Clavis Libri

Tema em Crime e Castigo

Culpa

A consciência da falta: remorso, culpa, vergonha interior, o peso do que se fez.

O tema na obra

No romance, culpa e arrependimento não coincidem. Rodion Românovitch Raskólnikov sente nojo, medo, vergonha e solidão muito antes de reconhecer qualquer culpa moral, e até a penúltima página do Epílogo não se arrepende do assassinato: o que ele admite é ter falhado como executor da própria teoria. O livro mostra o corpo confessando antes da mente, e a virada, quando vem, chega como sentimento e não como veredicto sobre o crime.

No capítulo I da Primeira Parte, ainda no ensaio da casa da penhorista, Raskólnikov sente repulsa do que se prepara a fazer e desmente a própria frase antes de terminá-la:

О боже! как это все отвратительно! И неужели, неужели я… нет, это вздор, это нелепость!, Ah, meu Deus! Como tudo isso é repugnante! E será possível que eu, que eu... não, é bobagem, é um absurdo!
Primeira Parte: O crime

No capítulo VII da Primeira Parte, depois de matar a penhorista Aliena Ivánovna e Lisavieta Ivánovna com o machado (O machado), o narrador diz o que o dominaria se ele tivesse a cabeça clara:

он бросил бы все и тотчас пошел бы сам на себя объявить, и не от страху даже за себя, а от одного только ужаса и отвращения к тому, что он сделал., largaria tudo e iria na mesma hora denunciar a si próprio, e nem por medo por si mesmo, mas só por horror e repulsa pelo que fez.
Primeira Parte: O crime

No capítulo I da Segunda Parte, o corpo responde antes de a mente decidir qualquer coisa: Raskólnikov procura sangue na roupa peça por peça, esquece o laço que costurou para o machado e desmaia na delegacia. Quando o tenente o corta no meio da confidência, o que o narrador nomeia não é culpa nem medo de ser pego, é separação:

Мрачное ощущение мучительного, бесконечного уединения и отчуждения вдруг сознательно сказались душе его, uma sensação sombria de solidão atormentadora e sem fim, de estranhamento, revelou-se de repente, e conscientemente, à sua alma.
Segunda Parte: O inquérito

No capítulo VI da Segunda Parte, no Palácio de Cristal, a palavra terrível salta-lhe aos lábios e ele provoca Zamiótov com a hipótese de ser o assassino; depois volta ao apartamento da velha e puxa a campainha três vezes para sentir de novo o que sentiu do lado de dentro.

No capítulo VII da Segunda Parte, depois de dar aos Marmieládov todo o dinheiro que tinha, pede à pequena Pólienka que reze por ele, e o pedido é mínimo: uma oração sem sobrenome, só pelo servo Rodion.

Полечка, меня зовут Родион; помолитесь когда-нибудь и обо мне: « и раба Родиона» — больше ничего., Pólienka, meu nome é Rodion; reze também por mim, um dia: e pelo servo Rodion, mais nada.
Segunda Parte: O inquérito

No capítulo III da Terceira Parte, quando Avdótia Românovna Raskólnikova rebate o irmão dizendo que ainda não matou ninguém, ele empalidece a ponto de quase desmaiar, e o narrador não explica a vertigem:

Я еще никого не зарезала!.., Eu ainda não matei ninguém!..
Terceira Parte: A teoria

No capítulo VI da Terceira Parte, um desconhecido o chama de assassino na rua, e em casa, em febre, Raskólnikov tenta separar o ato da pessoa:

я не человека убил, я принцип убил! Принцип-то я и убил, а переступить-то не переступил, на этой стороне остался... Только и сумел, что убить., não foi uma pessoa que eu matei, foi um princípio! O princípio, esse eu matei, mas transpor não transpus, fiquei deste lado... Só o que consegui foi matar.
Terceira Parte: A teoria

Ainda no capítulo VI da Terceira Parte, o sonho inverte a cena do crime: ele golpeia a velha e ela não sente, ri em silêncio, enquanto atrás da porta vozes riem e a antessala se enche de gente que só olha.

старушонка сидела и смеялась, — так и заливалась тихим, неслышным смехом, из всех сил крепясь, чтоб он ее не услышал., a velhota estava ali sentada, rindo, desfeita num riso baixo, inaudível, e se continha com todas as forças para que ele não a ouvisse.
Terceira Parte: A teoria

No capítulo VI da Quarta Parte, quando a confissão falsa de Nikolai desarma o cerco de Porfiri Pietróvitch, a raiva que Raskólnikov leva escada abaixo não é contra o juiz: o narrador esclarece que é contra ele mesmo, por lembrar com desprezo e vergonha da própria pusilanimidade, palavra dele.

Злоба же относилась к нему самому: он с презрением и стыдом вспоминал о своем «малодушии»., Mas a raiva era contra ele mesmo: lembrava, com desprezo e vergonha, da sua pusilanimidade.
Quarta Parte: O cerco

No capítulo IV da Quinta Parte, ao confessar a Sófia Semeónovna Marmieládova, ele descarta uma a uma as razões que dá (o dinheiro, a mãe, a humanidade, Napoleão) e chega a uma formulação sem fim exterior, em que a vítima do golpe é ele:

Разве я старушонку убил? Я себя убил, а не старушонку! Тут так-таки разом и ухлопал себя, навеки!.., Foi a velhota que eu matei? Foi a mim que matei, e não a velhota! Ali mesmo, de uma vez só, liquidei a mim, para sempre!..
Quinta Parte: A confissão

No capítulo VII da Sexta Parte, quando Dúnia fala em lavar o crime pelo sofrimento, ele reage à palavra crime e a nega. Nega o crime e mesmo assim vai se entregar, o que separa, no livro, entregar-se de reconhecer culpa.

то, что я убил гадкую, зловредную вошь, старушонку процентщицу, никому не нужную, которую убить сорок грехов простят, которая из бедных сок высасывала, и это-то преступление? Не думаю я о нем и смывать его не думаю., que eu matei um piolho asqueroso e nocivo, uma velhota agiota que não serve a ninguém, por cuja morte se perdoam quarenta pecados, que sugava a seiva dos pobres, e isso é que é crime? Não penso nele e não penso em lavá-lo.
Sexta Parte: A entrega

No capítulo VIII da Sexta Parte, depois de beijar a terra na praça e de ouvir de Iliá Pietróvitch a notícia da morte de Arkadi Ivánovitch Svidrigáilov, ele diz a frase que o livro guarda como confissão, em tom de relato, sem pedir nada:

Это я убил тогда старуху-чиновницу и сестру ее Лизавету топором и ограбил., Fui eu que matei, naquela ocasião, a velha mulher de funcionário e a irmã dela, Lisavieta, com um machado, e roubei.
Sexta Parte: A entrega

No capítulo I do Epílogo, o tribunal prefere a perturbação passageira, e Raskólnikov, que quase não se defende, dá como causa a miséria e o desejo de firmar a carreira com o dinheiro da velha, sem mencionar a teoria.

No capítulo II do Epílogo, o narrador desmente a palavra que ele deu ao tribunal sobre o arrependimento:

он не раскаивался в своем преступлении, ele não se arrependia de seu crime.
Epílogo: A ressurreição

Ainda no capítulo II do Epílogo, o que adoece Raskólnikov na prisão é orgulho ferido, e a culpa que ele reconhece é a de não ter suportado o crime e de ter se entregado. A mudança vem depois, sem argumento:

Вместо диалектики наступила жизнь, и в сознании должно было выработаться что-то совершенно другое, Em vez da dialética, chegou a vida, e na consciência algo completamente outro devia se formar.
Epílogo: A ressurreição

O livro separa quatro coisas que a conversa corrente chama de culpa: o nojo, que aparece antes e depois do golpe (no capítulo I da Primeira Parte e no capítulo VII da Primeira Parte), a separação da espécie, que o narrador nomeia no capítulo I da Segunda Parte, a vergonha de ter falhado, que reaparece no capítulo VI da Quarta Parte e no capítulo II do Epílogo, e o remorso, que Raskólnikov deseja no Epílogo e não encontra. Nenhuma delas vira arrependimento por força de argumento: o Epílogo muda de regime e põe o sentimento no lugar da dialética, e a culpa que ele nunca admite fica suspensa, não resolvida.

Quem o encarna

Além de Raskólnikov, o romance põe a culpa em outras bocas, e cada uma a trata de um modo.

No capítulo II da Primeira Parte, Semion Zakhárovitch Marmieládov pede que o crucifiquem em vez de terem pena dele, e a taberna ri. É a culpa dita em voz alta e feita papel, sem nenhum custo para quem a diz.

меня жалеть не за что! Меня распять надо, распять на кресте, а не жалеть!, de mim não se deve ter pena! Tem de me crucificar, crucificar na cruz, e não ter pena!
Primeira Parte: O crime

No capítulo IV da Quarta Parte, Sônia, que vive sob o bilhete amarelo, responde a Raskólnikov que é uma grande pecadora, e é a ela que ele vai confessar. Ela não acusa nem absolve: no capítulo IV da Quinta Parte prescreve um rito, beijar a terra que ele profanou e dizer em voz alta que matou.

Поди сейчас, сию же минуту, стань на перекрестке, поклонись, поцелуй сначала землю, которую ты осквернил, а потом поклонись всему свету, на все четыре стороны, и скажи всем, вслух: «Я убил!» Тогда бог опять тебе жизни пошлет, Vá agora, neste mesmo instante, pare num cruzamento, curve-se, beije primeiro a terra que você profanou, e depois curve-se diante do mundo inteiro, para os quatro cantos, e diga a todos, em voz alta: “Eu matei!” Então Deus voltará a lhe enviar vida.
Quinta Parte: A confissão

No capítulo V da Quinta Parte, Catierina Ivánovna Marmieládova, agonizando, recusa o padre dizendo que não tem pecado nenhum e que, se Deus não perdoar, não faz falta.

На мне нет грехов!.. Бог и без того должен простить… Сам знает, как я страдала!.. А не простит, так и не надо!.., Não tenho pecado nenhum!.. Deus, de todo jeito, tem de perdoar… Ele mesmo sabe como eu sofri!.. E se não perdoar, não precisa!..
Quinta Parte: A confissão

Svidrigáilov afirma, no capítulo I da Quarta Parte, que a consciência dele está tranquila a respeito da morte de Marfa Pietróvna. Na última noite, no capítulo VI da Sexta Parte, o que o perturba não é o tiro que Dúnia disparou, é a pena que sentiu dela. O texto não decide se o que o persegue nos sonhos com as duas meninas é culpa verdadeira ou o horror de se reconhecer num impulso.

Он вспомнил, как ему в то мгновение точно жалко стало ее, как бы сердце сдавило ему… «Э! К черту! Опять эти мысли, все это надо бросить, бросить!..», Lembrou como, naquele instante, sentira como que pena dela, como se o coração lhe apertasse... Ora! Ao diabo! Outra vez esses pensamentos, é preciso largar tudo isso, largar!..
Sexta Parte: A entrega

Porfiri trata a culpa como coisa que o corpo entrega. No capítulo V da Quarta Parte, descreve o culpado como a mariposa que gira em torno da vela, e no capítulo II da Sexta Parte admite que a psicologia sozinha corta para os dois lados.

Onde aparece

  • Primeira Parte, capítulo I: Ainda na rua, a caminho da casa da penhorista, Raskólnikov sente repulsa do que se prepara a fazer e desmente a própria frase antes de terminá-la.
  • Primeira Parte, capítulo II: Na taberna, Marmieládov pede que o crucifiquem em vez de terem pena dele, e os fregueses riem enquanto Raskólnikov escuta com mal-estar.
  • Primeira Parte, capítulo VII: Depois de matar a velha e Lisavieta, Raskólnikov sentiria, de cabeça clara, horror e repulsa pelo que fez e iria denunciar-se, diz o narrador, mas a distração o impede.
  • Segunda Parte, capítulo I: Na manhã seguinte ao crime, Raskólnikov procura sangue na roupa, desmaia na delegacia e sente de repente uma solidão e um estranhamento que o separam de todos.
  • Segunda Parte, capítulo VI: Raskólnikov provoca Zamiótov no Palácio de Cristal com a hipótese de ser o assassino e depois volta ao apartamento da velha e puxa a campainha três vezes.
  • Segunda Parte, capítulo VII: Raskólnikov entrega os vinte rublos que tem à família de Marmieládov e pede à pequena Pólienka que reze pelo servo Rodion.
  • Terceira Parte, capítulo III: Quando Dúnia diz que ainda não matou ninguém, Raskólnikov empalidece a ponto de quase desmaiar, e o narrador não explica a vertigem.
  • Terceira Parte, capítulo VI: Um desconhecido o chama de assassino na rua; em febre, Raskólnikov diz que matou um princípio e não transpôs, e sonha que a velha ri dos golpes.
  • Quarta Parte, capítulo I: Svidrigáilov diz a Raskólnikov que tem a consciência tranquila a respeito da morte da mulher, Marfa Pietróvna, e fala dos fantasmas que a ela se atribuem.
  • Quarta Parte, capítulo IV: No quarto de Sônia, Raskólnikov beija-lhe o pé, ouve que ela é uma grande pecadora e promete dizer no dia seguinte quem matou Lisavieta.
  • Quarta Parte, capítulo V: Porfiri descreve o culpado como a mariposa que gira em torno da vela, e Raskólnikov, decidido a calar, rompe a decisão e grita que não permitirá a zombaria.
  • Quarta Parte, capítulo VI: Depois que a confissão falsa de Nikolai desarma o cerco de Porfiri, Raskólnikov desce a escada com raiva de si mesmo, envergonhado da própria pusilanimidade.
  • Quinta Parte, capítulo IV: Raskólnikov confessa a Sônia o duplo assassinato, primeiro em terceira pessoa, e afirma por fim que matou para si e que foi a si mesmo que matou.
  • Quinta Parte, capítulo V: Catierina Ivánovna, agonizando, recusa o padre dizendo que não tem pecado nenhum e que Deus, se não perdoar, não faz falta.
  • Sexta Parte, capítulo II: Porfiri diz a Raskólnikov que foi ele quem matou, e Raskólnikov nega num sussurro de criança apanhada, mas recusa o abatimento de pena que lhe é oferecido.
  • Sexta Parte, capítulo VI: Na última noite, Svidrigáilov sente pena de Dúnia ao lembrar o rosto dela depois do primeiro tiro, e sonha com duas meninas antes de se matar.
  • Sexta Parte, capítulo VII: Quando Dúnia fala em lavar o crime pelo sofrimento, Raskólnikov nega que tenha cometido crime, mas diz que vai se entregar.
  • Sexta Parte, capítulo VIII: Na delegacia, depois de saber da morte de Svidrigáilov, Raskólnikov diz a Iliá Pietróvitch, em tom pausado, que matou a velha e Lisavieta com um machado e roubou.
  • Epílogo, capítulo I: No tribunal, Raskólnikov dá como causa a miséria e o desejo de começar a carreira, e os juízes preferem explicar o crime como perturbação passageira.
  • Epílogo, capítulo II: Na prisão, Raskólnikov não se arrepende do crime e só reconhece culpa por não ter suportado, até que o amor de Sônia põe a vida no lugar da dialética.

Onde as leituras divergem

Sobre o que Raskólnikov sente depois do golpe, Joseph Frank lê o instante como a consciência viva reagindo antes da razão:

No momento em que age, "o pavor se apoderava dele cada vez mais", mas o que o levaria a se entregar não é medo e sim "o simples horror e repugnância ao que havia praticado"; a consciência que sua teoria devia ter neutralizado continua viva e reage antes que a razão a alcance.
Joseph Frank

Contra a leitura que vê no assassinato um ato frio e deliberado pesa que Lisavieta não estava no plano: no capítulo VII da Primeira Parte, o segundo golpe vem quando ela surge diante da irmã morta, e o próprio narrador o chama de assassinato inesperado. A leitura de Frank parte do dado que o texto fixa nesse mesmo capítulo, o de que o que o levaria a se denunciar é horror e repulsa, e não medo de ser pego.