Clavis Libri

Tema em Um, Nenhum e Cem Mil

Aparência e realidade

O que parece e o que é: hipocrisia, fingimento, máscara social, ilusão, percepção enganada.

O tema na obra

No romance a realidade não é o que está diante de cada um, é a forma que cada um dá ao que está diante dele, e a aparência não é o contrário da realidade, é o único modo como ela existe. Vitangelo Moscarda defende isso ao leitor no Livro II, com exemplos domésticos: a poltrona em que morreu a mãe do leitor, os ciprestes do jardim que o amigo vê como cemitério, as palavras que duas pessoas usam e enchem de sentidos diferentes, as cores que combinam sem verificar o que veem. O argumento é simples e radical: a realidade tal como ela é para um não é, para outro, mais consistente do que a fumaça de um charuto, e quem a defende como única o faz por uma ilusão que o sustenta. O romance não nega que haja fatos, nascer é um fato, perder um olho é um fato; nega que um fato diga a quem o vive o que ele significa.

No capítulo II do Livro II, contando a casa em que mora e o velho vizinho que o cumprimentava com educação e o achava imbecil, Vitangelo dá a fórmula do que chama de presunção:

La presunzione che la realtà, qual’è per voi, debba essere e sia ugualmente per tutti gli altri., a presunção de que a realidade, tal como é para os senhores, deva ser e seja igualmente para todos os outros.
Livro II: O leitor e a casa

No capítulo IV do Livro II a presunção encontra a língua. Duas pessoas conversam uma hora, concordam em tudo e no dia seguinte uma acusa a outra de ter dito outra coisa:

Ma che colpa abbiamo, io e voi, se le parole, per sè, sono vuote? Vuote, caro mio. E voi le riempite del senso vostro, nel dirmele; e io nell’accoglierle, inevitabilmente, le riempio del senso mio. Abbiamo creduto d’intenderci, non ci siamo intesi affatto., mas que culpa temos, eu e o senhor, se as palavras, por si, são vazias? Vazias, meu caro. E o senhor as enche do seu sentido, ao dizê-las a mim; e eu, ao recebê-las, inevitavelmente as encho do meu. Pensamos nos entender, não nos entendemos de modo algum.
Livro II: O leitor e a casa

No capítulo VII do Livro III, no longo parêntese sobre os fatos, as formas e os atos, a posição se completa: o ser tem de se prender numa forma para ser, e por isso nenhuma realidade é dada, todas são feitas, e nenhuma será uma para todos nem para sempre:

perchè una realtà non ci fu data e non c’è, ma dobbiamo farcela noi, se vogliamo essere: e non sarà mai una per tutti, una per sempre, ma di continuo e infinitamente mutabile., porque uma realidade não nos foi dada e não existe, mas temos de fazê-la nós, se queremos ser: e nunca será uma para todos, uma para sempre, mas contínua e infinitamente mutável.
Livro III: O pai e os cem mil

No capítulo III do Livro IV, no cartório do notário Stampa, a tese ganha o tom de um desafio, e a inversão com que fecha a passagem mostra a aparência como reciprocidade:

E quello no, non lo vede, perchè vede un’altra cosa lui, quando voi credete che debba vedere la vostra, come pare a voi. La vede invece come pare a lui, e per lui dunque il cieco siete voi., e aquele não, não o vê, porque vê outra coisa, quando os senhores acham que deva ver a coisa dos senhores, como lhes parece. Ele a vê como lhe parece a ele, e para ele, portanto, o cego são os senhores.
Livro IV: O primeiro experimento

No capítulo V do Livro V, caminhando pela cidade depois de chutar a cadela, Vitangelo vê esse jogo como proteção: cada um vive dentro da ilusão do outro, e na cidade ninguém corre o risco de ficar sozinho com uma coisa que só ele vê.

Ognuno, bello, dentro l’illusione dell’altro; da poter essere sicuri che tutti gli altri sbagliavano se dicevano di no, che cioè ciascuno non era come l’altro lo vedeva, cada um, lindamente, dentro da ilusão do outro; de modo a poder ter certeza de que todos os outros se enganavam se dissessem que não, isto é, que cada um não era como o outro o via.
Livro V: O ponto vital

No capítulo IV do Livro VII o jogo vira ameaça. Dida e Anna Rosa atribuem a Vitangelo uma simpatia por Anna Rosa que ele não pode desmentir, e o que os outros dão a alguém, se ele não se agarra à sua própria realidade, pode acabar parecendo mais verdadeiro do que ela:

Perchè, se ci pensate bene, questo è il meno che possa seguire dalle tante realtà insospettate che gli altri ci dànno. Superficialmente, noi sogliamo chiamarle false supposizioni, erronei giudizii, gratuite attribuzioni. Ma tutto ciò che di noi si può immaginare è realmente possibile, ancorchè non sia vero per noi. Che per noi non sia vero, gli altri se ne ridono. È vero per loro. Tanto vero, che può anche capitare che gli altri, se non vi tenete forte alla realtà che per vostro conto vi siete data, possono indurvi a riconoscere che più vera della vostra stessa realtà è quella che vi dànno loro. Nessuno più di me ha potuto farne esperienza., porque, se pensarem bem, isto é o mínimo que pode decorrer das tantas realidades insuspeitadas que os outros nos dão. Superficialmente, costumamos chamá-las suposições falsas, juízos errôneos, atribuições gratuitas. Mas tudo o que se pode imaginar de nós é realmente possível, ainda que não seja verdadeiro para nós. Que não seja verdadeiro para nós, os outros riem. É verdadeiro para eles. Tão verdadeiro que pode até acontecer que os outros, se vocês não se agarrarem firmemente à realidade que por conta própria se deram, os induzam a reconhecer que mais verdadeira do que a sua própria realidade é a que eles lhes dão. Ninguém mais do que eu pôde fazer essa experiência.
Livro VII: O revólver e o bispo

O romance dá duas respostas ao problema da aparência e as deixa sem arbitragem. A primeira é a do Livro II, a de quem ensina: a realidade é construída, e quem sabe disso vive melhor, porque não se irrita quando o amigo vê um cemitério onde ele vê um jardim. A segunda é a do Livro VII, a de quem sofre: a realidade que os outros dão pode ser mais forte do que a nossa, e Vitangelo vai parar na cama de uma mulher que o toma por um homem fora do comum. Entre uma e outra, o que o texto faz é mostrar que o argumento não protege quem o formula, e que a aparência é verdade para quem a recebe.

Quem o encarna

O velho vizinho do capítulo II do Livro II é a aparência com educação: o homem que diz bom dia e pensa imbecil, sem malícia, só porque vê o que vê. Dida é a aparência amada: o Gengè que ela vê é, para ela, o marido inteiro, e Vitangelo só tem como desmenti-lo pela violência. O pai de Moscarda é a aparência de um título, banqueiro em casa e usurário na rua, no capítulo V do Livro III. Anna Rosa é a aparência como pose, no capítulo VIII do Livro VII, em que Vitangelo lhe ensina que a vida parada diante de um espelho vira estátua:

Perchè bisogna che lei fermi un attimo in sè la vita, per vedersi. Come davanti a una macchina fotografica. Lei s’atteggia. E atteggiarsi è come diventare statua per un momento. La vita si muove di continuo, e non può mai veramente vedere se stessa. - E allora io, viva, non mi sono mai veduta? - Mai, come posso vederla io. Ma io vedo un’immagine di lei che è mia soltanto; non è certo la sua. Lei la sua, viva, avrà forse potuto intravederla appena in qualche fotografia istantanea che le avranno fatta. Ma ne avrà certo provato un’ingrata sorpresa. Avrà fors’anche stentato a riconoscersi, lì scomposta, in movimento., porque a senhora precisa deter por um instante em si a vida, para se ver. Como diante de uma máquina fotográfica. A senhora posa. E posar é como virar estátua por um momento. A vida se move continuamente, e nunca pode ver verdadeiramente a si mesma. E então eu, viva, nunca me vi? Nunca, como eu posso vê-la. Mas eu vejo uma imagem da senhora que é só minha; certamente não é a sua. A sua, viva, a senhora talvez tenha podido entrever apenas numa fotografia instantânea que lhe tenham feito. Mas certamente terá sentido uma ingrata surpresa. Talvez até tenha custado a reconhecer-se ali, desfeita, em movimento.
Livro VII: O revólver e o bispo

Onde aparece

  • Livro II, capítulo II: Moscarda descobre que o velho vizinho, que sempre lhe diz bom dia com educação, por dentro o faz viver como um perfeito imbecil.
  • Livro II, capítulo III: Os mesmos ciprestes do jardim são um jardim para o leitor e um cemitério para o amigo dele, conforme quem os vê.
  • Livro II, capítulo IV: As palavras são vazias entre as pessoas, e cada um as enche com o seu sentido.
  • Livro II, capítulo VIII: Moscarda e o leitor dizem "azuis" dos montes ao longe, e o acordo é de nome, não de coisa vista.
  • Livro II, capítulo XI: Moscarda conclui que, fora da forma momentânea que damos a nós, aos outros e às coisas, não há realidade.
  • Livro III, capítulo VII: Moscarda ensina que fatos, formas e atos são prisões, e que toda realidade é engano, porque o ser precisa se prender numa forma.
  • Livro III, capítulo VIII: A casa onde Moscarda nasceu é um palácio, uma casa vulgar e um lugar de afeto, conforme quem a olha.
  • Livro IV, capítulo III: No cartório do notário Stampa, Vitangelo conclui que quem acusa o outro de cegueira é cego para ele.
  • Livro V, capítulo V: Vitangelo diz que, na cidade, cada um vive dentro da ilusão do outro, e que nenhum é como o outro o vê.
  • Livro VII, capítulo IV: Vitangelo sente que a simpatia que Dida e Anna Rosa lhe atribuem é também verdadeira: as realidades que os outros dão podem ser mais verdadeiras do que a nossa.
  • Livro VII, capítulo VIII: Vitangelo diz a Anna Rosa que posar é virar estátua, e que a vida que se move nunca consegue se ver.
  • Livro VIII, capítulo II: Vitangelo mostra ao juiz a coberta verde, sem nome nem teoria, quando ele lhe pede as suas considerações sobre a vida.

Onde as leituras divergem

O romance admite duas leituras de quanto vale a aparência. Numa, ele é a favor dela: se toda realidade é forma, a vida consiste em dar forma, e construir-se bem é uma arte, como a de quem faz uma casa ou uma cadeira. Em outra, ele é contra ela: a forma é prisão, e a única saída honesta é a que o fim apresenta, sem forma e sem nome. Na leitura de Otto Maria Carpeaux, na História da Literatura Ocidental - 10.1 - As revoltas modernistas, a frase pouco conhecida e decisiva de Pirandello é que a arte prossegue a natureza:

Pirandello, numa frase pouco conhecida e da maior importância para a compreensão da sua arte, declarou: “L’arte prosegue la natura.”
Carpeaux, História da Literatura Ocidental

A frase de Pirandello que Carpeaux cita favorece a primeira leitura: se a arte prossegue a natureza, a forma que se dá à vida é continuação do que existe, e não falsificação. O texto do romance sustenta, contra isso, o horror da forma qualquer (capítulo VI do Livro VI) e o regime de olhar de Vitangelo no fim: desviar os olhos para não ver nada parar em sua aparência e morrer. Ele sabe que a forma é necessária, e que é a morte do que vive.