Clavis Libri

Personagem

Dante, o peregrino

Quem é

Dante é o peregrino que, no alto da montanha do Purgatório, já lavado e purificado, sobe pelos nove céus guiado por Beatriz e termina diante da luz que o poema não consegue dizer. Na terceira cântica a viagem muda de natureza. No Inferno ele aprendia a olhar o pecado dos outros e no Purgatório a reconhecer o próprio, aqui aprende a perguntar bem e a ser examinado. O peso do corpo some sem que ele perceba, a subida é rápida demais para se notar, e a matéria do canto passa a ser a luz, a dúvida e a resposta. Quem narra, anos depois, é o poeta que volta ao leitor para dizer o que a memória não guardou, e as duas figuras convivem em cada interrupção: o peregrino de 1300 é um estudante curioso, vaidoso do sangue, tímido diante da verdade e capaz de esquecer a guia quando se enamora de Deus, e o poeta que escreve em exílio sabe o preço de dizer o que viu. É o único vivo no céu e o único que carrega o encargo de levar ao mundo o que ouviu: Cacciaguida lhe manda manifestar toda a visão, João manda levar a correção sobre o corpo dele, Pedro manda abrir a boca.

Trajetória

O Paraíso abre com a confissão de que o que o peregrino viu não se diz, e o gesto que o põe nessa condição é um olhar. Ele fixa os olhos no sol além do costume porque Beatriz o faz, e dali nasce a mudança que ele não consegue contar, a que o poeta chama de ultrapassar o humano com um verbo que ele mesmo inventa:

Trasumanar significar per verba / non si poria; però l’essemplo basti / a cui esperïenza grazia serba. "Significar" o que é "transumanar", ultrapassar a própria humanidade, não é possível por palavras, e só quem viveu a experiência entende o exemplo. A incapacidade de dizer não é falha de estilo, é o assunto.
Paraíso

Dante ainda pensa estar na terra, e Beatriz corrige antes de ele perguntar. No canto II o peregrino é posto à prova pelo método: afirma que as manchas da Lua vêm de corpos ralos e densos, e ela o refuta com uma experiência de três espelhos. No canto III ele cai no erro contrário ao de Narciso, porque toma pessoas por reflexos:

tali vid’ io più facce a parlar pronte; / per ch’io dentro a l’error contrario corsi / a quel ch’accese amor tra l’omo e ’l fonte, tais vi muitas faces prontas a falar; por isso corri para o erro contrário ao que acendeu amor entre o homem e a fonte.
Cantos I a IV: A Lua

No canto seguinte o silêncio dele é um equilíbrio entre duas dúvidas, e quando fala dá a teoria do que o move a perguntar:

Nasce per quello, a guisa di rampollo, / a piè del vero il dubbio; ed è natura / ch’al sommo pinge noi di collo in collo, nasce por isso, à maneira de rebento, a dúvida ao pé do verdadeiro; e é natureza que nos empurra ao cimo de colina em colina.
Cantos I a IV: A Lua

No canto IX cunha dois verbos novos a partir do pronome para dizer o que lhe falta diante das almas, entrar no outro como o outro entra nele:

perché non satisface a’ miei disii? / Già non attendere’ io tua dimanda, / s’io m’intuassi, come tu t’inmii, por que não satisfaz os meus desejos? Eu não esperaria o teu pedido se eu me entuasse, como tu te enmias, isto é, se eu entrasse em ti como tu entras em mim.
Cantos IX a XII: Vênus e o Sol

No canto X o peregrino esquece quem o conduz ao se entregar a Deus, e a guia ri. No canto XI ele escreve de cima, livre dos cuidados dos ofícios da terra que o poeta enumera. No canto XIII recebe de Tomás a regra que se aplica a ele: ia concluir sem distinguir sabedoria régia de sabedoria total, e a resposta é o chumbo nos pés:

E questo ti sia sempre piombo a’ piedi, / per farti mover lento com’ uom lasso / e al sì e al no che tu non vedi, e que isto te seja sempre chumbo nos pés, para te fazer mover lento como homem cansado, tanto ao sim como ao não que não vês.
Cantos XIII a XVI: O Sol e Marte

No canto XIV, diante da cruz de luzes, ele pede desculpa por ter posposto os olhos de Beatriz:

Forse la mia parola par troppo osa, / posponendo il piacer de li occhi belli, / ne’ quai mirando mio disio ha posa, talvez a minha palavra pareça ousada demais, pospondo o prazer dos belos olhos, nos quais, mirando, o meu desejo tem repouso.
Cantos XIII a XVI: O Sol e Marte

O encontro com Cacciaguida mostra as duas faces dele. No canto XVI o peregrino confessa a vaidade do sangue e a mede pelo lugar onde a sente:

O poca nostra nobiltà di sangue, / se glorïar di te la gente fai / qua giù dove l’affetto nostro langue, / mirabil cosa non mi sarà mai: / ché là dove appetito non si torce, / dico nel cielo, io me ne gloriai, ó pouca nossa nobreza de sangue, se fazes a gente se gloriar de ti cá embaixo, onde o nosso afeto fraqueja, jamais me será coisa admirável: porque lá onde o apetite não se desvia, digo no céu, eu me gloriei dela.
Cantos XIII a XVI: O Sol e Marte

No canto XVII pergunta o que lhe vem, porque a seta prevista chega mais lenta, e ouve que o exílio vem e que o pão alheio terá gosto de sal. Sua resposta não é a de quem se resigna, é a de quem calcula o preço de falar:

e s’io al vero son timido amico, / temo di perder viver tra coloro / che questo tempo chiameranno antico»., e se eu sou amigo tímido da verdade, temo perder a vida entre aqueles que chamarão antigo este tempo.
Cantos XVII a XX: A profecia e a Águia

A ordem que recebe é de dizer tudo, mesmo que a voz seja molesta ao primeiro gosto. No canto XVIII vê as almas desenharem letras em Júpiter e, no canto XIX, faz à Águia a dúvida que todo leitor faz, a do homem que nasce à margem do Indo. A resposta recusa o lugar do juiz e devolve a pergunta a quem a formulou:

Or tu chi se’, che vuo’ sedere a scranna, / per giudicar di lungi mille miglia / con la veduta corta d’una spanna?, agora tu, quem és, que queres sentar-te na cadeira para julgar de mil milhas de distância com a vista curta de um palmo?
Cantos XVII a XX: A profecia e a Águia

No canto XXI pergunta a Pedro Damião por que só ele foi escolhido e recebe a regra de não presumir, e no canto XXII olha a Terra de cima e sorri do seu vil aspecto:

L’aiuola che ci fa tanto feroci, / volgendom’ io con li etterni Gemelli, / tutta m’apparve da’ colli a le foci, o canteiro que nos faz tão ferozes, enquanto eu girava com os Gêmeos eternos, apareceu-me todo, das colinas às fozes.
Cantos XXI a XXIV: Saturno e as estrelas fixas

No canto XXIV é examinado por Pedro como o bacharel diante do mestre, define a fé, é testado pela moeda e profere o credo:

Sì come il baccialier s’arma e non parla / fin che ’l maestro la question propone, / per approvarla, non per terminarla, assim como o bacharel se arma e não fala até que o mestre proponha a questão, para aprová-la, não para encerrá-la.
Cantos XXI a XXIV: Saturno e as estrelas fixas

No canto XXV o poeta declara a esperança de voltar poeta à pia do batismo, e no canto XXVI explica a João que o tirou do mar do amor torto:

con la predetta conoscenza viva, / tratto m’hanno del mar de l’amor torto, / e del diritto m’han posto a la riva. / Le fronde onde s’infronda tutto l’orto / de l’ortolano etterno, am’ io cotanto / quanto da lui a lor di bene è porto», com o conhecimento vivo já dito, tiraram-me do mar do amor torto e me puseram na margem do direito. As folhas de que se enfolha todo o jardim do eterno hortelão, amo-as tanto quanto é o bem que ele leva até elas.
Cantos XXV a XXVIII: As três virtudes e o Primeiro Móvel

No canto XXVII vê do alto a ponta ocidental do mundo e o passo louco de Ulisses, e o poema não comenta:

sì ch’io vedea di là da Gade il varco / folle d’Ulisse, e di qua presso il lito / nel qual si fece Europa dolce carco, de modo que eu via, além de Gades, o passo louco de Ulisses, e deste lado, perto, a praia em que Europa se fez doce carga.
Cantos XXV a XXVIII: As três virtudes e o Primeiro Móvel

O fim do peregrino é um pedido e uma perda. No canto XXXI ele pergunta por Beatriz e vê um velho, reza a ela de longe e recebe um sorriso. No canto XXXII ouve de Bernardo que o último passo não se ganha batendo as próprias asas:

Veramente, ne forse tu t’arretri / movendo l’ali tue, credendo oltrarti, / orando grazia conven che s’impetri / grazia da quella che puote aiutarti; / e tu mi seguirai con l’affezione, / sì che dal dicer mio lo cor non parti», em verdade, que não retrocedas talvez movendo as tuas asas, crendo avançar, convém orando impetrar graça daquela que pode te ajudar; e tu me seguirás com a afeição, de modo que do meu dizer não parta o coração.
Cantos XXIX a XXXIII: O Empíreo

No canto XXXIII o peregrino diz o que lhe sobra da visão e pede à suma luz uma faísca:

Da quinci innanzi il mio veder fu maggio / che ’l parlar mostra, ch’a tal vista cede, / e cede la memoria a tanto oltraggio. / Qual è colüi che sognando vede, / che dopo ’l sogno la passione impressa / rimane, e l’altro a la mente non riede, daqui em diante o meu ver foi maior do que o falar mostra, que cede a tal vista, e cede a memória a tanto excesso. Qual quem sonhando vê, que depois do sonho a emoção impressa fica, e o resto à mente não volta.
Cantos XXIX a XXXIII: O Empíreo
O somma luce che tanto ti levi / da’ concetti mortali, a la mia mente / ripresta un poco di quel che parevi, / e fa la lingua mia tanto possente, / ch’una favilla sol de la tua gloria / possa lasciare a la futura gente, ó suma luz, que tanto te elevas acima dos conceitos mortais, empresta de novo à minha mente um pouco do que parecias, e faz a minha língua tão poderosa que uma só faísca da tua glória ela possa deixar à gente futura.
Cantos XXIX a XXXIII: O Empíreo

Temas que encarna

Dante encarna o Conhecimento e sabedoria como desejo: a dúvida nasce ao pé do verdadeiro e empurra o homem de colina em colina, e cada canto do Paraíso começa por uma pergunta que ele faz ou que lhe leem no rosto. Encarna também a Fé examinada, a que o poema define pela voz dele e a que Pedro aprova antes de lhe pedir a moeda na bolsa. E encarna o Lar, exílio e retorno: o que ele diz ao longo da subida é dito já em exílio, e a esperança de voltar poeta à pia do batismo é o horizonte do poema.

O peregrino do Paraíso é o mais passivo e o mais ativo dos três. Passivo porque quase não se move: é levado, corrigido, examinado, e a maior parte das falas é de outros. Ativo porque só ele transforma o que ouve em verso, e o poema avisa que o que sobra da visão é emoção, não imagem. Isso faz do leitor o último elo da cadeia, e explica que a cântica insista tanto no aviso aos que ficaram na praia: quem lê acompanha um aluno e uma aula, e a lição só se completa com quem a recebe.

Leituras divergentes

Dante deixa de ser quem fala sobre Beatriz e passa a ser quem a ouve.

O texto sustenta duas leituras da modéstia dele diante de Bernardo e de Pedro. Na primeira, o peregrino é discípulo de verdade, e o que escreve é o que aprendeu. Na segunda, a modéstia é retórica de quem sabe que vai ser lido, e a repetição do limite (a pena que salta, a memória que cede) é o modo de fazer o leitor acreditar no que não pode ser dito. O poema dá as duas e não escolhe.

Relações

  • Beatriz: a guia que o instrui, o repreende e se despede no canto XXXI.
  • Cacciaguida: o trisavô que lhe anuncia o exílio e manda dizer tudo.
  • São Pedro: o examinador da fé, que lhe dá o cargo de abrir a boca.
  • São Bernardo: o guia final, que lhe manda pedir graça a Maria.
  • Virgem Maria: a quem o peregrino chega pela oração de outro.
  • Adão: o primeiro homem, que lhe responde sem ser perguntado.
  • Tomás de Aquino: o mestre que lhe põe chumbo nos pés.