Clavis Libri

Tema em Um, Nenhum e Cem Mil

Identidade

Quem alguém é: nome, origem, linhagem, máscara, duplo, a descoberta ou a perda de si mesmo, a metamorfose de quem deixa de ser quem era.

O tema na obra

Em Um, Nenhum e Cem Mil a identidade não é o que a pessoa é, é o que os outros fazem dela, e o romance leva essa ideia, em oito Livros, a uma cadeia de consequências. Vitangelo Moscarda julga ser um: o herdeiro ocioso de Richieri, casado, com um nariz que nunca olhou. A frase da mulher sobre o nariz lhe mostra que para os outros é outro, e logo que é um para cada pessoa que o olha, cem mil ao todo, todos com o mesmo nome feio, num corpo que não é de ninguém. Os números do título são uma só descoberta vista de lados diferentes: o "um" é o que ele acreditava, o "cem mil" é o que os outros veem, o "nenhum" é o que resta quando as versões se desfazem. O romance conta como ele passa de um ao outro, e o que faz com isso.

No capítulo IV do Livro I, depois de se surpreender num espelho da rua sem se reconhecer, ele junta pela primeira vez as três palavras:

con la scoperta dei centomila Moscarda ch’io ero non solo per gli altri ma anche per me, tutti con questo solo nome di Moscarda, brutto fino alla crudeltà, tutti dentro questo mio povero corpo ch’era uno anch’esso, uno e nessuno ahimè, com a descoberta dos cem mil Moscarda que eu era não só para os outros mas também para mim, todos com este único nome de Moscarda, feio até a crueldade, todos dentro deste meu pobre corpo que era um também, um e nenhum, ai de mim.
Livro I: O nariz e o espelho

No Livro II o argumento é dito ao leitor, a quem ele pede que admita ter sido, um minuto antes, outro. A identidade passa a ser uma fixação, um modo de ser que se prende por hábito:

Caro mio, la verità è questa: che sono tutte fissazioni., meu caro, a verdade é esta: são todas fixações.
Livro II: O leitor e a casa

No Livro III o leitor repete o que Vitangelo sofreu: recebe duas visitas e manda embora a si mesmo, o que mostra que ninguém é um, só imagina ser:

voi non siete due soltanto, ma chi sa quanti, senza saperlo, e credendovi sempre uno., o senhor não é só dois, mas sabe-se lá quantos, sem o saber, e crendo-se sempre um.
Livro III: O pai e os cem mil

No capítulo IV do Livro V, sozinho num terreno vazio, Vitangelo transforma o que descobriu numa lei: a consciência que se toma pelo mais íntimo é feita dos outros em nós. É o ponto em que a identidade deixa de ser tema de conversa e vira condição:

Ove la vista degli altri non ci soccorra a costituire comunque in noi la realtà di ciò che vediamo, i nostri occhi non sanno più quello che vedono; la nostra coscienza si smarrisce, perchè questa che crediamo la cosa più intima nostra, la coscienza, vuol dire gli altri in noi; e non possiamo sentirci soli, quando a vista dos outros não vem nos socorrer, de algum modo, para constituir em nós a realidade daquilo que vemos, nossos olhos já não sabem o que veem; a nossa consciência se perde, porque isto que julgamos o mais íntimo de nós, a consciência, quer dizer os outros em nós; e não podemos nos sentir sós.
Livro V: O ponto vital

No capítulo I do Livro VI ele experimenta sentir-se "um" pela primeira vez, definido pelo que deixou de ser, e no capítulo II do Livro VI a pergunta muda de forma: não mais quem sou, mas a quem dizer eu.

A chi dire “io„? Che valeva dire “io„, se per gli altri aveva un senso e un valore che non potevano mai essere i miei; e per me, così fuori degli altri, l’assumerne uno diventava subito l’orrore di questo vuoto e di questa solitudine?, a quem dizer “eu”? De que valia dizer “eu”, se para os outros tinha um sentido e um valor que nunca podiam ser os meus; e para mim, tão fora dos outros, assumir um (sentido) logo se tornava o horror deste vazio e desta solidão?
Livro VI: Dizer eu a quem

No capítulo IV do Livro VIII, sem espelho e sem lembrança, recusa o nome como quem recusa um epitáfio:

Nessun nome. Nessun ricordo oggi del nome di jeri; del nome d’oggi, domani. [...] Non è altro che questo, epigrafe funeraria, un nome., nenhum nome. Nenhuma lembrança, hoje, do nome de ontem; do nome de hoje, amanhã. [...] Não é outra coisa senão isto, epitáfio, um nome.
Livro VIII: Sem nome e sem conclusão

O romance trata a identidade em três perguntas que se encadeiam e não se resolvem. A primeira é epistemológica: posso saber quem sou, se só os outros me veem? A segunda é moral: se sou cem mil, a quem devo responder? A terceira é existencial: o que fazer com um eu que ninguém reconhece, nem eu? Vitangelo responde à primeira com o experimento, à segunda com a recusa do usurário e do Gengè, e à terceira com o abandono do nome. O que o texto nunca faz é dar a ele uma identidade nova, e o desfecho é a prova de que a pergunta, para Pirandello, é mais verdadeira do que qualquer resposta.

Quem o encarna

Vitangelo Moscarda é o caso inteiro: o narrador que se descobre cem mil e se perde por ter descoberto. Dida é a identidade que alguém dá, no capítulo XII do Livro II: o Gengè que ela construiu e ama de verdade, e que Vitangelo vê nos braços dela como outro.

Ma sfido ch’ella conosceva quel suo Gengè più che non lo conoscessi io! Se l’era costruito lei! E non era mica un fantoccio. Se mai, il fantoccio ero io., mas é claro que ela conhecia aquele seu Gengè mais do que eu o conhecia! Ela o construíra! E ele não era de modo algum um fantoche. Se algum, o fantoche era eu.
Livro II: O leitor e a casa

Quantorzo é a identidade profissional, o "caro Vitangelo" que serve ao banco, e o salão do capítulo VI do Livro V põe as duas figuras na mesma sala:

E poichè erano due a vedermi entrare, mi venne la tentazione di voltarmi a cercare l’altro che entrava con me, pur sapendo bene che il “caro Vitangelo„ del mio paterno Quantorzo non solo era anch’esso in me come il “Gengè„ di mia moglie Dida, e como eram dois a me ver entrar, deu-me a tentação de me virar para procurar o outro que entrava comigo, ainda que soubesse muito bem que o “caro Vitangelo” do meu paternal Quantorzo não só estava também em mim, como o “Gengè” da minha mulher Dida.
Livro V: O ponto vital

O pai de Moscarda é a identidade herdada: o corpo, o nome e o título de banqueiro que a cidade traduz por usurário (capítulo V do Livro III). Marco di Dio é a identidade fixada por um ato: o gesto de um instante o condenou para sempre, e o bom rapaz que o mestre conheceu nunca mais é visível.

Onde aparece

  • Livro I, capítulo I: A mulher de Moscarda, Dida, diz que o nariz dele pende para a direita, e ele descobre que não é para os outros o que supunha ser.
  • Livro I, capítulo IV: No espelho da rua, Moscarda encontra o estranho que ele é, e faz a conta dos cem mil Moscarda.
  • Livro I, capítulo VII: Diante do espelho do armário, Moscarda vê o corpo sem nome e sem dono que alguém pode tomar como quiser.
  • Livro II, capítulo V: Para Moscarda, o leitor, um minuto atrás, era outro, e cem outros, e cem mil.
  • Livro II, capítulo XII: Dida ama o Gengè que ela mesma construiu, e Vitangelo tem ciúme de um homem que não é ele.
  • Livro III, capítulo II: O sobrenome zumbe como mosca para Moscarda, e até o ócio de que ele se julgava dono era dinheiro do pai.
  • Livro III, capítulo VIII: Cinco pessoas diante da casa onde Moscarda nasceu veem cinco versões dele, e cinco imbecis diferentes.
  • Livro V, capítulo IV: Vitangelo conclui que a consciência são os outros em nós, e que sem a vista deles os próprios olhos não sabem o que veem.
  • Livro V, capítulo VIII: O riso de Dida fere um ponto vital que nenhuma das imagens alcança.
  • Livro VI, capítulo II: Com Dida fora de casa, Vitangelo toca as próprias mãos, diz "eu" e não encontra a quem dizê-lo.
  • Livro VIII, capítulo III: Vitangelo entrega tudo por horror de continuar sendo alguém de posse de alguma coisa.
  • Livro VIII, capítulo IV: Sem nome, sem lembrança e sem espelho, Vitangelo é árvore, nuvem, livro, vento.

Onde as leituras divergem

A tese do romance se lê de dois modos, e o desfecho decide qual pesa. Pode ser a descoberta de que a identidade é uma multiplicidade livre, que cada um refaz a cada instante e que nenhuma construção prende, como Vitangelo sustenta no Livro III. Pode ser a descoberta de que não há onde se apoiar, e que a liberdade de se refazer sem fim é o mesmo que não ser.

No capítulo VII do Livro III Vitangelo diz que o ato nos prende como uma prisão, mas que a prisão é injusta porque o ato é só um dos muitos que somos.

Em O Falecido Matias Pascal, outro romance de Pirandello, a prisão é real, porque as outras possibilidades de fato se fecham e ele não pode voltar. Em Vitangelo o ato prende só a imagem que os outros fazem dele, e o resto continua aberto. É o que dá ao romance um desfecho que Matias não teve, e é também o preço do desfecho: um eu que, por não se fechar, não se reconhece. A divergência é entre um passado que não se refaz e um presente que não se fixa.