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Personagem

Vitangelo Moscarda

Quem é

Vitangelo Moscarda é o narrador de Um, Nenhum e Cem Mil: tem vinte e oito anos, é rico, ocioso e casado com Dida, herdeiro do banco que o pai fundou na cidade de província de Richieri, com os negócios entregues a dois amigos de confiança, Quantorzo e Firbo (capítulo I do Livro I). O pai nunca o fez concluir coisa alguma, a não ser casar cedo; ele aceita todas as estradas que lhe apontam, mas para a cada passo em volta de uma pedrinha que os outros passam sem ver. Conta tudo em primeira pessoa, depois da crise, falando ao leitor como a "senhores" a quem pede licença para sentar na poltrona, e fala do asilo de mendigos em que o último capítulo o deixa (capítulo IV do Livro VIII). O que ele quer muda ao longo do livro: primeiro ver-se como os outros o veem, depois desmontar o eu que os conhecidos têm dele, depois ser "um" para si, por fim não ser coisa alguma que um nome possa fixar. O que ele teme é ser olhado, porque cada olhar lhe entrega uma imagem que ele não pode nem conhecer nem impedir. O que ele sabe, e que ninguém ao redor sabe, é que cada pessoa que o conhece carrega um Moscarda diferente. Onde se engana: acredita que um ato bastaria para trocar a imagem que os outros têm dele, e o primeiro experimento mostra que o ato só troca um rótulo por outro.

Trajetória

No capítulo I do Livro I, diante do espelho, ele aperta uma narina, e Dida lhe diz com calma e com um "querido" que o nariz dele pende para a direita. A mágoa não é o defeito: é ter vivido anos com o mesmo nariz sem saber, e precisar de uma esposa para ficar sabendo.

Mi pende? A me? Il naso? - E mia moglie, placidamente: - Ma sì, caro. Guàrdatelo bene: ti pende verso destra., Pende? Em mim? O nariz? E a minha mulher, placidamente: Mas sim, querido. Olhe bem para ele: pende para a direita.
Livro I: O nariz e o espelho

No capítulo II do Livro I ele pergunta a um amigo se está olhando o seu nariz, descobre que o amigo já sabia, e conclui que nunca foi, para ninguém, o Moscarda de nariz reto que supunha ser. Daí a ideia que não o larga mais:

Mi si fissò invece il pensiero ch’io non ero per gli altri quel che finora, dentro di me, m’ero figurato d’essere., fixou-se em mim, em vez disso, o pensamento de que eu não era para os outros o que até então, dentro de mim, eu me figurara ser.
Livro I: O nariz e o espelho

Nos capítulos III e IV do Livro I ele quer ficar uma hora sozinho, e entende por solidão o contrário do que o leitor entenderia: estar sem si mesmo, com um estranho que o ignora. Passeando com Firbo, surpreende-se num espelho da rua, não se reconhece, e dali tira a conta que dá o título ao romance:

con la scoperta dei centomila Moscarda ch’io ero non solo per gli altri ma anche per me, tutti con questo solo nome di Moscarda, brutto fino alla crudeltà, tutti dentro questo mio povero corpo ch’era uno anch’esso, uno e nessuno ahimè, com a descoberta dos cem mil Moscarda que eu era não só para os outros mas também para mim, todos com este único nome de Moscarda, feio até a crueldade, todos dentro deste meu pobre corpo que era um também, um e nenhum, ai de mim.
Livro I: O nariz e o espelho

Nos capítulos V, VII e VIII do Livro I ele tenta apanhar o próprio rosto em naturalidade diante dos espelhos, fecha os olhos para ver o corpo como o de um estranho e, no espelho do armário, vê um corpo sem nome e sem dono, que espirra por um fio de ar. O método que formula é uma contradição levada a sério:

Il mio sforzo supremo deve consistere in questo: di non vedermi in me, ma d’essere veduto da me, con gli occhi miei stessi ma come se fossi un altro: quell’altro che tutti vedono e io no., o meu esforço supremo deve consistir nisto: não me ver em mim, mas ser visto por mim, com os meus próprios olhos mas como se fosse outro: aquele outro que todos veem e eu não.
Livro I: O nariz e o espelho

O Livro I fecha com a decisão que move o seguinte: descobrir quem é para os conhecidos e se divertir desmontando esse eu por despeito.

che mi proposi di scoprire chi ero io almeno per quelli che mi stavano più vicini, così detti conoscenti, e di spassarmi a scomporre dispettosamente quell’io che ero per loro., que me propus descobrir quem eu era ao menos para os que estavam mais perto de mim, os chamados conhecidos, e me divertir desmontando por despeito aquele eu que eu era para eles.
Livro I: O nariz e o espelho

No Livro II ele argumenta com o leitor que a consciência de cada um não basta, que as palavras são vazias e que o homem se constrói como uma casa. A prova vem de dentro de casa, no capítulo XII do Livro II: o Gengè que Dida ama foi construído por ela, e é ele, Vitangelo, o fantoche.

Ma sfido ch’ella conosceva quel suo Gengè più che non lo conoscessi io! Se l’era costruito lei! E non era mica un fantoccio. Se mai, il fantoccio ero io., mas é claro que ela conhecia aquele seu Gengè mais do que eu o conhecia! Ela o construíra! E ele não era de modo algum um fantoche. Se algum, o fantoche era eu.
Livro II: O leitor e a casa

O ciúme que o tomou em seguida não é de si mesmo, mas de um intruso que ocupa o seu corpo:

non di me stesso, signori, ma di uno che non ero io, di un imbecille che s’era cacciato tra me e mia moglie, não de mim mesmo, senhores, mas de alguém que não era eu, de um imbecil que se metera entre mim e minha mulher.
Livro II: O leitor e a casa

No capítulo II do Livro III ele ouve o próprio sobrenome como zumbido de mosca e descobre que até o ócio de que se julgava dono era dinheiro do pai. Nos capítulos III, IV e V do Livro III vê o pai de Moscarda de fora: o banqueiro das conversas de colégio é, para a cidade, um usurário. Quando pergunta a Dida, no capítulo VI do Livro III, qual é a profissão dele, ela ri, e o riso desfaz o horror sem lhe devolver nada:

Ah, ecco - un usurajo, per gli altri; uno stupido qua, per Dida mia moglie. Gengè io ero; uno qua, nell’animo e davanti agli occhi di mia moglie, ah, aí está: um usurário, para os outros; um tolo aqui, para Dida, minha mulher. Gengè eu era; um aqui, no ânimo e diante dos olhos de minha mulher.
Livro III: O pai e os cem mil

Os Livros IV a V são o experimento. No capítulo I do Livro IV ele escolhe como cobaia Marco di Dio, o inimigo do pai, e no capítulo II do Livro IV anuncia o resultado antes de contá-lo:

O per dir meglio, quest’orrore: la coscienza della pazzia, fresca e chiara, signori, fresca e chiara come una mattinata d’aprile, e lucida e precisa come uno specchio., ou melhor, este horror: a consciência da loucura, fresca e clara, senhores, fresca e clara como uma manhã de abril, e lúcida e precisa como um espelho.
Livro IV: O primeiro experimento

No capítulo V do Livro IV, no banco, ele injuria Firbo lembrando a mulher que este mantém trancada no manicômio, ajoelha-se no chão diante dos dois e entende a briga como caso geral:

è qui tutto, - pensavo, - in questa sopraffazione. Ciascuno vuole imporre agli altri quel mondo che ha dentro, come se fosse fuori, e che tutti debbano vederlo a suo modo, e che gli altri non possano esservi se non come li vede lui., é aqui que está tudo, pensava eu, nesta subjugação. Cada um quer impor aos outros aquele mundo que tem dentro, como se fosse fora, e que todos devam vê-lo à sua maneira, e que os outros não possam estar nele senão como ele os vê.
Livro IV: O primeiro experimento

No capítulo VI do Livro IV rouba de si mesmo os papéis da casa e se vê ladrão. No capítulo VII do Livro IV assiste de propósito ao despejo de Marco di Dio debaixo de chuva, quando o rapaz do cartório anuncia a doação da casa; espera a transfiguração, e a multidão, que não entende, o chama de louco.

Perchè avevo voluto dimostrare, che potevo, anche per gli altri, non essere quello che mi si credeva., porque eu quisera demonstrar que podia, também para os outros, não ser aquilo que se acreditava que eu fosse.
Livro IV: O primeiro experimento

No capítulo I do Livro V o banco se divide sobre interditá-lo. No capítulo II do Livro V, no colo de Dida, ele sente o abraço de dois estranhos, e no capítulo III do Livro V confessa à cadela Bibi, num terreno vazio, que não suporta mais ser olhado. No capítulo IV do Livro V formula a lei que sustenta o resto:

Ove la vista degli altri non ci soccorra a costituire comunque in noi la realtà di ciò che vediamo, i nostri occhi non sanno più quello che vedono; la nostra coscienza si smarrisce, perchè questa che crediamo la cosa più intima nostra, la coscienza, vuol dire gli altri in noi; e non possiamo sentirci soli, quando a vista dos outros não vem nos socorrer, de algum modo, para constituir em nós a realidade daquilo que vemos, nossos olhos já não sabem o que veem; a nossa consciência se perde, porque isto que julgamos o mais íntimo de nós, a consciência, quer dizer os outros em nós; e não podemos nos sentir sós.
Livro V: O ponto vital

No capítulo VI do Livro V conta oito pessoas onde Dida e Quantorzo contam três, e no capítulo VIII do Livro V, o capítulo mais longo do livro, o riso de Dida o fere onde nenhuma imagem alcança:

Fuori d’ogni immagine in cui potessi rappresentarmi vivo a me stesso, come qualcuno anche per me, fuori d’ogni immagine di me quale mi figuravo potesse essere per gli altri; un “punto vivo„ in me s’era sentito ferire così addentro, che perdetti il lume degli occhi, fora de toda imagem em que eu pudesse me representar vivo para mim mesmo, como alguém também para mim, fora de toda imagem de mim tal como eu imaginava que pudesse ser para os outros, um “ponto vital” em mim se sentira ferido tão fundo que perdi a luz dos olhos.
Livro V: O ponto vital

A resposta não é argumento, é vontade, e ela mesma não resiste ao exame:

So un corno io di queste cose! So che voglio, “voglio„ capisci? voglio ritirare i miei denari, e basta così!, não entendo patavina dessas coisas! Sei que quero, “quero”, entende? Quero retirar o meu dinheiro, e ponto final!
Livro V: O ponto vital

Ele ordena que o banco feche, recusa o usurário ao preço da ruína e empurra Dida na poltrona:

Ebbene, ma questo, proprio questo, era il “punto vivo„ ferito in me, che m’accecava e mi toglieva in quel momento la comprensione di tutto: che usurajo no, quell’usurajo che non ero mai stato per me, ora non volevo più essere neanche per gli altri e non sarei più stato, anche a costo della rovina di tutte le condizioni della mia vita, pois bem, mas isto, justamente isto, era o “ponto vital” ferido em mim, que me cegava e me tirava naquele momento a compreensão de tudo: que usurário não, aquele usurário que eu nunca fora para mim, agora eu não queria mais ser nem para os outros e não seria mais, ainda que ao custo da ruína de todas as condições da minha vida.
Livro V: O ponto vital

No capítulo I do Livro VI se sente "um" pela primeira vez, e logo pergunta quem é esse um. Dida partiu com Quantorzo, a casa se esvazia no capítulo II do Livro VI, e a pergunta passa a ser a quem dizer "eu":

A chi dire “io„? Che valeva dire “io„, se per gli altri aveva un senso e un valore che non potevano mai essere i miei; e per me, così fuori degli altri, l’assumerne uno diventava subito l’orrore di questo vuoto e di questa solitudine?, a quem dizer “eu”? De que valia dizer “eu”, se para os outros tinha um sentido e um valor que nunca podiam ser os meus; e para mim, tão fora dos outros, assumir um (sentido) logo se tornava o horror deste vazio e desta solidão?
Livro VI: Dizer eu a quem

Na manhã seguinte, no capítulo III do Livro VI, pisca um olho ao Moscarda do espelho e vê o outro piscar de volta. No capítulo IV do Livro VI oferece ao sogro as profissões de médico, advogado, professor e deputado, e o sogro foge gritando que ele é louco. No capítulo V do Livro VI diz que teria deixado o Gengè em paz, se pudesse ir embora com outro corpo e outro nome.

No Livro VII, no capítulo I do Livro VII, Anna Rosa o chama, o revólver dispara na Abadia (capítulo III do Livro VII), e a amiga de Dida lhe conta que a mulher, Firbo, Quantorzo e o sogro já têm provas para interditá-lo (capítulo IV do Livro VII). No capítulo V do Livro VII ele dá nome ao ponto vital:

Quel punto vivo che s’era sentito ferire in me quando mia moglie aveva riso nel sentirmi dire che non volevo più mi si tenesse in conto d’usurajo a Richieri, era Dio senza alcun dubbio: Dio che s’era sentito ferire in me, Dio che in me non poteva più tollerare che gli altri a Richieri mi tenessero in conto d’usurajo., aquele ponto vital que se sentira ferir em mim, quando minha mulher rira ao me ouvir dizer que eu não queria mais ser tido na conta de usurário em Richieri, era Deus, sem dúvida alguma: Deus que se sentira ferido em mim, Deus que em mim já não podia tolerar que os outros, em Richieri, me tivessem na conta de usurário.
Livro VII: O revólver e o bispo

No capítulo VI do Livro VII visita o bispo, Monsenhor Partanna, e no capítulo VII do Livro VII, quando o prelado chama de inofensivo o louco que quer voar no terraço em frente, escapa-lhe um "como eu". No capítulo VIII do Livro VII, em casa de Anna Rosa, ele ensina a ela a lição que a ele mesmo custou o livro todo, e pouco depois leva um tiro:

Lei non vuole che il suo sentimento sia cieco. Lo obbliga ad aprir gli occhi e a vedersi in uno specchio che gli mette sempre davanti. E il sentimento, subito come si vede, le si gela. Non si può vivere davanti a uno specchio., a senhora não quer que o seu sentimento seja cego. Obriga-o a abrir os olhos e a se ver num espelho que lhe põe sempre à frente. E o sentimento, assim que se vê, congela dentro da senhora. Não se pode viver diante de um espelho.
Livro VII: O revólver e o bispo

No Livro VIII, ele dá ao juiz a versão de um acidente, com uma mentira que considera obrigatória para poupar Anna Rosa (capítulo I do Livro VIII), recusa-se a repetir as suas considerações sobre a vida e mostra uma coberta verde (capítulo II do Livro VIII), e aceita calado o plano de Sclepis de entregar tudo e viver no asilo de mendicância (capítulo III do Livro VIII). A cidade lê a entrega como arrependimento; ele a vive como o contrário:

non solo alienato assolutamente da me stesso e da ogni cosa mia, ma con l’orrore di rimanere comunque qualcuno, in possesso di qualche cosa., não só alienado absolutamente de mim mesmo e de tudo o que era meu, mas com o horror de continuar sendo, de algum modo, alguém, de posse de alguma coisa.
Livro VIII: Sem nome e sem conclusão

No capítulo IV do Livro VIII ele já não se olha em espelho nenhum, nomeia o nome como epitáfio e se diz árvore, nuvem, livro, vento:

Non mi sono più guardato in uno specchio, e non mi passa neppure per il capo di voler sapere che cosa sia avvenuto della mia faccia e di tutto il mio aspetto. Quello che avevo per gli altri dovette apparir molto mutato e in un modo assai buffo, a giudicare dalla maraviglia e dalle risate con cui fui accolto., nunca mais me olhei num espelho, e nem me passa pela cabeça querer saber o que aconteceu com o meu rosto e com toda a minha aparência. Aquilo que eu tinha para os outros deve ter parecido muito mudado, e de um modo bastante cômico, a julgar pelo espanto e pelas risadas com que fui recebido.
Livro VIII: Sem nome e sem conclusão

A última frase do romance fecha o que o livro abriu:

Io non l’ho più questo bisogno, perchè muojo ogni attimo, io, e rinasco nuovo e senza ricordi: vivo e intero, non più in me, ma in ogni cosa fuori., eu não tenho mais essa necessidade, porque morro a cada instante, eu, e renasço novo e sem lembranças: vivo e inteiro, não mais em mim, mas em cada coisa fora.
Livro VIII: Sem nome e sem conclusão

Temas que encarna

Vitangelo é a Identidade posta em cena como experimento: o romance não discute se há um eu, faz um homem tentar encontrá-lo e registra cada resultado. O instrumento é o olhar dos outros, e ele o testa em tudo o que lhe pertence, o nariz (capítulo I do Livro I), o nome (capítulo II do Livro III), o pai e o dinheiro (capítulo V do Livro III), a mulher (capítulo XII do Livro II), a casa (capítulo VII do Livro IV). Por isso encarna também a Aparência e realidade: para ele a realidade é a forma que alguém lhe dá, e nenhuma é mais verdadeira que as outras. A Loucura é o veredito social que o segue de cena em cena, do grito da multidão (capítulo VII do Livro IV) ao manicômio de que Firbo fala (capítulo I do Livro V), e a Solidão e isolamento é o preço: ficar só é descobrir que a consciência são os outros em nós (capítulo IV do Livro V). O Dinheiro e riqueza lhe vem do pai e é o que os outros veem primeiro, e o fim do livro o entrega (capítulo III do Livro VIII). Em Deus e o divino ele reconhece o ponto vital que o riso de Dida feriu (capítulo V do Livro VII).

O que ele não faz em momento nenhum é escolher uma forma. Quando se sente "um" pela primeira vez, no capítulo I do Livro VI, define-se pelo que deixou de ser, usurário e Gengè; quando oferece ao sogro as profissões, no capítulo IV do Livro VI, é troça; quando aceita o asilo, no capítulo III do Livro VIII, é porque já não há o que defender. A única vez que quer com firmeza (capítulo VIII do Livro V) é para recusar, e a recusa não lhe devolve um eu, devolve-lhe uma vontade, que o próprio narrador desconfia ser só outra solidez emprestada. O romance deixa em aberto se essa insistência em não ter forma é lucidez ou impossibilidade de viver entre os outros.

O mecanismo que o move é o mesmo em todas as cenas: alguém lhe devolve uma imagem de si e ele tenta desfazê-la. Ele responde à covinha do amigo (capítulo II do Livro I), ao ofício do pai (capítulo VI do Livro III), à fama de usurário (capítulo VII do Livro IV), ao banco (capítulo VIII do Livro V), à imagem de genro (capítulo IV do Livro VI) e ao papel de espelho de Anna Rosa (capítulo VIII do Livro VII). Cada vez a imagem volta com outro nome: usurário, louco, tolo, penitente. A imagem que o romance usa para dizer isso, e que ele aplica ao homem, é a casa; o boneco que os outros constroem em seu lugar é o de Gengè; o objeto em que ele procura o que não encontra é o espelho; o desfecho põe no lugar deles a árvore e a nuvem; e o objeto que o fere, no meio de tudo, é o revólver.

Leituras divergentes

O último capítulo se lê de dois modos, e o texto sustenta os dois. Numa leitura, Vitangelo se liberta: sem nome, sem espelho e sem memória, deixa de ser capturado por qualquer imagem, e a vida que descreve, instante a instante, é a única que não envelhece em forma. Na outra, ele desaparece: a identificação com a árvore e a nuvem só acontece depois que já não resta um eu para se opor a ela, e o que chamou de plenitude é a ausência de quem responda por ele. O próprio texto dá as duas pistas, a alvorada em que as coisas ainda não tomaram forma e o pedido de que deixem em paz a imagem que ele teve.

Conviene ai morti. A chi ha concluso. Io sono vivo e non concludo. La vita non conclude. E non sa di nomi, la vita. Quest’albero, respiro trèmulo di foglie nuove., convém aos mortos. A quem concluiu. Eu estou vivo e não concluo. A vida não conclui. E não sabe de nomes, a vida. Esta árvore, respiro trêmulo de folhas novas.
Livro VIII: Sem nome e sem conclusão

Para Otto Maria Carpeaux, na História da Literatura Ocidental - 10.1 - As revoltas modernistas, a consequência dessa dissolução da personalidade atinge o gênero que Balzac fixou:

Pirandello destruiu o "état civil" que Balzac introduzira na literatura.
Carpeaux, História da Literatura Ocidental

O romance pode ser lido como a última peça dessa tese, e é também onde Vitangelo se separa dela: em O Falecido Matias Pascal, outro romance de Pirandello, o personagem precisa inventar Adriano Meis para se perder, e aqui basta que alguém lhe diga que o nariz pende. Contra a leitura que o toma por vítima dos outros, vale lembrar que ele começa o experimento por vontade (capítulo VIII do Livro I) e o repete, quando já poderia parar, num último e desesperado experimento com Anna Rosa (capítulo II do Livro VII). Contra a que o toma por doente, que ele é, de cena em cena, quem mais enxerga o jogo dos outros, e que o texto chama de lúcida a consciência da loucura dele (capítulo II do Livro IV).

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