Quem é
Dida é a mulher de Vitangelo Moscarda e filha do homem que, no Livro VI, vem pedir contas ao genro e foge dele, de roupa impecável e sempre satisfeito consigo (capítulo IV do Livro VI). Casaram quando ele tinha vinte e três anos (capítulo VIII do Livro III), e ela é, no salão do Livro V, a figura esguia e branca de uma flecha de sol na nuca (capítulo VI do Livro V). A frase dela sobre o nariz do marido dispara a crise do romance (capítulo I do Livro I), e é ela quem mais merece ser lida de perto, porque o livro não a faz vilã: ela quer o marido que ama, teme que ele mude, sabe dele mais do que ele mesmo e se engana ao tomar por Vitangelo o Gengè que construiu. Chama-o de Gengè a cada minuto, desde o primeiro capítulo (capítulo III do Livro I), com a casa e as novidades da casa, e o que o livro faz é mostrar, cena a cena, que esse nome não designa um disfarce: designa um homem que existe para ela por inteiro.
Trajetória
No capítulo I do Livro I, diante do espelho, ela vê o marido apertar a narina e responde com um sorriso e um "querido", sem malícia, que o nariz dele pende para a direita.
Mi pende? A me? Il naso? - E mia moglie, placidamente: - Ma sì, caro. Guàrdatelo bene: ti pende verso destra., Pende? Em mim? O nariz? E a minha mulher, placidamente: Mas sim, querido. Olhe bem para ele: pende para a direita.
No capítulo VI do Livro I ela anuncia que irá ver a amiga Anna Rosa, e basta ele dizer que não quer para que ela ponha o chapéu e lhe estenda a pele para segurar. O ardil funciona, mesmo com o sorriso dele no espelho:
Quando voi non volete assolutamente una cosa, che fa vostra moglie? Dida, mia moglie, si piantò il cappellino in capo. Poi mi porse la pelliccia perchè gliela reggessi., quando os senhores não querem de jeito nenhum uma coisa, o que faz a mulher dos senhores? Dida, minha mulher, enfiou o chapeuzinho na cabeça. Depois me estendeu a pele para que eu a segurasse.
No capítulo XII do Livro II Vitangelo entende o que ela dizia quando afirmava saber do que ele gostava e do que não gostava: ela construiu o Gengè, e o ama de verdade, tanto que desfaz o penteado de moça com que Vitangelo se deslumbrara, porque o Gengè dela não gosta dele.
Tu me lo dici per farmi piacere. Ma io non debbo piacere a me, caro mio. Vuoi che non sappia come piaccio meglio al mio Gengè?, você me diz isso para me agradar. Mas eu não devo agradar a mim, meu caro. Acha que não sei como agrado mais ao meu Gengè?
A virada do capítulo está na descoberta dele:
Ma sfido ch’ella conosceva quel suo Gengè più che non lo conoscessi io! Se l’era costruito lei! E non era mica un fantoccio. Se mai, il fantoccio ero io., mas é claro que ela conhecia aquele seu Gengè mais do que eu o conhecia! Ela o construíra! E ele não era de modo algum um fantoche. Se algum, o fantoche era eu.
No capítulo VI do Livro III ele a procura para perguntar qual é a profissão dele. Ela olha como quem não o reconhece, ri alto e o chama de Gengè, e depois sopra nos olhos dele como para apagar um olhar que já não era o do marido que ela conhece.
Tu lo sai, eh Dida, qual è la mia professione?, você sabe, hein, Dida, qual é a minha profissão?
No capítulo II do Livro V, depois do despejo de Marco di Dio, ela senta no colo dele, repreende o seu Gengè pela brincadeira de mau gosto, preocupa-se com o perigo que ele correu e concorda com Firbo em que um passatempo assim merece manicômio.
Ma guarda un po’, se sono scherzi da fare! Lo sfratto sotto la pioggia; e assistervi, provocando l’indignazione di tutti, scioccone! A momenti t’accoppavano!, mas veja só se são brincadeiras que se façam! O despejo debaixo de chuva; e ainda assistir a ele, provocando a indignação de todos, seu bobão! Por pouco não te matam!
No capítulo VI do Livro V ela confabula com Quantorzo sobre o marido, e os dois o recebem juntos com um "aí está ele". No capítulo VIII do Livro V, quando ele se queixa de ser chamado de usurário, o riso dela o fere onde nenhuma imagem alcança, e só depois ele manda fechar o banco:
da quella risata mi sentii ferire all’improvviso come non mi sarei mai aspettato che potesse accadermi in quel momento, nell’animo con cui un po’ m’ero messo e un po’ lasciato andare a quella discussione: ferire addentro in un punto vivo di me che non avrei saputo dire nè che nè dove fosse; tanto finora m’era apparso chiaro ch’io alla presenza di quei due, io come io, non ci fossi, e ci fossero invece il “Gengè„ dell’una e il “caro Vitangelo„ dell’altro; nei quali non potevo sentirmi vivo, daquela risada me senti ferido de repente, como nunca teria esperado que pudesse me acontecer naquele momento, no ânimo com que em parte me metera e em parte me deixara levar naquela discussão: ferido fundo num ponto vital de mim que eu não saberia dizer o que fosse nem onde estivesse; tanto me parecera claro até então que eu, na presença daqueles dois, eu como eu, não estava ali, e estavam em vez disso o “Gengè” de uma e o “caro Vitangelo” do outro; nos quais eu não podia me sentir vivo.
A resposta dele é a recusa mais violenta do boneco:
Finiscila tu, col tuo Gengè che non sono io, non sono io, non sono io! Basta con codesta marionetta! Voglio quello che voglio; e come voglio sarà fatto!, pare você com o seu Gengè, que não sou eu, não sou eu, não sou eu! Chega dessa marionete! Quero o que quero; e como eu quero será feito!
No capítulo I do Livro VI, sozinho no quarto, ele reconhece que ela é também um ponto vital nele, e que a ama sabendo que é amado como outro:
Era anche lei - lo sentivo bene, ora che non la avevo più in casa - era anche lei un punto vivo in me. Io l’amavo, non ostante lo strazio che mi veniva dalla perfetta coscienza di non appartenermi nel mio stesso corpo come oggetto del suo amore., era também ela, eu o sentia bem agora que já não a tinha em casa, era também ela um ponto vital em mim. Eu a amava, apesar do suplício que me vinha da perfeita consciência de não me pertencer, no meu próprio corpo, como objeto do amor dela.
No capítulo II do Livro VI ela sai com Quantorzo e deixa ordem aos criados Diego e Nina de levar suas coisas à casa do pai.
No capítulo IV do Livro VII Anna Rosa conta a Vitangelo o que ele nunca soube: Dida o considera tolo, e ela, Firbo, Quantorzo e o sogro reuniram provas para interditá-lo. Ele vê uma Dida inimiga, e mesmo assim não a chama de falsa:
Insomma un’altra Dida; una Dida veramente nemica. Eppure, sono certo certissimo che col suo Gengè ella non fingeva: era col suo Gengè quale poteva essere per lui, perfettamente intera e sincera. Fuori poi della vita che poteva avere con lui, diventava un’altra: quell’altra che ora le conveniva o le piaceva o veramente sentiva di essere per Anna Rosa., enfim, outra Dida; uma Dida verdadeiramente inimiga. E no entanto tenho certeza certíssima de que com o seu Gengè ela não fingia: era com o seu Gengè como podia ser para ele, perfeitamente inteira e sincera. Fora da vida que podia ter com ele, tornava-se outra: aquela outra que agora lhe convinha ou lhe agradava ou que de verdade sentia ser para Anna Rosa.
Depois do Livro VI ela não volta à cena: só existe nos relatos de Anna Rosa, no primeiro depoimento que Vitangelo supõe que ela deu à justiça (capítulo I do Livro VIII), e de Sclepis, que lhe dá razão por ter fugido (capítulo III do Livro VIII).
Temas que encarna
Dida é a prova doméstica de que a realidade que os outros dão a uma pessoa é real. No capítulo XII do Livro II o argumento do Livro II, que a realidade de cada um é uma forma que alguém dá, deixa de ser argumento e vira casamento: a mulher que beija os lábios de Vitangelo beija os de outro, e esse outro existe tanto quanto ele. É a Identidade vista de fora, e é a Aparência e realidade como o chão da vida a dois. O boneco que ela constrói é Gengè. Na cena do riso, no capítulo VIII do Livro V, ela representa ainda a Solidão e isolamento de Vitangelo, porque quem ri é a pessoa que mais se aproxima do corpo dele.
O que o livro não dá a Dida é o ponto de vista. Tudo o que sabemos dela passa por Vitangelo, por Anna Rosa (capítulo IV do Livro VII) ou pelo depoimento que Vitangelo supõe que ela deu à justiça (capítulo I do Livro VIII), e cada um os usa como material do seu argumento. Isso lhe tira o direito de ser ouvida e ao mesmo tempo mostra o que a tese do romance custa: Vitangelo a vê como a esposa que ama o Gengè, Anna Rosa como a inimiga dele, a justiça, ao que ele supõe, como testemunha do amor dele por outra, e a cada vez é uma Dida diferente e igualmente sincera.
Leituras divergentes
Duas leituras convivem no texto sobre o que ela sente. Numa, Dida ama o marido de verdade, ao modo dela, e a crise de Vitangelo é um golpe que ela não tem como entender: nunca soube por que ele mudou, trata o ato como travessura e se assusta com o perigo que ele correu, e quando ele a empurra na poltrona vê-se nos braços de um estranho (capítulo VIII do Livro V). Na outra, o Gengè lhe convém: o sogro, ela e os sócios do banco vivem da comodidade de boneco que deram a ele, como o próprio Vitangelo vê no capítulo V do Livro VI, e é pela boca de Anna Rosa que sabemos que ela juntou provas para interditá-lo (capítulo IV do Livro VII).
Non poteva ammettere, lui, ch’io gli levassi il genero (quel suo Gengè ch’egli vedeva in me, chi sa come) dalle condizioni in cui se n’era stato finora, cioè da quella comoda consistenza di marionetta che lui da un canto e la figlia dall’altro, e dal canto loro tutti i socii della banca gli avevano dato., ele não podia admitir que eu lhe tirasse o genro (aquele seu Gengè que ele via em mim, sabe-se lá como) das condições em que estivera até então, isto é, daquela cômoda consistência de marionete que ele de um lado e a filha de outro, e por sua vez todos os sócios do banco, lhe tinham dado.
As duas leituras não se excluem, e o texto mesmo as junta. O que ela tem por amor e o que ela tem por conveniência não se separam, porque ambos recaem sobre o mesmo Gengè, e é por isso que o episódio do capítulo IV do Livro VII não a torna falsa para Vitangelo: com o Gengè ela não fingia, e com Anna Rosa podia ser outra. A divergência que fica é sobre o peso moral da partida, e o romance a deixa sem sentença.
Relações
- Vitangelo Moscarda: o marido cujo boneco ela constrói (capítulo XII do Livro II), perde (capítulo VIII do Livro V) e sobre quem presta depoimento ao juiz (capítulo I do Livro VIII).
- Quantorzo: o aliado na confabulação do salão (capítulo VI do Livro V), com quem sai da casa (capítulo II do Livro VI) e com quem reúne as provas da interdição (capítulo IV do Livro VII).
- Firbo: concorda com ele que o despejo merece manicômio (capítulo II do Livro V) e figura entre os que juntaram provas (capítulo IV do Livro VII).
- Anna Rosa: a amiga de quem ela fica sem notícias e vai visitar (capítulo VI do Livro I), e a quem confia, sorrindo, que o Gengè sente simpatia por ela (capítulo IV do Livro VII).
- Marco di Dio: o inquilino despejado, cujo despejo ela censura ao marido (capítulo II do Livro V).