O tema na obra
Em Crime e Castigo o orgulho é o que sustenta a teoria, o que recusa a ajuda e o que, no fim, adoece. Rodion Românovitch Raskólnikov precisa saber de que lado da divisão entre ordinários e extraordinários está, recusa o sacrifício dos outros e recusa ser ajudado, e na prisão o que o faz adoecer não é o trabalho nem a comida, é o orgulho ferido de ter caído por cegueira e acaso. O romance estende a mesma paixão a outros, de Catierina Ivánovna Marmieládova a Piotr Pietróvitch Lújin, e deixa aberto, em várias cenas, se o orgulho de Raskólnikov é soberba ou a última coisa que o segura.
No capítulo IV da Primeira Parte, depois de decidir que o casamento de Avdótia Românovna Raskólnikova com Lújin não se fará, Raskólnikov se pergunta com que direito proíbe e o que tem a oferecer em troca, já que vive do dinheiro que elas empenham. A resposta é que precisa fazer alguma coisa já:
Запретишь? А право какое имеешь? Что ты им можешь обещать в свою очередь, чтобы право такое иметь?, Vai proibir? Com que direito? O que é que você pode prometer a elas, por sua vez, para ter esse direito?
No capítulo II da Segunda Parte, ao procurar Dmitri Prokófitch Razumíkhin, descobre na porta que não suporta ninguém, e a frase em que diz não precisar de nada tem duas metades: o que procurava e o que conclui.
я к тебе пришел, потому что, кроме тебя, никого не знаю, кто бы помог… начать… потому что ты всех их добрее, то есть умнее, и обсудить можешь… А теперь я вижу, что ничего мне не надо, слышишь, совсем ничего… ничьих услуг и участий… Я сам… один… Ну и довольно! Оставьте меня в покое, vim te procurar porque, fora você, não conheço ninguém que possa ajudar... a começar... porque você é o mais bondoso de todos eles, quer dizer, o mais inteligente, e sabe avaliar... Mas agora vejo que não preciso de nada, está ouvindo, de nada mesmo... de serviço nenhum, de participação nenhuma... Eu mesmo... sozinho... Pronto, chega! Deixem-me em paz.
Ainda no capítulo II da Segunda Parte, na ponte, uma comerciante o toma por mendigo e lhe põe vinte copeques na mão. Ele joga a moeda na água, e o gesto vem junto com a sensação de se cortar de tudo.
Ему показалось, что он как будто ножницами отрезал себя сам от всех и всего в эту минуту, teve a impressão de que, naquele instante, tinha cortado a si mesmo, como com uma tesoura, de todos e de tudo.
No capítulo I da Terceira Parte, ao exigir que Dúnia rompa com Lújin, ele tira da irmã a escolha e a põe na própria conta. Recusar o sacrifício também o livra de ficar devendo a uma venda:
Ты выходишь за Лужина для меня. А я жертвы не принимаю., Você se casa com Lújin por mim. E eu não aceito sacrifício.
No capítulo V da Terceira Parte, na casa de Porfiri Pietróvitch, depois de expor o artigo com Kepler, Newton, Licurgo e Napoleão, a pergunta passa a ser sobre ele mesmo, e a resposta é arrogante e verdadeira no condicional:
Если б я и перешагнул, то уж, конечно, бы вам не сказал, Se eu tivesse transposto, claro que não diria ao senhor.
No capítulo VI da Terceira Parte, sozinho, em febre, ele se agarra ao nome de piolho, e as razões que enumera mostram que a pena vem de ter tido método, não de ter matado:
я действительно вошь, eu sou mesmo um piolho.
Na mesma explosão, imagina o profeta de sabre, que manda sem se explicar, e se identifica com ele:
Повинуйся, дрожащая тварь, и — не желай, потому — не твое это дело!.., Obedeça, criatura trêmula, e não deseje, pois isso não é da sua conta!..
No capítulo IV da Quarta Parte, a despedida de Raskólnikov a Sófia Semeónovna Marmieládova junta duas coisas que no resto da noite ele separou: tomar o sofrimento sobre si e querer poder sobre toda a criatura trêmula.
Свободу и власть, а главное власть! Над всею дрожащею тварью и над всем муравейником!.. Вот цель!, Liberdade e poder, e principalmente poder! Sobre toda a criatura trêmula e sobre todo o formigueiro!.. Eis o objetivo!
No capítulo II da Quinta Parte, o narrador diz o que há por trás do gasto de Catierina Ivánovna no enterro de Marmieládov: o orgulho e a vaidade que, segundo ele, tomam também os mais pobres e abatidos e viram uma necessidade irresistível.
Эти пароксизмы гордости и тщеславия посещают иногда самых бедных и забитых людей и, по временам, обращаются у них в раздражительную, неудержимую потребность, Esses paroxismos de orgulho e de vaidade visitam às vezes as pessoas mais pobres e mais acuadas e, de quando em quando, viram nelas uma necessidade irritadiça, irreprimível.
No capítulo IV da Quinta Parte, ao dizer a Sônia o que o levou ao assassinato, Raskólnikov descarta o dinheiro, a mãe e a humanidade e chega a uma formulação sem fim exterior:
Я просто убил; для себя убил, для себя одного, Eu simplesmente matei; matei para mim, para mim somente.
No capítulo II da Sexta Parte, Porfiri lhe oferece a entrega voluntária com abatimento de pena, e Raskólnikov recusa, com calma e quase com tristeza. O que rejeita é a vantagem, não a entrega:
Эх, не надо! — проговорил он, как бы уже совсем не скрываясь с Порфирием. — Не стоит! Не надо мне совсем вашей сбавки!, Ah, não precisa!, disse ele, como quem já não se esconde de Porfiri. Não vale a pena! Não quero de jeito nenhum esse seu abatimento!
No capítulo VII da Sexta Parte, ele conta a Dúnia que à beira do rio quis se afogar para fugir da vergonha, mas achou que, se se julgava forte, devia enfrentá-la, e pergunta se isso é orgulho. Dúnia diz que é.
No capítulo II do Epílogo, o narrador dá a causa da doença dele na prisão:
его гордость сильно была уязвлена; он и заболел от уязвленной гордости, o orgulho dele estava muito ferido; foi de orgulho ferido que ele adoeceu.
Ainda no capítulo II do Epílogo, os presos o odeiam sem que ele saiba por quê, e dizem o que acham do crime dele:
Ты барин! - говорили ему. - Тебе ли было с топором ходить; не барское вовсе дело., Você é um senhor! diziam-lhe. Era para você andar por aí com machado? Isso não é nada coisa de senhor.
O orgulho de Raskólnikov tem sempre a mesma forma: recusar ficar devendo. Recusa o sacrifício da irmã no capítulo I da Terceira Parte, a ajuda de Razumíkhin e a moeda da comerciante no capítulo II da Segunda Parte, o abatimento de Porfiri no capítulo II da Sexta Parte, e na prisão o que o fere é não poder se acusar de nada além de um erro de cálculo. Por isso a mesma disposição se lê de dois jeitos em quase todas as cenas: soberba de quem se acha acima, ou a última coisa de pé de quem não tem outra. O Epílogo não escolhe entre as duas e faz do orgulho a causa declarada da doença.
Quem o encarna
Catierina Ivánovna carrega o orgulho de quem foi criada em casa de coronel: no capítulo II da Quinta Parte, depois de gastar o dinheiro do enterro em exéquias que ninguém pediu, só quer provar à casa inteira que o marido e ela valem tanto quanto qualquer inquilino. O narrador diz que dava para acabar com ela com as circunstâncias, mas não para abatê-la moralmente.
ее можно было совсем убить обстоятельствами, но забить ее нравственно, то есть запугать и подчинить себе ее волю, нельзя было, dava para acabar com ela de vez com as circunstâncias, mas abatê-la moralmente, isto é, intimidá-la e submeter a sua vontade, isso não dava.
Lújin tem outro orgulho, o de quem saiu do nada e gosta de olhar o próprio rosto no espelho. No capítulo III da Quarta Parte, o narrador conta que ele contava até o último instante com a dependência de Dúnia e da mãe, e no capítulo I da Quinta Parte acorda com o amor-próprio ferido, culpando só Raskólnikov.
Dúnia tem o seu. No capítulo V da Sexta Parte, ao seguir Arkadi Ivánovitch Svidrigáilov até o apartamento, com o segredo do irmão nas mãos dele, deixa Razumíkhin de fora e não pergunta se a dona da casa está: a coragem dela tem uma parte de soberba, e é ela que a deixa sozinha entre salas vazias.
Onde aparece
- Primeira Parte, capítulo IV: Raskólnikov decide que o casamento de Dúnia não se fará e se pergunta com que direito o proíbe, já que vive do dinheiro que elas empenham.
- Segunda Parte, capítulo II: Na casa de Razumíkhin, Raskólnikov diz que não precisa de nada de ninguém e, na ponte, joga na água a moeda que uma comerciante lhe deu, tomando-o por mendigo.
- Terceira Parte, capítulo I: Raskólnikov exige que Dúnia rompa com Lújin e diz que não aceita o sacrifício dela, que se casaria por causa dele.
- Terceira Parte, capítulo V: Na casa de Porfiri, Raskólnikov diz que, se tivesse transposto o obstáculo, claro que não contaria ao juiz, resposta ao mesmo tempo arrogante e verdadeira.
- Terceira Parte, capítulo VI: Em febre, Raskólnikov se declara um piolho e imagina o profeta de sabre, que manda a criatura trêmula obedecer sem se explicar.
- Quarta Parte, capítulo III: Na escada, Lújin se surpreende com a ruptura, pois contava com a dependência de Dúnia e da mãe, e resolve consertar tudo no dia seguinte e destruir Raskólnikov.
- Quarta Parte, capítulo IV: Na despedida a Sônia, Raskólnikov diz que o objetivo é liberdade e poder sobre toda a criatura trêmula e sobre o formigueiro, logo depois de beijar o pé dela.
- Quinta Parte, capítulo I: Lújin acorda com o amor-próprio ferido, o senhorio exige a multa do contrato do apartamento, e ele culpa só Raskólnikov pelo fim do noivado.
- Quinta Parte, capítulo II: Catierina Ivánovna gasta o dinheiro do enterro em exéquias que ninguém pediu, por orgulho de pobre, e recebe Raskólnikov como o único convidado instruído.
- Quinta Parte, capítulo IV: Raskólnikov diz a Sônia que matou para si, para si somente, e recusa a ordem dela de beijar a terra e confessar em voz alta.
- Sexta Parte, capítulo II: Porfiri oferece a Raskólnikov a entrega voluntária com abatimento de pena, e Raskólnikov recusa, dizendo que não quer de jeito nenhum esse abatimento.
- Sexta Parte, capítulo V: Dúnia segue Svidrigáilov até o apartamento sem chamar Razumíkhin, com o segredo do irmão nas mãos dele, e a coragem dela tem uma parte de soberba.
- Sexta Parte, capítulo VII: Raskólnikov conta a Dúnia que quis se afogar para fugir da vergonha, mas à beira da água achou que devia enfrentá-la, e pergunta se isso é orgulho.
- Epílogo, capítulo II: Na prisão, Raskólnikov adoece de orgulho ferido e é odiado pelos presos, que o chamam de senhor sem direito a machado, enquanto Sônia é chamada de mãe por todos.
Onde as leituras divergem
A recusa do abatimento no capítulo II da Sexta Parte se lê de dois modos, e o texto sustenta os dois: pundonor de quem não quer comprar a pena com troco, ou desinteresse de quem já não se importa com a pena. Porfiri a atribui à vergonha burguesa e à juventude.
No capítulo II do Epílogo, Raskólnikov explica a própria entrega por um instinto obtuso, que não teve força para romper, e o narrador sugere outra causa: um pressentimento, já na beira do rio, da falsidade das convicções dele, que seria o primeiro sinal de mudança.
Nos dois casos o texto dá duas explicações para o mesmo gesto, e o orgulho é o que há de comum entre elas: recusar o abatimento por pundonor ou por desinteresse, entregar-se por fraqueza ou por pressentimento. O Epílogo faz do orgulho ferido a causa da doença e, no mesmo capítulo em que o amor o derruba, não o desmente.