pospondo o prazer dos belos olhos, nos quais, mirando, o meu desejo tem repouso.
Cantos XIII a XVI: O Sol e Marte

No canto XVIII, logo depois de ouvir de Cacciaguida o exílio, a primeira palavra dela desloca o pensamento do peregrino para quem desfaz todo torto:

e quella donna ch’a Dio mi menava / disse: «Muta pensier; pensa ch’i’ sono / presso a colui ch’ogne torto disgrava»., e aquela dama que me levava a Deus disse: muda de pensamento; pensa que estou perto daquele que desfaz todo torto.
Cantos XVII a XX: A profecia e a Águia

No canto XXI ela não ri, e o motivo é a medida do corpo dele:

E quella non ridea; ma «S’io ridessi», / mi cominciò, «tu ti faresti quale / fu Semelè quando di cener fessi, e ela não ria; mas se eu risse, começou ela, tu te farias como foi Sêmele quando se desfez em cinza.
Cantos XXI a XXIV: Saturno e as estrelas fixas

No canto XXIII o convite se inverte, porque Dante viu coisas que o tornaram capaz de suportar o riso:

«Apri li occhi e riguarda qual son io; / tu hai vedute cose, che possente / se’ fatto a sostener lo riso mio»., abre os olhos e olha como eu sou; viste coisas que te fizeram capaz de suportar o meu riso.
Cantos XXI a XXIV: Saturno e as estrelas fixas

E ela o repreende com delicadeza por olhar o rosto dela e não o jardim sob os raios de Cristo, onde está a rosa em que o Verbo se fez carne:

«Perché la faccia mia sì t’innamora, / che tu non ti rivolgi al bel giardino / che sotto i raggi di Cristo s’infiora? / Quivi è la rosa in che ’l verbo divino / carne si fece; quivi son li gigli / al cui odor si prese il buon cammino»., por que o meu rosto tanto te enamora que não te voltas para o belo jardim que floresce sob os raios de Cristo? Ali está a rosa em que o Verbo divino se fez carne; ali estão os lírios, ao cujo odor se tomou o bom caminho.
Cantos XXI a XXIV: Saturno e as estrelas fixas

No canto XXVII ela muda de aspecto ao ouvir a ira de Pedro, como dama honesta que fica tímida só de ouvir a falta alheia, e depois explica onde estão:

«La natura del mondo, che quïeta / il mezzo e tutto l’altro intorno move, / quinci comincia come da sua meta; / e questo cielo non ha altro dove / che la mente divina, in che s’accende / l’amor che ’l volge e la virtù ch’ei piove, a natureza do mundo, que aquieta o centro e move tudo o mais ao redor, daqui começa como de sua meta; e este céu não tem outro onde senão a mente divina, em que se acende o amor que o faz girar e a virtude que ele chove.
Cantos XXV a XXVIII: As três virtudes e o Primeiro Móvel

Do cosmos passa ao homem sem ponte, e a palavra dela contra a cupidigia é também uma promessa de virada:

Oh cupidigia che i mortali affonde / sì sotto te, che nessuno ha podere / di trarre li occhi fuor de le tue onde! / Ben fiorisce ne li uomini il volere; / ma la pioggia continüa converte / in bozzacchioni le sosine vere, oh cupidigia, que afundas tanto os mortais sob ti que ninguém tem poder de tirar os olhos das tuas ondas! Bem floresce nos homens o querer; mas a chuva contínua converte em ameixas mirradas as ameixas verdadeiras.
Cantos XXV a XXVIII: As três virtudes e o Primeiro Móvel

No canto XXVIII responde à suspensão de Dante com uma frase só, e zomba com carinho da dificuldade dele:

Da quel punto / depende il cielo e tutta la natura. / Mira quel cerchio che più li è congiunto; / e sappi che ’l suo muovere è sì tosto / per l’affocato amore ond’ elli è punto», daquele ponto depende o céu e toda a natureza. Olha aquele círculo que lhe é mais unido; e sabe que o seu movimento é tão veloz pelo amor afogueado de que é picado.
Cantos XXV a XXVIII: As três virtudes e o Primeiro Móvel
«Se li tuoi diti non sono a tal nodo / sufficïenti, non è maraviglia: / tanto, per non tentare, è fatto sodo!», se os teus dedos não bastam para tal nó, não é de admirar: de tanto não o tentarem, ele ficou duro!
Cantos XXV a XXVIII: As três virtudes e o Primeiro Móvel

Ela dá então a regra do Paraíso e conta, sem cerimônia, que um papa e doutor da Igreja riu de si mesmo ao ver os coros como eram:

Quinci si può veder come si fonda / l’esser beato ne l’atto che vede, / non in quel ch’ama, che poscia seconda; / e del vedere è misura mercede, / che grazia partorisce e buona voglia: / così di grado in grado si procede, daqui se pode ver como se funda o ser beato no ato que vê, e não no que ama, que depois segue; e do ver é medida o mérito, que graça e boa vontade geram: assim se vai de grau em grau.
Cantos XXV a XXVIII: As três virtudes e o Primeiro Móvel

No canto XXIX fala pela última vez em tom de aula, da criação dos anjos, e começa pela razão que exclui o ganho de quem cria:

Non per aver a sé di bene acquisto, / ch’esser non può, ma perché suo splendore / potesse, risplendendo, dir “Subsisto”, / in sua etternità di tempo fore, / fuor d’ogne altro comprender, come i piacque, / s’aperse in nuovi amor l’etterno amore, não para ter para si acréscimo de bem, que não pode ser, mas para que o seu resplendor, resplandecendo, pudesse dizer subsisto, em sua eternidade, fora do tempo, fora de toda outra compreensão, como lhe aprouve, o eterno amor se abriu em novos amores.
Cantos XXIX a XXXIII: O Empíreo

No canto XXX o poeta renuncia a descrevê-la, e é ela quem define o Empíreo em termos encadeados, luz, amor, alegria:

Dal primo giorno ch’i’ vidi il suo viso / in questa vita, infino a questa vista, / non m’è il seguire al mio cantar preciso; / ma or convien che mio seguir desista / più dietro a sua bellezza, poetando, / come a l’ultimo suo ciascuno artista, desde o primeiro dia em que vi o seu rosto nesta vida até esta vista, o seguir não me foi cortado no meu cantar; mas agora convém que o meu seguir desista de ir atrás da beleza dela, poetando, como em seu limite todo artista.
Cantos XXIX a XXXIII: O Empíreo
ricominciò: «Noi siamo usciti fore / del maggior corpo al ciel ch’è pura luce: / luce intellettüal, piena d’amore; / amor di vero ben, pien di letizia; / letizia che trascende ogne dolzore, saímos do maior corpo para o céu que é pura luz: luz intelectual, cheia de amor; amor do verdadeiro bem, cheio de alegria; alegria que transcende toda doçura.
Cantos XXIX a XXXIII: O Empíreo

Mostra-lhe o trono vazio que a tradição lê como o de Henrique VII e culpa a cupidigia que enxota a ama:

sederà l’alma, che fia giù agosta, / de l’alto Arrigo, ch’a drizzare Italia / verrà in prima ch’ella sia disposta. / La cieca cupidigia che v’ammalia / simili fatti v’ha al fantolino / che muor per fame e caccia via la balia, sentará a alma, que será augusta lá embaixo, do alto Henrique, que virá endireitar a Itália antes que ela esteja disposta. A cega cupidigia que vos enfeitiça vos fez como o menininho que morre de fome e enxota a ama.
Cantos XXIX a XXXIII: O Empíreo

No canto XXXI Dante se volta para perguntar uma coisa a ela e encontra um velho. A pergunta imediata revela o que ele trazia:

E «Ov’ è ella?», sùbito diss’ io. / Ond’ elli: «A terminar lo tuo disiro / mosse Beatrice me del loco mio; / e se riguardi sù nel terzo giro / dal sommo grado, tu la rivedrai / nel trono che suoi merti le sortiro», e onde está ela?, disse eu logo. E ele: para terminar o teu desejo Beatriz me moveu do meu lugar; e se olhares lá em cima, no terceiro giro a partir do mais alto grau, tu a verás de novo no trono que seus méritos lhe deram.
Cantos XXIX a XXXIII: O Empíreo

Ele a vê feita coroa, longe, e lhe dirige a última oração, que agradece o ter vindo ao inferno por ele. Ela responde sem palavra:

Così orai; e quella, sì lontana / come parea, sorrise e riguardommi; / poi si tornò a l’etterna fontana, assim orei; e ela, tão longe quanto parecia, sorriu e me olhou; depois voltou-se à eterna fonte.
Cantos XXIX a XXXIII: O Empíreo

No canto XXXII Bernardo a mostra de novo, sentada na terceira fila, logo abaixo de Eva, ao lado de Raquel, e é a última vez que o poema a nomeia fora da oração.

Temas que encarna

Beatriz encarna o Conhecimento e sabedoria que se pede por amor e se dá por graça. Cada resposta dela parte de um princípio (a ordem do universo, a liberdade, a bondade que se dá) e desce a um caso, e o que a sustenta é o Amor que a moveu ao Limbo e que a faz repetir, canto a canto, que o paraíso não está só nos olhos dela. A Deus e o divino que Dante vê no fim passa por ela antes de passar por Bernardo: foi nos olhos dela que ele viu primeiro a chama do ponto de luz, e é ela quem, ao se calar, entrega o último passo a quem pode pedir à Virgem.

A função de Beatriz muda de lição em lição. No canto I é a que corrige a ilusão do peregrino. No V e no VII, a que aplica o argumento a um caso, o voto e a cruz. No X e no XIV, a que ri do esquecimento e lê a pergunta. No XXI, a que protege com a seriedade. No XXIII, a que apresenta o jardim. No XXVII e no XXVIII, a que passa do cosmos à crítica dos homens. No XXXI, a que sorri e volta à fonte. A mesma mulher é mestra, guarda e ponte, e o que a une é que em cada lição ela fala com Dante como com quem pode responder.

Leituras divergentes

Beatriz tem voz no Paraíso: ensina, corrige e responde, e não é só objeto do canto.

O texto sustenta duas leituras da saída dela no canto XXXI. Na primeira, é o fim natural de um ofício: a guia levou o peregrino até onde a razão e a teologia chegam, e ao último passo só se chega pedindo à Virgem, o que Bernardo sabe fazer. Na segunda, ela nunca deixou a fonte, e o peregrino só aprende a vê-la assim ao ver o sorriso dela se voltar para a luz. O poema não escolhe, e a ordem do diálogo mostra que a troca de guia saiu da vontade dela, não da dele.

Relações

  • Dante: o aluno que ela instrui, repreende e perde de vista no canto XXXI.
  • São Bernardo: o guia a quem ela cede o lugar e que a aponta no trono.
  • Virgem Maria: a rosa a que ela aponta no XXIII e a quem Bernardo reza em lugar dela.
  • São Pedro: o examinador de Dante, cuja ira ela acompanha com a mudança de cor.
  • Beatriz: a Beatriz do chamado do Inferno e da repreensão do Éden.