Clavis Libri

Símbolo

A rosa celeste

O que é

A rosa celeste é a forma que a luz toma no Empíreo para mostrar a corte dos bem-aventurados. Quando Dante bebe do rio de luz e as flores e centelhas se trocam em festa maior, vê o lume que faz visível o criador à criatura, estendido em figura circular tão larga que a circunferência seria cintura demais ao sol. É a rosa, em mais de mil degraus, e dela Beatriz mostra o convento das estolas brancas, a cidade que gira, os bancos já cheios de modo que pouca gente mais se deseja. Os santos são as pétalas e os anjos, as abelhas que descem à flor e sobem de volta ao amor. Não há perspectiva ali: perto e longe nada põem nem tiram, porque onde Deus governa sem intermediário a lei natural nada vale. São Bernardo ensina o desenho: Eva aos pés de Maria, a linha das hebreias que parte a flor em dois lados, as crianças nos degraus mais baixos, as raízes (Adão e Pedro, na leitura corrente), e um grande assento já coroado, o do alto Arrigo, que a tradição lê como Henrique VII.

Onde aparece

O Empíreo se abre ao fim do canto XXX, depois do rio e dos topázios, que são prefácios sombreados do verdadeiro:

Anche soggiunse: «Il fiume e li topazi / ch’entrano ed escono e ’l rider de l’erbe / son di lor vero umbriferi prefazi. / Non che da sé sian queste cose acerbe; / ma è difetto da la parte tua, / che non hai viste ancor tanto superbe», o rio e os topázios que entram e saem e o rir das ervas são prefácios sombreados do seu verdadeiro; não que essas coisas sejam por si imaturas, mas o defeito vem da tua parte, que ainda não tens vistas tão soberbas.
Cantos XXIX a XXXIII: O Empíreo

Beatriz mostra o trono vazio do imperador:

sederà l’alma, che fia giù agosta, / de l’alto Arrigo, ch’a drizzare Italia / verrà in prima ch’ella sia disposta. / La cieca cupidigia che v’ammalia / simili fatti v’ha al fantolino / che muor per fame e caccia via la balia, sentará a alma, que será augusta lá embaixo, do alto Henrique, que virá endireitar a Itália antes que ela esteja disposta. A cega cupidigia que vos enfeitiça vos fez como o menininho que morre de fome e enxota a ama.
Cantos XXIX a XXXIII: O Empíreo

No canto XXXI a forma é nomeada:

In forma dunque di candida rosa / mi si mostrava la milizia santa / che nel suo sangue Cristo fece sposa; / ma l’altra, che volando vede e canta / la gloria di colui che la ’nnamora / e la bontà che la fece cotanta, em forma de cândida rosa, portanto, mostrava-se-me a milícia santa que Cristo fez esposa com o seu sangue; mas a outra, que voando vê e canta a glória daquele que a enamora e a bondade que a fez tanta.
Cantos XXIX a XXXIII: O Empíreo

No canto XXXII Bernardo lê a rosa pela ordem dos assentos. Eva está aos pés de Maria:

«La piaga che Maria richiuse e unse, / quella ch’è tanto bella da’ suoi piedi / è colei che l’aperse e che la punse, a chaga que Maria fechou e ungiu, aquela que é tão bela a seus pés é quem a abriu e a picou.
Cantos XXIX a XXXIII: O Empíreo

Os degraus de baixo foram preenchidos por mérito alheio:

E sappi che dal grado in giù che fiede / a mezzo il tratto le due discrezioni, / per nullo proprio merito si siede, / ma per l’altrui, con certe condizioni: / ché tutti questi son spiriti ascolti / prima ch’avesser vere elezïoni, e sabe que do grau para baixo que fere ao meio o traço das duas discrições, por nenhum mérito próprio se senta, mas pelo alheio, com certas condições: pois todos estes são espíritos desligados antes que tivessem verdadeiras escolhas.
Cantos XXIX a XXXIII: O Empíreo

E a lei de tudo é a do anel ao dedo:

Dentro a l’ampiezza di questo reame / casüal punto non puote aver sito, / se non come tristizia o sete o fame: / ché per etterna legge è stabilito / quantunque vedi, sì che giustamente / ci si risponde da l’anello al dito, dentro da amplidão deste reino, ponto casual não pode ter sítio, a não ser como tristeza ou sede ou fome: pois por lei eterna está estabelecido tudo o que vês, de modo que se responde justamente do anel ao dedo.
Cantos XXIX a XXXIII: O Empíreo

No canto XXIII já aparecera a rosa em que o Verbo se fez carne, que é Maria e não a corte inteira:

«Perché la faccia mia sì t’innamora, / che tu non ti rivolgi al bel giardino / che sotto i raggi di Cristo s’infiora? / Quivi è la rosa in che ’l verbo divino / carne si fece; quivi son li gigli / al cui odor si prese il buon cammino»., por que o meu rosto tanto te enamora que não te voltas para o belo jardim que floresce sob os raios de Cristo? Ali está a rosa em que o Verbo divino se fez carne; ali estão os lírios, ao cujo odor se tomou o bom caminho.
Cantos XXI a XXIV: Saturno e as estrelas fixas

O que significa

A rosa é a Igreja que Cristo comprou com o sangue, e o seu desenho diz que a salvação tem forma e ordem: não é acaso, e a medida do assento é a do anel e do dedo. A flor reúne os que creram em Cristo por vir e os que creram nele vindo, e as crianças sentadas por mérito alheio lembram que o reino não é só dos que escolheram. É também a forma que o poema dá à comunhão, num espaço sem distância, em que a imagem do santo desce até Dante sem mistura de meio.

O texto sustenta duas leituras. Na primeira, a rosa é a hierarquia ordenada, e Bernardo responde à dúvida de Dante pela lei eterna que fixa cada assento. Na segunda, é a imagem de uma comunhão em que a desigualdade dos assentos importa menos do que o lugar de cada um na mesma flor. A dúvida de Dante sobre as crianças fica em silêncio, e o poema responde com a ordem, não com a justificação.

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