Clavis Libri

Tema em Crime e Castigo

Compaixão e caridade

O cuidado com quem sofre: compaixão, misericórdia, bondade, generosidade, caridade.

O tema na obra

No romance a compaixão é primeiro um impulso que Rodion Românovitch Raskólnikov sente e logo cancela, depois um ato que ele faz contra a própria teoria, e por fim uma pergunta sobre o direito de dar. A caridade é posta à prova do começo ao fim: o dinheiro que ele entrega aos Marmieládov, a subscrição armada de Piotr Pietróvitch Lújin, a benevolência suspeita de Arkadi Ivánovitch Svidrigáilov, a defesa de Sófia Semeónovna Marmieládova por Catierina Ivánovna Marmieládova e o amor que os presos dão a Sônia. A que o livro deixa de pé no fim é a de Sônia, que não cobra e lê o outro pelo que ele faz, não pelo que diz.

No capítulo II da Primeira Parte, depois de ver a casa dos Marmieládov, Raskólnikov joga na janela as moedas de cobre que lhe restam e se arrepende na escada. Já na rua, tira a conta da casa e conclui que Sônia, a madrasta e as crianças choram e se habituam, porque precisa disso para que o que está pensando não tenha obstáculo, e resume a conclusão num insulto à espécie inteira:

Ко всему-то подлец-человек привыкает!, O homem, esse canalha, se acostuma a tudo!
Primeira Parte: O crime

No capítulo IV da Primeira Parte, na calçada, vê uma moça bêbada seguida por um janota, dá vinte copeques ao guarda para levá-la e, quando ela se levanta, manda o guarda deixar. Sentado no banco, despreza a moça com a estatística:

Процент! Славные, право, у них эти словечки: они такие успокоительные, научные. Сказано: процент, стало быть, и тревожиться нечего., Percentual! São ótimas, na verdade, essas palavrinhas deles: tão tranquilizadoras, tão científicas. Disseram percentual, então não há por que se inquietar.
Primeira Parte: O crime

No capítulo V da Primeira Parte, no sonho da égua (O sonho da égua), a pena do menino vira ato e nada pode contra a multidão:

Но бедный мальчик уже не помнит себя. С криком пробивается он сквозь толпу к савраске, обхватывает ее мертвую, окровавленную морду и целует ее, целует ее в глаза, в губы…, Mas o pobre menino já não se lembra de si. Aos gritos abre caminho pela multidão até a égua, abraça o focinho dela, morto, ensanguentado, e o beija, beija nos olhos, nos lábios....
Primeira Parte: O crime

No capítulo VII da Segunda Parte, depois de entregar os vinte rublos que tinha à viúva de Semion Zakhárovitch Marmieládov, ele desce a escada como um condenado a quem anunciam o perdão. O motivo da virada é um gesto de pena, mas o que ele diz a seguir já fala de domínio, e começa assim:

Есть жизнь! Разве я сейчас не жил? Не умерла еще моя жизнь вместе с старою старухой!, há vida! Por acaso não vivi agora mesmo? Ainda não morreu a minha vida junto com a velha anciã!
Segunda Parte: O inquérito

No capítulo III da Terceira Parte, ao pedir perdão à mãe pelo dinheiro, a pena vira questão de direito:

Я, впрочем, права не имел никакого, сознаюсь, особенно зная, как вам самим эти деньги достались. Чтобы помогать, надо сначала право такое иметь, Eu não tinha direito algum, confesso, ainda mais sabendo quanto esse dinheiro custou a vocês. Para ajudar, antes de tudo é preciso ter esse direito.
Terceira Parte: A teoria

No capítulo IV da Terceira Parte, Sônia mede o gesto dele pelo que sobrou, ao ver a pobreza do quarto:

Вы нам все вчера отдали!, O senhor nos deu tudo ontem!
Terceira Parte: A teoria

No capítulo I da Quarta Parte, Svidrigáilov dá razões demais para a oferta de dez mil rublos: o dinheiro lhe sobra, a consciência é tranquila, não há cálculo. O argumento que resume a oferta:

человек человеку на сем свете может делать одно только зло и, напротив, не имеет права сделать ни крошки добра, из-за пустых принятых формальностей., um homem neste mundo só pode fazer mal a outro e, ao contrário, não tem direito de fazer nem uma migalha de bem, por causa de formalidades vazias que a gente aceitou.
Quarta Parte: O cerco

No capítulo I da Quinta Parte, Lújin faz uma subscrição que parece esmola bem cuidada: a testemunha na sala, o dinheiro longe de Catierina, o nome em segredo, dez rublos a Sônia. No capítulo III da Quinta Parte, a nota de cem rublos que ele enfiou às escondidas no bolso dela cai aos pés dele, e Liebeziátnikov, que tomou o gesto por bondade, diz o que viu:

Только я-то, дурак, подумал, что вы из благодеяния подсунули!, Só que eu, o tolo, achei que o senhor tinha passado aquilo às escondidas por um gesto de bondade!
Quinta Parte: A confissão

Ainda no capítulo III da Quinta Parte, Catierina, depois de virar ela mesma os bolsos de Sônia e ver cair a nota, defende a enteada contra a evidência com o único argumento que tem: o que a moça já fez por eles.

Глупые вы, глупые [...] да вы еще не знаете, не знаете, какое это сердце, какая это девушка! Она возьмет, она! Да она свое последнее платье скинет, продаст, босая пойдет, а вам отдаст, коль вам надо будет, вот она какая! Она и желтый-то билет получила, потому что мои же дети с голоду пропадали, себя за нас продала!.., Tolos que vocês são, tolos [...] vocês ainda não sabem, não sabem que coração é esse, que moça é essa! Ela ia roubar, ela! Ela tira o último vestido, vende, vai descalça e dá tudo a vocês, se precisarem, é assim que ela é! Até o bilhete amarelo ela recebeu porque meus filhos estavam morrendo de fome, vendeu-se por nós!..
Quinta Parte: A confissão

No capítulo V da Quinta Parte, Svidrigáilov promete pagar o enterro de Catierina, colocar os três filhos em instituições e tirar Sônia do lodaçal, e justifica o dinheiro com a pergunta que Raskólnikov fez a Sônia:

не «вошь» же была она [...] как какая-нибудь старушонка процентщица. Ну, согласитесь, ну «Лужину ли, в самом деле, жить и делать мерзости, или ей умирать?», ela não era um “piolho” [...] como uma velhota agiota qualquer. Pois concorde: “Lújin deve mesmo viver e fazer infâmias, ou ela deve morrer?”
Quinta Parte: A confissão

No capítulo I da Sexta Parte, Svidrigáilov cuida do enterro de Catierina e já colocou os três órfãos em instituições, com o dinheiro que reservou para eles.

No capítulo VIII da Sexta Parte, Raskólnikov, já na rua, se pergunta para que foi à casa de Sônia, e a resposta que se dá não tem nada de caridade:

мне слез ее надобно было, мне испуг ее видеть надобно было, смотреть, как сердце ее болит и терзается! Надо было хоть обо что-нибудь зацепиться, помедлить, на человека посмотреть!, eu precisava das lágrimas dela, precisava ver o susto dela, ver como o coração dela dói e se dilacera! Precisava me agarrar a alguma coisa, demorar um pouco, olhar para uma pessoa!
Sexta Parte: A entrega

No capítulo I do Epílogo, Dmitri Prokófitch Razumíkhin desenterra as provas que o tribunal usa a favor do amigo: o estudante sustentou durante meio ano um colega tuberculoso e, depois da morte dele, o pai doente, e tirou duas crianças de um apartamento em chamas, queimando-se. Pulkhéria Alieksándrovna Raskólnikova repete os dois relatos a todos que encontra.

No capítulo II do Epílogo, Sônia, que quase não aparece e só uma vez levou tortas e pães ao presídio, passa a escrever as cartas dos presos às famílias, e quando chega aos trabalhos todos tiram os gorros:

Матушка, Софья Семеновна, мать ты наша, нежная, болезная!, Mãezinha, Sófia Semeónovna, mãe nossa, tão delicada, coitadinha!
Epílogo: A ressurreição

No mesmo capítulo, o livro põe ao lado desse afeto a hostilidade dos mesmos presos a Raskólnikov, e é do contraste que tira a sua conclusão:

A prisão faz, sem discurso nenhum, a demonstração que o romance devia à teoria: entre condenados por crimes muito piores, quem é aceito por todos é a mulher que nunca formulou uma ideia, e quem é odiado é o único que chegou ali com um sistema explicando por que estava certo.
Epílogo: A ressurreição

A compaixão de Raskólnikov tem uma regra que o livro mostra sem enunciar: dura enquanto há um vilão à vista e se desfaz quando o custo aparece, como nas moedas do capítulo II da Primeira Parte, ou quando alguém o contraria, como o guarda do capítulo IV da Primeira Parte. Os vinte rublos do capítulo VII da Segunda Parte são justificados depois com uma tese, no capítulo III da Terceira Parte. A de Sônia não tem regra: ela dá ao pai os últimos trinta copeques sem recriminá-lo, lê o gesto dele pelo que sobrou e, no Epílogo, é chamada de mãe pelos mesmos presos que o odeiam. A caridade de Lújin é a imitação que usa o dinheiro para fazer de Sônia uma ladra, e a de Svidrigáilov, numa das leituras possíveis, é a que o usa para mostrar a Raskólnikov que ouviu tudo.

Quem o encarna

Sônia é a compaixão sem teoria, e o livro põe a prova dela no dinheiro: no capítulo II da Primeira Parte, Marmieládov conta que ela lhe deu os últimos trinta copeques sem recriminar. No capítulo II do Epílogo, os presos a chamam de mãe.

Razumíkhin é a compaixão que trabalha. No capítulo III da Segunda Parte, alimenta Raskólnikov na colher e o veste da cabeça aos pés, e no capítulo III da Quarta Parte, depois de Raskólnikov pedir que fique no lugar dele, assume a mãe e a irmã.

Одним словом, с этого вечера Разумихин стал у них сыном и братом., Em suma, desde aquela noite Razumíkhin se tornou, junto delas, filho e irmão.
Quarta Parte: O cerco

Avdótia Românovna Raskólnikova oferece ao irmão, no capítulo V da Quinta Parte, a própria vida, sem cobrar explicações, se um dia ele precisar.

Catierina Ivánovna é a compaixão que explode em público, ao defender a enteada no capítulo III da Quinta Parte.

Onde aparece

  • Primeira Parte, capítulo II: Depois de ver a casa de Marmieládov, Raskólnikov joga as moedas de cobre na janela, arrepende-se na escada e conclui que o homem se acostuma a tudo.
  • Primeira Parte, capítulo IV: Raskólnikov dá vinte copeques ao guarda para levar a moça bêbada, manda deixar quando ela se levanta e, no banco, despreza a pena com a palavra percentual.
  • Primeira Parte, capítulo V: No sonho da égua, o menino Raskólnikov abraça o focinho ensanguentado da égua morta e o beija, tentando em vão protegê-la da multidão.
  • Segunda Parte, capítulo III: Razumíkhin alimenta Raskólnikov na colher, resolve a dívida com a senhoria e o veste da cabeça aos pés com o dinheiro da mãe, sem lhe pedir nada.
  • Segunda Parte, capítulo VII: Raskólnikov leva o atropelado Marmieládov para casa, paga o médico, entrega os vinte rublos à viúva e, na rua, Pólienka promete rezar por ele.
  • Terceira Parte, capítulo III: Raskólnikov pede perdão à mãe por ter dado à viúva de Marmieládov o dinheiro que ela mandara e diz que, para ajudar, é preciso ter esse direito.
  • Terceira Parte, capítulo IV: Sônia, ao ver o quarto de Raskólnikov, diz que ele lhes deu tudo no dia anterior, e a frase abre o rosto de Dúnia e a afabilidade da mãe.
  • Quarta Parte, capítulo I: Svidrigáilov propõe dez mil rublos para facilitar a ruptura de Dúnia com Lújin e diz que um homem não tem direito de fazer nem uma migalha de bem.
  • Quarta Parte, capítulo III: Razumíkhin propõe uma sociedade editorial e um apartamento para todos e, depois que Raskólnikov se despede, passa a ser junto da mãe e de Dúnia filho e irmão.
  • Quinta Parte, capítulo I: Lújin pede a Liebeziátnikov que fique na sala e entrega dez rublos a Sônia para uma subscrição, sem que o nome dele apareça.
  • Quinta Parte, capítulo III: Catierina defende Sônia da acusação de Lújin, dizendo que ela daria o último vestido e que se vendeu pelos filhos dela, e Liebeziátnikov desmente o furto.
  • Quinta Parte, capítulo V: Dúnia oferece a Raskólnikov a própria vida se um dia ele precisar, e Svidrigáilov promete pagar o enterro de Catierina e abrigar os órfãos.
  • Sexta Parte, capítulo I: Svidrigáilov cuida do enterro de Catierina Ivánovna e coloca os três órfãos em instituições, enquanto Sônia segura as mãos de Raskólnikov na missa de réquiem.
  • Sexta Parte, capítulo VIII: Raskólnikov entende, na rua, que foi à casa de Sônia buscar as lágrimas dela e o susto dela, para se agarrar a alguém.
  • Epílogo, capítulo I: Razumíkhin reúne provas de que Raskólnikov sustentou um colega tuberculoso e o pai dele e salvou duas crianças de um incêndio, e Pulkhéria Alieksándrovna repete os relatos a todos.
  • Epílogo, capítulo II: Os presos chamam Sônia de mãe porque ela escreve as cartas deles às famílias e lhes leva notícias, e quando ela chega aos trabalhos todos tiram os gorros.

Onde as leituras divergem

A benevolência de Svidrigáilov se lê de dois modos, e o texto não escolhe. No capítulo I da Quarta Parte, é arrependimento de quem só sabe agir assim, ou preparo de quem quer Dúnia em dívida com ele; e Dúnia, no capítulo III da Quarta Parte, teme a segunda. No capítulo V da Quinta Parte, é benevolência real de quem tem dinheiro de sobra, ou demonstração de que ouviu tudo e agora tem poder sobre Raskólnikov.

A pena de Raskólnikov na calçada, no capítulo IV da Primeira Parte, também se lê de dois modos: pena genuína que ele não admite, ou ira à procura de alvo. Em ambas, o nome que grita ao janota é o do homem que perseguiu a irmã.

Nas duas pontas a divergência é a mesma pergunta: a compaixão se mede pelo que a motiva ou pelo que ela faz? O livro não decide, mas dá pesos: o enterro de Catierina é pago e os órfãos são abrigados por quem pode ter motivos duvidosos (capítulo I da Sexta Parte), e o dinheiro de Lújin vira acusação (capítulo III da Quinta Parte). O efeito de Sônia, no Epílogo, é o único que o livro mostra sem explicar: o narrador pergunta por que todos a amam e não responde.