O tema na obra
No Paraíso, a linguagem é o assunto tanto quanto o meio. O poema abre dizendo que o que se viu não se pode contar, porque o intelecto, ao se aproximar do que deseja, se afunda tanto que a memória não o acompanha, e passa a inventar o que a língua não tem. No primeiro canto Dante cunha o verbo trasumanar para dizer a mudança de ser, e o declara impossível por palavras:
Trasumanar significar per verba / non si poria; però l’essemplo basti / a cui esperïenza grazia serba."Significar" o que é "transumanar", ultrapassar a própria humanidade, não é possível por palavras, e só quem viveu a experiência entende o exemplo. A incapacidade de dizer não é falha de estilo, é o assunto.
No segundo, o aviso ao leitor divide quem fica na praia de quem segue no barco:
O voi che siete in piccioletta barca, / desiderosi d’ascoltar, seguiti / dietro al mio legno che cantando varca, / tornate a riveder li vostri liti: / non vi mettete in pelago, ché forse, / perdendo me, rimarreste smarriti.Quem segue num barquinho pequeno deve voltar à praia que já conhece, porque o mar alto que se abre daqui em diante é outro nível de dificuldade.
No nono, o poeta cria verbos a partir do pronome para dizer a diferença entre quem vê o desejo alheio em Deus e quem ainda precisa pedir:
perché non satisface a’ miei disii? / Già non attendere’ io tua dimanda, / s’io m’intuassi, come tu t’inmii, por que não satisfaz os meus desejos? Eu não esperaria o teu pedido se eu me entuasse, como tu te enmias, isto é, se eu entrasse em ti como tu entras em mim.
No décimo oitavo, as almas deixam de falar e se fazem alfabeto: cantam voando e se fazem D, I, L, e depois uma frase inteira, e a escrita nasce do canto e do voo antes de virar palavra.
sì dentro ai lumi sante creature / volitando cantavano, e faciensi / or D, or I, or L in sue figure., assim, dentro das luzes, criaturas santas, voando, cantavam, e faziam-se ora D, ora I, ora L, nas suas figuras.
No décimo nono, a Águia fala com um eu feito de nós, e a gramática é o sinal da justiça:
ch’io vidi e anche udi’ parlar lo rostro, / e sonar ne la voce e «io» e «mio», / quand’ era nel concetto e ‘noi’ e ‘nostro’., pois vi e ouvi falar o bico, e soar na voz eu e meu, quando no pensamento era nós e nosso.
No XXIII e no XXIV, o poema confessa que precisa saltar, e a pena salta:
e così, figurando il paradiso, / convien saltar lo sacrato poema, / come chi trova suo cammin riciso., e assim, figurando o paraíso, convém saltar o poema sagrado, como quem encontra o caminho cortado.
Però salta la penna e non lo scrivo: / ché l’imagine nostra a cotai pieghe, / non che ’l parlare, è troppo color vivo., por isso a pena salta e eu não o escrevo: pois a nossa imaginação, não só a fala, é cor demasiado viva para tais dobras.
No XXVI, Adão ensina que a língua é costume e que o nome de Deus mudou, de I para El, como a folha que se vai e outra que vem:
Pria ch’i’ scendessi a l’infernale ambascia, / I s’appellava in terra il sommo bene / onde vien la letizia che mi fascia; / e El si chiamò poi: e ciò convene, / ché l’uso d’i mortali è come fronda / in ramo, che sen va e altra vene, antes que eu descesse à angústia infernal, I se chamava na terra o sumo bem de que vem a alegria que me envolve; e El se chamou depois: e isso convém, porque o uso dos mortais é como a folha no ramo, que se vai e outra vem.
No XXX, o poeta renuncia a seguir em verso a beleza de Beatriz, como todo artista no limite da arte. E no XXXIII, o fecho: a memória cede, o que resta é a emoção, e o poeta pede uma faísca da glória para deixar à gente futura.
Da quinci innanzi il mio veder fu maggio / che ’l parlar mostra, ch’a tal vista cede, / e cede la memoria a tanto oltraggio. / Qual è colüi che sognando vede, / che dopo ’l sogno la passione impressa / rimane, e l’altro a la mente non riede, daqui em diante o meu ver foi maior do que o falar mostra, que cede a tal vista, e cede a memória a tanto excesso. Qual quem sonhando vê, que depois do sonho a emoção impressa fica, e o resto à mente não volta.
A linguagem do Paraíso não fracassa por acaso. Ela é construída para fracassar de modos distintos, e cada fracasso ensina uma coisa: o verbo novo mostra o limite do vocabulário, a pena que salta mostra o limite da imaginação, e a memória que cede mostra o limite do ver. O que resta ao poeta é a emoção, e é ela que o leitor recebe.
Quem o encarna
Dante é o poeta que inventa verbos, salta e pede uma faísca. Adão é o primeiro falante, que diz o que a língua foi. A águia de Justiça é a voz que soa eu e pensa nós. Beatriz é a que o poeta renuncia a cantar.
Onde aparece
- Canto I: O poeta invoca Apolo e cunha o verbo trasumanar, declarado impossível por palavras.
- Canto II: O poeta avisa o leitor da barquinha de que a água que toma nunca foi percorrida e se guia por Minerva, Apolo e as Musas.
- Canto IX: Dante cria os verbos intuarsi e inmiarsi para pedir a Folquet que o entenda como ele entende o desejo alheio.
- Canto X: O poeta manda o leitor ficar no banco ruminando o que provou, se quer ser alegre antes de cansado.
- Canto XVIII: As almas de Júpiter escrevem em voo as letras D, I, L e a frase que ordena amar a justiça.
- Canto XIX: A Águia fala com eu e meu onde o pensamento era nós e nosso, e responde que o canto dela é como o juízo eterno para os mortais.
- Canto XXIII: O poeta confessa que o poema sagrado precisa saltar, como quem encontra o caminho cortado.
- Canto XXIV: A pena salta o canto de Pedro, porque a imaginação é cor viva demais para tais dobras.
- Canto XXVI: Adão diz que a língua dele estava extinta antes de Nemrod e que o nome de Deus mudou de I para El.
- Canto XXX: O poeta declara que seu seguir desiste da beleza de Beatriz, como em seu limite todo artista.
- Canto XXXIII: O poeta diz que o ver foi maior do que o falar, e pede à suma luz uma faísca da glória para a gente futura.
Onde as leituras divergem
Beatriz tem voz no Paraíso, e o tema da linguagem inclui o que se diz e a quem se dá voz.
O texto sustenta duas leituras da insistência do poeta no limite do dizer. Na primeira, é modéstia sincera de quem enfrenta uma matéria que a língua humana não alcança. Na segunda, é retórica de quem sabe que o limite confessado convence mais do que a descrição, e prepara o leitor para a visão final em que a beleza deixa de caber no verso. As duas se sustentam, e o poema usa as duas, a pena que salta e o verbo que se inventa.