O que é
O sonho de Rodion Românovitch Raskólnikov na ilha Petróvski, no capítulo V da Primeira Parte. Ele é um menino de sete anos num dia de festa, caminha com o pai para o cemitério onde estão a avó e um irmãozinho morto, e na porta de uma taberna vê Mikolka, camponês forte e bêbado, matar uma égua magra a chicotadas, com a vara da carroça e com uma barra de ferro, diante de uma multidão que ri e incita. O menino corre até ela, abraça o focinho morto e o beija nos olhos e nos lábios. A égua volta no livro em Catierina Ivánovna Marmieládova, que na morte fala de si, no russo, como a кляча, o pangaré que os outros levaram ao limite.
Onde aparece
No capítulo V da Primeira Parte, depois de vagar pelas ilhas do Neva, beber um cálice de vodca e comer uma torta, Raskólnikov cai no mato da ilha Petróvski e sonha. Mikolka atrela a égua a uma carroça pesada e chama todos para subir, porque a fará correr. Como ela não consegue, bate nela com o chicote, depois com a vara da carroça e, por fim, com a barra de ferro, até matá-la. A multidão ri, incita e se junta aos golpes, e primeiro um velho, depois muitas vozes, gritam a Mikolka que ele não tem cruz no peito. O menino corre entre os adultos, chora, tenta proteger a égua e é puxado pelo pai, que diz que é coisa de bêbados e que não é da conta deles. O fecho é o gesto dele diante do animal já morto.
Но бедный мальчик уже не помнит себя. С криком пробивается он сквозь толпу к савраске, обхватывает ее мертвую, окровавленную морду и целует ее, целует ее в глаза, в губы…, Mas o pobre menino já não se lembra de si. Aos gritos abre caminho pela multidão até a égua, abraça o focinho dela, morto, ensanguentado, e o beija, beija nos olhos, nos lábios....
Ainda no capítulo V da Primeira Parte, ao acordar suado, Raskólnikov pensa que é febre, e então diz a si mesmo, com todas as letras, o que o plano exigiria.
неужели ж, неужели ж я в самом деле возьму топор, стану бить по голове, размозжу ей череп [...] Господи, неужели?, será possível, será possível mesmo que eu vá pegar o machado, pôr-me a bater na cabeça, estraçalhar o crânio dela [...] Senhor, será possível?
Ainda no capítulo V da Primeira Parte, aliviado, ele renuncia ao plano e atravessa a ponte sentindo que um abscesso do coração estourou. A renúncia dura até a praça Siénnaia, onde ouve a hora de Lisavieta.
Свобода, свобода! Он свободен теперь от этих чар, от колдовства, обаяния, от наваждения!, Liberdade, liberdade! Agora ele está livre desses encantos, da feitiçaria, do fascínio, da obsessão!
No capítulo VII da Primeira Parte, quando a velha se vira para a janela, o menino que correu até a égua morta desce o dorso do machado sobre a cabeça dela, quase sem esforço. O livro põe lado a lado o que ele sente no sonho e o que faz acordado.
Он вынул топор совсем, взмахнул его обеими руками, едва себя чувствуя, и почти без усилия, почти машинально, опустил на голову обухом, Tirou o machado por inteiro, ergueu-o com as duas mãos, mal sentindo a si mesmo, e, quase sem esforço, quase mecanicamente, baixou-o sobre a cabeça, com o lado cego.
No capítulo II da Segunda Parte voltam os elementos do sonho. Na ponte Nikoláievski um cocheiro lhe chicoteia as costas, porque ele quase cai sob os cavalos, e a multidão ri. À noite, em casa, ele se deita tremendo, diz o narrador, como um cavalo exausto de tanto correr. Acorda no escuro com gritos terríveis: a senhoria estaria sendo espancada na escada, e a voz que se ouve por cima é a do tenente Iliá Pietróvitch. Nastácia, de vela na mão, nega que alguém tenha batido em quem quer que seja.
No capítulo IV da Segunda Parte aparece o pintor Nikolai, que na narração de Razumíkhin é Mikolai, forma popular do mesmo nome. Na história que Razumíkhin conta, ele foi apanhado numa estalagem depois de tentar se enforcar.
No capítulo VI da Terceira Parte o segundo sonho do crime inverte o primeiro. Agora é Raskólnikov quem bate com o machado, e a vítima não sente os golpes e ri baixinho, enquanto atrás da porta vozes riem e cochicham e a antessala se enche de gente que só olha. O riso, que no primeiro sonho vinha da multidão contra a égua, vem agora da vítima e dos que cochicham.
старушонка сидела и смеялась, — так и заливалась тихим, неслышным смехом, из всех сил крепясь, чтоб он ее не услышал., a velhota estava ali sentada, rindo, desfeita num riso baixo, inaudível, e se continha com todas as forças para que ele não a ouvisse.
No capítulo V da Quarta Parte, ao zombar do método de Porfiri Pietróvitch, Raskólnikov usa, para o golpe do interrogatório no alto da cabeça, o mesmo verbo russo que o sonho usa para a pancada de Mikolka com a barra de ferro, o de atordoar de uma pancada. Porfiri completa a imagem com o dorso do machado, como se vê em o machado.
No capítulo VI da Quarta Parte, depois da falsa confissão do pintor, Raskólnikov o chama de Mikolka ao zombar do ofício de Porfiri Pietróvitch, que o atormentou até ele se acusar. É o diminutivo do camponês do sonho.
No capítulo V da Quinta Parte, Catierina Ivánovna Marmieládova, expulsa da casa, sai à rua com os filhos fantasiados, ensinando-os a cantar e a dançar diante de curiosos, convencida de que todos reconhecerão neles os órfãos de um nobre. Um funcionário condecorado lhe dá três rublos, um guarda a manda circular, os meninos assustados fogem, e ela corre atrás, tropeça e cai. O sangue que cobre o chão vem do peito. Recusa o padre e, no último grito, entre delírio e lucidez, fala de si como do pangaré que levaram ao limite.
Довольно!.. Пора!.. Прощай, горемыка!.. Уездили клячу!.. Надорвала-а-ась!, Chega!.. Está na hora!.. Adeus, coitada!.. Esgotaram a velha égua!.. Rebentou-se!
No capítulo II da Sexta Parte, Porfiri Pietróvitch usa o nome de Mikolka para provar que o sofrimento tem sentido: diz a Raskólnikov que não ria disso, porque no sofrimento há uma ideia e Mikolka é que tem razão.
не смейтесь над этим, в страдании есть идея. Миколка-то прав., não ria disso, no sofrimento há uma ideia. Mikolka é que tem razão.
O que significa
O sonho dá a Raskólnikov, antes da teoria, uma pena que vira ato: o menino corre, abraça, bate com os punhos em Mikolka, e nada pode contra a multidão e o pai. Depois o livro repete a cena com vítimas e instrumentos diferentes: o chicote e o riso na ponte, o cavalo exausto que ele próprio é ao deitar-se, o segundo sonho em que quem ri é a vítima, a morte de Catierina como a do pangaré que não aguentou mais. O gesto do menino também se repete em beijos. Raskólnikov beija o pé de Sófia Semeónovna Marmieládova no capítulo IV da Quarta Parte, beija os pés da mãe no capítulo VII da Sexta Parte e beija a terra da praça no capítulo VIII da Sexta Parte.
O sonho é o único momento do livro em que Raskólnikov faz, sem calcular, o que a compaixão manda. Duas leituras. Numa, é um aviso da consciência, que se rebela contra o plano e o faz renunciar até a praça Siénnaia, no capítulo V da Primeira Parte. Na outra, é a lembrança de uma pena que ele aprendeu a calar, e o crime é o ponto em que a pena deixa de ter voz. Em ambas, quando a égua volta em Catierina, no capítulo V da Quinta Parte, o homem que no sonho era o menino que corria até ela tenta falar com a mulher que morre e é recusado, e o enterro e o destino dos filhos ficam por conta de Arkadi Ivánovitch Svidrigáilov.
Relações
- Temas-padrão: Compaixão e caridade, Culpa, Sofrimento.
- Temas da obra: Culpa, Sofrimento.
- Personagens: Rodion Românovitch Raskólnikov, Catierina Ivánovna Marmieládova, Sófia Semeónovna Marmieládova, Arkadi Ivánovitch Svidrigáilov, Porfiri Pietróvitch.
- Símbolos vizinhos: o machado, que o sonho nomeia antes de a arma existir, e as cruzes, porque a multidão diz a Mikolka que ele não tem cruz.