Quem é
Sebastiano Quantorzo é, com Firbo, um dos dois amigos de confiança a quem Vitangelo Moscarda entregou os negócios depois da morte do pai (capítulo I do Livro I), e acaba diretor do banco que o pai fundou (capítulo VIII do Livro III). É o "paternal" Quantorzo que trata o patrão por "caro Vitangelo" (capítulo VI do Livro V): gordo, escuro, afundado no sofá verde do salão. O que ele quer é que o banco funcione sem sobressaltos, com o nome do pai de Vitangelo intacto no crédito da cidade. O que teme é a liquidação, que arruinaria o banco, o sogro de Vitangelo e a filha dele (capítulo VIII do Livro V). O que sabe, e Vitangelo não, é como o banco funciona: onde estão os papéis e quem dá as ordens de fato (capítulo V do Livro IV). Onde se engana, e por quê: toma a pergunta de Vitangelo por pergunta de dinheiro, e o patrão por um sócio confiável e um pouco tolo, porque essa figura convém ao banco; por isso não vê que a decisão de fechar o banco não é sobre as contas (capítulo VIII do Livro V).
Trajetória
No capítulo II do Livro II, encarregado dos negócios, fecha com um tabique os cômodos que o pai de Vitangelo reservara para si na casa inacabada e faz deles um pequeno apartamento, que aluga a um velho aposentado, o vizinho que cumprimenta o patrão com educação e o acha imbecil. É o primeiro ato de Quantorzo que o livro mostra, e Vitangelo o aceita sem notar.
No capítulo V do Livro IV, quando Vitangelo vai ao banco procurar os papéis da casa, é Quantorzo quem o arrasta para a sala da direção depois que ele injuria Firbo. Mais tarde é a ele que Vitangelo avisa, de mão pousada no ombro, que não é seu pai, antes de mandar Firbo fazer o despejo de Marco di Dio:
T’avverto, caro mio, che non sono mio padre., aviso, meu caro, que não sou meu pai.
No capítulo I do Livro V, quando Firbo quer interditá-lo, Quantorzo responde que o pai de Vitangelo também teve os seus luxos de bondade e que a ninguém ocorreu interditá-lo. Vitangelo vê o furo da defesa, mas vê também a razão de Quantorzo: sendo o dono ausente, os donos de fato são os dois, e a insipiência dele lhes serve.
Ah, non c’è che dire, stava tutta dalla parte di Firbo la logica. Ma non stava meno, se vogliamo, dalla parte di Quantorzo, ah, não há o que dizer, a lógica estava toda do lado de Firbo. Mas não estava menos, se quisermos, do lado de Quantorzo.
No capítulo VI do Livro V ele está no salão com Dida, em confabulação, quando Vitangelo entra, e é ali que o "caro Vitangelo" de um e o Gengè de outra se mostram como duas figuras que o homem não reconhece:
E poichè erano due a vedermi entrare, mi venne la tentazione di voltarmi a cercare l’altro che entrava con me, pur sapendo bene che il “caro Vitangelo„ del mio paterno Quantorzo non solo era anch’esso in me come il “Gengè„ di mia moglie Dida, e como eram dois a me ver entrar, deu-me a tentação de me virar para procurar o outro que entrava comigo, ainda que soubesse muito bem que o “caro Vitangelo” do meu paternal Quantorzo não só estava também em mim, como o “Gengè” da minha mulher Dida.
No capítulo VIII do Livro V Quantorzo se perturba assim que os olhos de Vitangelo o encontram, e Vitangelo entende que a visita é para amarrá-lo de pés e mãos, de acordo com Firbo, sob a ameaça de deixar a direção do banco. Decide desconcertá-lo devagar. A queixa que faz é a de quem não suporta que o chamem de usurário na rua:
La banca... la banca... Non sai veder altro che la banca, tu. Ma tocca a me poi, fuori, a sentirmi dare dell’usurajo!, o banco... o banco... Você não sabe ver nada além do banco. Mas sou eu depois que tenho de ouvir, lá fora, me chamarem de usurário!
Quantorzo responde com uma mímica furiosa de espanto e aponta a mulher, que ri até se desmanchar. O riso fere Vitangelo no ponto vital:
da quella risata mi sentii ferire all’improvviso come non mi sarei mai aspettato che potesse accadermi in quel momento, nell’animo con cui un po’ m’ero messo e un po’ lasciato andare a quella discussione: ferire addentro in un punto vivo di me che non avrei saputo dire nè che nè dove fosse; tanto finora m’era apparso chiaro ch’io alla presenza di quei due, io come io, non ci fossi, e ci fossero invece il “Gengè„ dell’una e il “caro Vitangelo„ dell’altro; nei quali non potevo sentirmi vivo, daquela risada me senti ferido de repente, como nunca teria esperado que pudesse me acontecer naquele momento, no ânimo com que em parte me metera e em parte me deixara levar naquela discussão: ferido fundo num ponto vital de mim que eu não saberia dizer o que fosse nem onde estivesse; tanto me parecera claro até então que eu, na presença daqueles dois, eu como eu, não estava ali, e estavam em vez disso o “Gengè” de uma e o “caro Vitangelo” do outro; nos quais eu não podia me sentir vivo.
Quando Vitangelo exige o banco fechado naquela noite, Quantorzo protesta que o nome é do pai, o dinheiro está investido e a mulher e o sogro de Vitangelo ficariam arruinados, e pergunta, de mãos postas, por quê. É a pergunta a que Vitangelo não sabe responder em palavras de banco.
No capítulo II do Livro VI ele sai com Dida, e no capítulo IV do Livro VII Anna Rosa conta a Vitangelo que Quantorzo, Firbo, Dida e o sogro reuniram provas para interditá-lo.
Temas que encarna
Quantorzo é o Dinheiro e riqueza visto por quem o administra: para ele o banco é um nome, um crédito e uma conta, e a pergunta de Vitangelo sobre o que a cidade chama de usurário é uma pergunta que o balanço não registra. No capítulo V do Livro IV o que ele vê é um patrão que enlouquece, no capítulo I do Livro V um patrão ausente que convém deixar ausente, no capítulo VIII do Livro V um patrão que ameaça o crédito. Em nenhuma dessas cenas ele erra sobre os fatos; erra ao supor que os fatos bastam para dizer quem Vitangelo é. É a Aparência e realidade no escritório: o "caro Vitangelo" de Quantorzo e o Gengè de Dida são duas figuras fixas, feitas por quem vive perto dele e do que ele representa.
Onde Dida constrói o marido bonachão, Quantorzo constrói o sócio confiável e um pouco tolo, útil para que o banco funcione sem sobressaltos. Os dois bonecos caem na mesma tarde, no capítulo VIII do Livro V, e é por isso que o livro os põe juntos na sala. A diferença é que o de Dida é feito por amor, e o de Quantorzo pelo hábito de quem lucra com a ausência do dono.
Leituras divergentes
O texto sustenta duas leituras de Quantorzo. Numa, ele é o administrador leal: defende o banco com toda razão contábil, lembra no capítulo I do Livro V que o pai também teve os seus excessos sem que ninguém o interditasse, e protesta no capítulo VIII do Livro V porque a ruína do banco arrastaria a família do patrão. Na outra, é quem ganha com o silêncio: Vitangelo presume no capítulo I do Livro V, sem ter ouvido, que a indulgência dele é interessada, e a cena do salão, com a confabulação ao lado de Dida, indica que há acordo contra o dono. O que o livro não mostra é o ponto de vista dele, só o de Vitangelo, e isso torna as duas leituras indecidíveis.
O que decide entre elas é o que se espera de um amigo de confiança que vira diretor. Se a lealdade for ao nome do pai, Quantorzo é coerente: o banco é a obra do pai e ele a protege contra o filho. Se for à pessoa de Vitangelo, falha, porque nunca lhe pergunta o que ele quer, só o que ele fará. Pirandello, que dá voz a Vitangelo para dizer que ninguém é um, não dá a Quantorzo a oportunidade de dizer quem ele é.
Relações
- Vitangelo Moscarda: o patrão que ele trata por "caro Vitangelo" (capítulo VI do Livro V), que o avisa de que não é o pai (capítulo V do Livro IV) e que ordena fechar o banco (capítulo VIII do Livro V).
- Dida: a confabulante do salão (capítulo VI do Livro V), com quem sai da casa (capítulo II do Livro VI) e com quem reúne as provas da interdição (capítulo IV do Livro VII).
- Firbo: o outro amigo de confiança, com quem discorda sobre interditar Vitangelo (capítulo I do Livro V) e de quem, no capítulo VIII do Livro V, parece aliado na ameaça de deixar a direção.
- O pai de Moscarda: o fundador, cujo nome Quantorzo invoca para defender o banco (capítulo VIII do Livro V) e de quem diz que também teve excessos (capítulo I do Livro V).