O tema na obra
O Paraíso é a cântica em que saber e ver se tornam a mesma coisa, e o poema avisa cedo que o método tem limite. No canto II, Beatriz responde à explicação de Dante sobre as manchas da Lua com uma frase sobre a razão, que tem asas curtas atrás dos sentidos:
certo non ti dovrien punger li strali / d’ammirazione omai, poi dietro ai sensi / vedi che la ragione ha corte l’ali, certamente não deveriam te ferir mais as flechas da admiração, já que vês que, atrás dos sentidos, a razão tem asas curtas.
O que se vê é medido: ela refuta o peregrino por prova e por experiência. Mas o saber não termina na demonstração, e o canto IV dá a teoria do perguntar, a dúvida que nasce ao pé do verdadeiro e empurra o homem de colina em colina:
Nasce per quello, a guisa di rampollo, / a piè del vero il dubbio; ed è natura / ch’al sommo pinge noi di collo in collo, nasce por isso, à maneira de rebento, a dúvida ao pé do verdadeiro; e é natureza que nos empurra ao cimo de colina em colina.
No Sol, o saber ganha rosto. A coroa dos doze sábios de Tomás de Aquino junta pensadores de épocas e posições diferentes, e entre eles está o que os comentadores dão como adversário do próprio Tomás, Sigieri, chamado luz eterna e lembrado por silogizar verdades que despertaram inveja:
essa è la luce etterna di Sigieri, / che, leggendo nel Vico de li Strami, / silogizzò invidïosi veri, essa é a luz eterna de Sigieri, que, ensinando na Rua da Palha, silogizou verdades que despertaram inveja.
O canto XIII dá o método. A diferença entre os homens não ofende o modelo, porque vem da matéria que recebe a marca, e Salomão é sem par só em prudência régia. A regra de conduta é o chumbo nos pés: antes de afirmar ou de negar, distinguir.
E questo ti sia sempre piombo a’ piedi, / per farti mover lento com’ uom lasso / e al sì e al no che tu non vedi, e que isto te seja sempre chumbo nos pés, para te fazer mover lento como homem cansado, tanto ao sim como ao não que não vês.
No XIX, a Águia recusa a cadeira do juiz que quer julgar de mil milhas com a vista de um palmo:
Or tu chi se’, che vuo’ sedere a scranna, / per giudicar di lungi mille miglia / con la veduta corta d’una spanna?, agora tu, quem és, que queres sentar-te na cadeira para julgar de mil milhas de distância com a vista curta de um palmo?
No XXVIII, Dante estranha que os círculos mais perto do ponto sejam os mais rápidos, e Beatriz diz que ele media a coisa errada. A regra do Paraíso é que o ser beato se funda no ato que vê:
Quinci si può veder come si fonda / l’esser beato ne l’atto che vede, / non in quel ch’ama, che poscia seconda; / e del vedere è misura mercede, / che grazia partorisce e buona voglia: / così di grado in grado si procede, daqui se pode ver como se funda o ser beato no ato que vê, e não no que ama, que depois segue; e do ver é medida o mérito, que graça e boa vontade geram: assim se vai de grau em grau.
E até um papa e doutor da Igreja riu de si mesmo ao abrir os olhos e ver os coros como eram. O saber da terra se corrige quando se vê. No canto XXXIII o mesmo movimento chega ao limite: Dante queria ver como a imagem humana se ajusta ao círculo divino, mas as penas dele não bastavam.
tal era io a quella vista nova: / veder voleva come si convenne / l’imago al cerchio e come vi s’indova; / ma non eran da ciò le proprie penne: / se non che la mia mente fu percossa / da un fulgore in che sua voglia venne, assim era eu diante daquela vista nova: queria ver como se ajustava a imagem ao círculo e como ali se aloja; mas para isso não eram as minhas penas: senão que a minha mente foi atingida por um fulgor em que o seu querer veio.
Percorrido o caminho, o saber do Paraíso não é um acúmulo de proposições. É uma disposição: pergunta-se, examina-se, distingue-se, e no fim o intelecto reconhece o ponto em que o querer chega onde a conta não chega.
Quem o encarna
Beatriz ensina por princípio e por experiência. Tomás de Aquino ensina a distinguir. Boaventura ensina a julgar a própria casa. Dante é o aluno que pergunta. São Pedro é o examinador que pede a moeda na bolsa.
Onde aparece
- Canto II: Beatriz refuta a explicação de Dante sobre as manchas da Lua com um argumento e uma experiência de três espelhos.
- Canto IV: Dante dá a teoria do perguntar, a dúvida que nasce ao pé do verdadeiro e empurra o homem de colina em colina.
- Canto IX: Dante inventa verbos a partir do pronome para dizer o que lhe falta, entrar na alma como ela entra nele.
- Canto X: Tomás nomeia a coroa dos sábios, da luz que a tradição lê como Salomão, sem segundo, a Sigieri, que silogizou verdades invejadas.
- Canto XII: Boaventura nomeia os acompanhantes da segunda coroa, entre eles Hugo de São Vítor, Natã, Crisóstomo, Anselmo e Joaquim.
- Canto XIII: Tomás separa saber de prudência régia e manda Dante pôr chumbo nos pés antes de afirmar ou negar.
- Canto XIX: A Águia nega ao mortal a cadeira de juiz e a vista que alcance o fundo da justiça eterna.
- Canto XXIV: Dante defende diante de Pedro que a chuva do Espírito é o silogismo que concluiu em si a fé.
- Canto XXVIII: Beatriz mede o círculo pela virtude, ensina que o ser beato nasce do ver e conta que Gregório riu de si mesmo.
- Canto XXXIII: Dante vê o universo reunido num volume por amor e confessa que a memória e a língua cedem ao excesso.
Onde as leituras divergem
O texto sustenta duas leituras de quanto o saber vale no Paraíso. Na primeira, é a via legítima: Beatriz argumenta, Tomás distingue, Dante silogiza, e a razão tem lugar dentro da fé. Na segunda, o poema diminui o saber de cima para baixo: a razão tem asas curtas, a mão que treme obra aquém da ideia, Gregório ri de si mesmo, e no fim o geômetra não acha o princípio de que carece. As duas coexistem, e o canto XXVIII as junta na regra de que se vê primeiro e se ama depois.