O tema na obra
O dinheiro em Um, Nenhum e Cem Mil não é um assunto de contas, é um modo de ser visto. Vitangelo Moscarda é rico por herança, vive de rendas e deixa os negócios a dois amigos; o que ele descobre, no Livro III, é que o ócio de que se julgava dono era dinheiro do pai, e que o título que o filho dava ao pai, banqueiro, é na cidade um nome mais feio. O banco que recebeu faz dele um usurário aos olhos de Richieri sem que ele tenha feito nada: a riqueza chega com o nome, e o nome com a imagem. É por isso que a pergunta do romance, quem sou eu, passa pelo cofre. Desfazer o usurário exige desfazer o banco, e o romance mede o quanto custa.
No capítulo V do Livro III o carrasco do exemplo dá à pergunta a sua forma mais crua, a de como se traduz, na família, um título que o filho não escolheu e o amor que ele tem pelo pai:
Se vostro padre fosse boja, come si tradurrebbe nella vostra famiglia questo titolo per accordarlo con l’amore che voi avete per lui e ch’egli ha per voi?, se o pai dos senhores fosse carrasco, como se traduziria na família dos senhores esse título, para fazê-lo concordar com o amor que os senhores têm por ele e que ele tem pelos senhores?
No capítulo V do Livro IV, no banco, Vitangelo olha o lugar com tédio rigoroso, as divisórias de vidro fosco, as janelinhas amarelas, o chão de tijolos gastos, e repara em poucas cadeiras antigas em que ninguém se senta. A melancolia delas é a de coisas feitas para servir que ninguém usa:
E la malinconia disperata di quelle poche seggiole d’antica foggia, presso i tavolini, su cui nessuno sedeva, che tutti scostavano e lasciavano lì, fuori di posto, dove e come per quelle povere seggiole inutili era certo un’offesa e una pena esser lasciate., e a melancolia desesperada daquelas poucas cadeiras de forma antiga, junto às mesas, em que ninguém se sentava, que todos afastavam e deixavam ali, fora do lugar, onde e como para aquelas pobres cadeiras inúteis era certamente uma ofensa e uma pena ser deixadas.
No capítulo VIII do Livro V a queixa que o move é a de ouvir, lá fora, que o chamam de usurário por causa do banco:
La banca... la banca... Non sai veder altro che la banca, tu. Ma tocca a me poi, fuori, a sentirmi dare dell’usurajo!, o banco... o banco... Você não sabe ver nada além do banco. Mas sou eu depois que tenho de ouvir, lá fora, me chamarem de usurário!
Quando perde a luz dos olhos diante do riso de Dida e ordena o fechamento do banco, o motivo é este, e ele aceita o preço:
Ebbene, ma questo, proprio questo, era il “punto vivo„ ferito in me, che m’accecava e mi toglieva in quel momento la comprensione di tutto: che usurajo no, quell’usurajo che non ero mai stato per me, ora non volevo più essere neanche per gli altri e non sarei più stato, anche a costo della rovina di tutte le condizioni della mia vita, pois bem, mas isto, justamente isto, era o “ponto vital” ferido em mim, que me cegava e me tirava naquele momento a compreensão de tudo: que usurário não, aquele usurário que eu nunca fora para mim, agora eu não queria mais ser nem para os outros e não seria mais, ainda que ao custo da ruína de todas as condições da minha vida.
No capítulo IV do Livro VI, a imagem que o dinheiro lhe devolve é a de um homem que viveu dos lucros do banco sem pensar, e a solução que imagina é prática:
ero vissuto fino a quel momento dei guadagni di essa, senza mai pensarci; ma ora che finalmente me ne rendevo conto, avrei ritirato i danari dalla banca, e presto, per mettermi del tutto a posto, me ne sarei liberato come che fosse, istituendo un’opera di carità o qualcosa di simile., eu vivera até aquele momento dos lucros dele, sem nunca pensar nisso; mas agora que finalmente me dava conta, retiraria o dinheiro do banco, e logo, para ficar totalmente em paz, me livraria dele de um modo ou de outro, instituindo uma obra de caridade ou algo parecido.
No capítulo III do Livro VIII, a solução se cumpre, mas por mãos de Sclepis: um asilo de mendicância com cozinha econômica, fundado com o que lhe coubesse da liquidação do banco, onde ele mesmo morará como qualquer mendigo.
per fondare con quanto mi sarebbe toccato dalla liquidazione della banca un ospizio di mendicità con annessa cucina economica aperta tutto l’anno, non solo a beneficio dei ricoverati, ma anche di tutti i poveri che potessero averne bisogno [...] che io stesso vi avrei preso stanza, dormendo senz’alcuna distinzione, come ogni altro mendico, in una branda, mangiando come tutti gli altri la minestra in una ciotola di legno, e indossando l’abito della comunità destinato a uno della mia età e del mio sesso., para fundar, com o que me coubesse da liquidação do banco, um asilo de mendicância com cozinha econômica anexa, aberta o ano inteiro, não só em benefício dos abrigados, mas também de todos os pobres que dela precisassem [...] e que eu mesmo ali tomaria morada, dormindo sem nenhuma distinção, como qualquer outro mendigo, num catre, comendo como todos os outros a sopa numa tigela de madeira, e vestindo o hábito da comunidade destinado a alguém da minha idade e do meu sexo.
O dinheiro está no romance como herança que se recusa e como imagem que se carrega. O banco liga o pai ao filho, os sócios ao sogro e à mulher, a cidade ao nome, e todos os personagens que o cercam têm interesse nele, o que explica por que a decisão de Vitangelo de o fechar parece loucura: não há quem possa entender que o motivo não seja dinheiro. O fecho do livro responde com o inverso da acumulação, a posse zero: no asilo, sem nome nem bem algum, ele não é mais nada que alguém possa ter. A riqueza do começo, que lhe dava um nome e um corpo, é trocada por um estado em que nada o identifica.
Quem o encarna
O pai de Moscarda é o dinheiro como origem: o banqueiro que dá a quem lhe pede "pouco" e depois para, e que a cidade traduz por usurário (capítulo I do Livro IV). Quantorzo é o dinheiro como conta: defende o banco com toda razão contábil e não vê que a pergunta de Vitangelo não é sobre isso. Firbo é o dinheiro como crédito: quer interditar o dono para salvar o crédito do banco. Marco di Dio é o dinheiro como sonho, o milionário instantâneo que respira o escárnio dos outros:
Perchè la derisione degli altri era ormai l’aria in cui quel loro sogno respirava. Tolta la derisione, rischiavano di soffocare., porque o escárnio dos outros era agora o ar em que aquele sonho deles respirava. Tirado o escárnio, arriscavam sufocar.
Onde aparece
- Livro I, capítulo I: Vitangelo é rico, com dois amigos de confiança que cuidam dos negócios depois da morte do pai.
- Livro II, capítulo II: Quantorzo faz dos cômodos do pai um pequeno apartamento e o aluga a um velho aposentado, e o dono não nota.
- Livro III, capítulo II: Até o ócio de que Moscarda se julgava dono dependia da riqueza do pai.
- Livro III, capítulo V: O banqueiro do colégio é o usurário da cidade, e a fama pesará amanhã como vergonha sobre o filho.
- Livro III, capítulo VI: Vitangelo se pergunta se não é pior que o pai, que ao menos trabalhava, enquanto ele só assinava.
- Livro IV, capítulo I: Marco di Dio sonha ser milionário da noite para o dia e odeia o pai de Moscarda por parar de lhe dar dinheiro.
- Livro IV, capítulo V: O banco é um lugar de cadeiras sem uso, e Moscarda ordena o despejo e a lista das suas casas.
- Livro V, capítulo VIII: Vitangelo aceita a ruína de todas as condições da vida para não ser mais, nem para os outros, o usurário.
- Livro VI, capítulo I: Vitangelo sabe que o dinheiro da liquidação do banco não foi ganho por ele e que retirá-lo não o limpa da usura de onde veio.
- Livro VI, capítulo IV: Vitangelo imagina instituir uma obra de caridade e diz ao sogro que, dando o dinheiro do pai, o povo poderia elegê-lo deputado.
- Livro VII, capítulo VII: O Deus que quer reaver o dinheiro do banco é inimigo das construções, e o bispo só ajuda se o dinheiro construir uma casa para outro sentimento.
- Livro VIII, capítulo III: Vitangelo entrega tudo a um asilo de mendicância, fundado com a liquidação do banco.
Onde as leituras divergem
O gesto final de Vitangelo, entregar tudo, é lido de dois modos pela cidade e pelo texto. Para o cônego Sclepis e para Richieri, é arrependimento: o usurário se redime e dá exemplo solene. Para o próprio Vitangelo, é o contrário, uma entrega sem culpa, e o que o queima é que a interpretem como contrição:
Quel che più mi coceva era che questa mia totale remissione fosse interpretata come vero pentimento, mentre io davo tutto, non m’opponevo a nulla, o que mais me ardia era que esta minha total entrega fosse interpretada como verdadeiro arrependimento, enquanto eu dava tudo, não me opunha a nada.
A razão que ele dá da renúncia não tem relação com o dinheiro, e sim com o ser:
non solo alienato assolutamente da me stesso e da ogni cosa mia, ma con l’orrore di rimanere comunque qualcuno, in possesso di qualche cosa., não só alienado absolutamente de mim mesmo e de tudo o que era meu, mas com o horror de continuar sendo, de algum modo, alguém, de posse de alguma coisa.
O desacordo entre as duas leituras é um desacordo sobre o dinheiro: para uma, dá ou tira valor moral a quem o tem; para a outra, é só uma forma de ter e ser alguém. A moral social só sabe ler a renúncia como culpa, e a de Vitangelo é uma terceira coisa, uma recusa de posse que não se explica por pecado nem por virtude. O romance, que não resolve isso, mostra que o dinheiro serve de linguagem para os dois lados: Sclepis fala dele em termos de salvação, Vitangelo em termos de identidade.