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A ressurreição de Lázaro

O que é

O capítulo 11 do Evangelho de João, o de Lázaro de Betânia, que Sófia Semeónovna Marmieládova lê em voz alta a Rodion Românovitch Raskólnikov no quarto dela, e o exemplar do Evangelho que o contém, que, no capítulo II do Epílogo, está sob o travesseiro dele. O livro o prepara com uma pergunta de Porfiri Pietróvitch, o devolve no desfecho como palavra, a ressurreição pelo amor, e o deixa sem a leitura que o fecharia: no texto russo, Raskólnikov pega o Evangelho nesse mesmo capítulo e não o abre.

Onde aparece

No capítulo IV da Terceira Parte, a caminho da casa de Porfiri Pietróvitch, Raskólnikov pensa que também diante dele será preciso cantar Lázaro, expressão russa para fingir lamúria e pedir pena. É outro uso do nome, que nada diz do episódio de Betânia.

No capítulo V da Terceira Parte, depois de ouvir a exposição da teoria, Porfiri Pietróvitch pergunta a Raskólnikov se ele crê na Nova Jerusalém, em Deus e na ressurreição de Lázaro. Raskólnikov responde que crê, com um tropeço na primeira sílaba, e pergunta por que o juiz quer saber tudo isso; a resposta é que crê literalmente.

No capítulo III da Quarta Parte, ao pedir à mãe e à irmã que o esqueçam e deixem de procurá-lo, Raskólnikov diz que talvez tudo ressuscite, e logo volta à ameaça de odiá-las se não desistirem dele. O verbo da ressurreição aparece na boca dele antes da leitura, sem referência ao episódio.

Что бы со мною ни было, погибну я или нет, я хочу быть один. Забудьте меня совсем. [...] А теперь, когда любите меня, откажитесь… Иначе, я вас возненавижу, я чувствую…, Seja o que for que me aconteça, pereça eu ou não, quero ficar só. Esqueçam-me de vez. [...] E agora, se me amam, desistam de mim… Senão eu as odiarei, eu sinto…
Quarta Parte: O cerco

No capítulo IV da Quarta Parte, às onze da noite, Raskólnikov vai ao quarto de Sófia Semeónovna Marmieládova e, depois de apertá-la sobre o destino das crianças de Catierina até ela repetir que Deus não permitirá, pergunta o que a sustenta. Ela responde, vivamente, que sem Deus não seria nada.

Что ж бы я без бога-то была?, E o que eu seria sem Deus?
Quarta Parte: O cerco

Ainda no capítulo IV da Quarta Parte, há sobre a cômoda um Novo Testamento velho, de capa de couro, que Lisavieta Ivánovna trouxe a pedido de Sônia. Raskólnikov o folheia e pergunta onde está Lázaro, e ela, sem se mover, manda que não procure ali: é no quarto Evangelho. Hesita e pergunta por que ele quer, se não crê; ele insiste, lembra que ela leu a Lisavieta, e Sônia abre o livro com as mãos tremendo.

Ainda no capítulo IV da Quarta Parte, ela começa duas vezes sem conseguir o primeiro som, e na terceira palavra a voz se parte e volta. Lê o capítulo 11 de João desde o começo: Marta que vai ao encontro de Jesus, Maria aos pés dele, a pedra que se manda tirar. No russo bate com a voz na palavra quatro, os quatro dias de Lázaro no sepulcro. No grito que chama o morto lê alto e em êxtase, tremendo e gelada, como se visse a cena, e imagina que Raskólnikov, cego e descrente como os judeus do relato, vai crer ali mesmo. Para depois da crença dos que viram o que Jesus fez: fecha o livro, de pé, e diz só que é tudo sobre a ressurreição de Lázaro.

O Evangelho entra na página em trechos longos, lidos em voz alta, e ninguém o discute na cena: Raskólnikov, que argumenta com todos os outros personagens, ouve a leitura em silêncio, sem interromper, porque o que ela responde não é um argumento, é o relato de um morto que sai do túmulo. O Epílogo volta a esse livro: o Evangelho que Raskólnikov encontra sob o travesseiro é o mesmo de onde Sônia lhe leu a ressurreição.
Quarta Parte: O cerco

Ainda no capítulo IV da Quarta Parte, Raskólnikov pediu o capítulo que ela leu a Lisavieta, a mulher que ele matou, e não diz por quê. Depois de uns cinco minutos de silêncio declara que largou a mãe e a irmã, que só lhe resta Sônia e que os dois devem ir juntos.

Мы вместе прокляты, вместе и пойдем!, Juntos estamos amaldiçoados, e juntos iremos!
Quarta Parte: O cerco

Ainda no capítulo IV da Quarta Parte, Sônia passa a noite em febre, sonhando com a leitura e com ele, que lhe beija os pés. Na sala vazia ao lado, atrás da porta, Arkadi Ivánovitch Svidrigáilov esteve de pé o tempo todo e ouviu a conversa inteira.

No capítulo IV da Sexta Parte, Svidrigáilov conta a Raskólnikov como Avdótia Românovna Raskólnikova, compadecida do homem perdido que lhe descreviam, quis salvá-lo, trazê-lo à razão, ressuscitá-lo e levá-lo a fins mais nobres. Ele ouvira a leitura de Lázaro atrás da porta, no capítulo IV da Quarta Parte. O verbo da ressurreição aparece aqui como risco de uma moça de bom coração, e Svidrigáilov o usa como método: fingiu-se comovido e a adulou.

No capítulo II do Epílogo, Raskólnikov se atormenta com a pergunta de por que não se matou à beira do rio e a explica por um instinto obtuso. O narrador sugere outra causa: um pressentimento, já ali, da falsidade das próprias convicções, que podia ser anúncio de uma reviravolta e de uma futura ressurreição, e que ele não entendeu.

Ainda no capítulo II do Epílogo, depois da doença e da espera por Sônia, ela o alcança à beira do rio, onde ele está sentado nas toras diante da estepe, e ele se lança aos pés dela, chorando. O narrador diz que o amor os ressuscitou.

Их воскресила любовь, сердце одного заключало бесконечные источники жизни для сердца другого, O amor os ressuscitou: o coração de um encerrava fontes infinitas de vida para o coração do outro.
Epílogo: A ressurreição

Ainda no capítulo II do Epílogo, naquela noite, no estrado, ele já não conclui nada, só sente: em vez da dialética, diz o narrador, chegou a vida.

Вместо диалектики наступила жизнь, и в сознании должно было выработаться что-то совершенно другое, Em vez da dialética, chegou a vida, e na consciência algo completamente outro devia se formar.
Epílogo: A ressurreição

Ainda no capítulo II do Epílogo, debaixo do travesseiro está o Evangelho de Sônia, o mesmo de onde ela lera a ressurreição de Lázaro. Raskólnikov o pediu a ela pouco antes de adoecer, e ela o trouxe calada, sem nunca ter tocado no assunto da religião. Agora ele o toma por reflexo e, diz o russo, ainda não o abriu; pergunta-se apenas se as convicções dela não podem ser as dele, ao menos os sentimentos e as aspirações. O capítulo se fecha recusando contar o que viria.

тут уж начинается новая история, история постепенного обновления человека, история постепенного перерождения его, постепенного перехода из одного мира в другой, знакомства с новою, доселе совершенно неведомою действительностью. Это могло бы составить тему нового рассказа, - но теперешний рассказ наш окончен, mas aqui já começa uma nova história, a história da renovação gradual de um homem, a história do seu renascimento gradual, de sua passagem gradual de um mundo a outro, do contato com uma realidade nova, até então inteiramente desconhecida. Isso poderia formar o tema de um novo relato, mas o nosso relato de agora está encerrado.
Epílogo: A ressurreição

O que significa

O episódio de Lázaro percorre o livro como promessa que não se cumpre na página. Porfiri pergunta se Raskólnikov crê nele ao pé da letra no capítulo V da Terceira Parte, Raskólnikov pede que Sônia o leia a ele no capítulo IV da Quarta Parte, e ela lê até onde os judeus creem e fecha o livro. A palavra ressurreição passa em seguida pelo adeus à família, pela boca de Svidrigáilov e pela do narrador no fim, e o Evangelho, ao chegar às mãos de Raskólnikov, permanece fechado.

O livro dá ao episódio a posição de promessa. Duas leituras sobre quem é Lázaro. Na primeira, é Raskólnikov, o morto que sai porque o chamam, e quem chama é Sônia, que no capítulo II do Epílogo vai até o portão do hospital e se senta ao lado dele à beira do rio. Na segunda, Raskólnikov é um dos judeus do relato, os que veem e creem, e o milagre é o que Sônia faz, lendo com a voz falhando a um homem que não crê, e não o que acontece com ele. O livro não decide, e deixa o Evangelho fechado para que as duas se mantenham de pé.

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