O que é
Dois pares de cruzes e uma encruzilhada. O primeiro par pende do pescoço de Aliena Ivánovna e Rodion Românovitch Raskólnikov o corta com o machado e joga de volta sobre o peito dela. O segundo é de Sófia Semeónovna Marmieládova e de Lisavieta Ivánovna, que trocaram de cruz por amizade: Sônia ficou com a de cobre de Lisavieta, e a de cipreste, a dos simples, é a que ela põe no peito de Raskólnikov quando ele vai se entregar. A encruzilhada é o lugar onde Sônia manda que ele beije a terra e diga ao mundo que matou, e é onde ele, na praça, cumpre a primeira metade da ordem.
Onde aparece
A cruz entra no livro como castigo que um bêbado pede para si. No capítulo II da Primeira Parte, na taberna, Semion Zakhárovitch Marmieládov se levanta de braço estendido diante dos que riem dele e diz o que acha que merece, antes de imaginar um juízo em que o Senhor receberá os bêbados e os fracos justamente por não se julgarem dignos:
меня жалеть не за что! Меня распять надо, распять на кресте, а не жалеть!, de mim não se deve ter pena! Tem de me crucificar, crucificar na cruz, e não ter pena!
No sonho do capítulo V da Primeira Parte, enquanto Mikolka mata a égua, a multidão lhe grita que ele não tem cruz no peito. Um velho é o primeiro a dizê-lo, e depois muitas vozes o repetem: é o modo russo de dizer que alguém perdeu o temor de Deus.
No capítulo VII da Primeira Parte as cruzes são objeto. Depois de matar Aliena Ivánovna, Raskólnikov corta com o machado, sem tocar o corpo, o cordão do pescoço dela, em que pendem duas cruzes, uma medalhinha e uma bolsinha de camurça. Guarda a bolsa e joga as cruzes sobre o peito da morta. O narrador descreve as duas como de cipreste e de cobre, com uma imagem esmaltada ao lado.
A encruzilhada aparece antes de ser ordem. No capítulo VI da Segunda Parte, depois de ser expulso do prédio da velha, Raskólnikov para no meio de um cruzamento como quem espera a última palavra de alguém e não a recebe, e segue para onde a multidão está. No capítulo VI da Terceira Parte, o pequeno burguês que o chamou de assassino se separa dele num cruzamento e vira à esquerda, e Raskólnikov fica parado, olhando; só mais adiante o homem se volta uma vez para olhá-lo.
No capítulo IV da Quarta Parte, o Novo Testamento sobre a cômoda de Sônia é um objeto que Lisavieta Ivánovna trouxe a pedido dela. É o primeiro sinal do elo entre as duas mulheres, que a troca das cruzes vai confirmar no capítulo IV da Quinta Parte.
No capítulo IV da Quinta Parte, depois de ouvir a confissão, Sônia ainda não fala de cruz nenhuma: dá uma ordem, e a ordem tem lugar marcado, a encruzilhada.
Поди сейчас, сию же минуту, стань на перекрестке, поклонись, поцелуй сначала землю, которую ты осквернил, а потом поклонись всему свету, на все четыре стороны, и скажи всем, вслух: «Я убил!» Тогда бог опять тебе жизни пошлет, Vá agora, neste mesmo instante, pare num cruzamento, curve-se, beije primeiro a terra que você profanou, e depois curve-se diante do mundo inteiro, para os quatro cantos, e diga a todos, em voz alta: “Eu matei!” Então Deus voltará a lhe enviar vida.
Ainda no capítulo IV da Quinta Parte, ele recusa a ordem, e Sônia lhe oferece a cruz de cipreste. Diz que ficará com a de cobre, que foi de Lisavieta, de quem trocou: deu a ela uma imagem e recebeu a cruz. No russo ela acrescenta que vão sofrer juntos e levar a cruz juntos. Raskólnikov estende a mão e a retira: agora não, melhor depois. Sônia concorda: quando ele for ao sofrimento, ela porá a cruz nele, rezarão juntos e irão.
No capítulo V da Quinta Parte, no mesmo dia, Catierina Ivánovna Marmieládova leva os filhos às ruas, e Liebeziátnikov conta que ela os faz parar nas encruzilhadas e diante das lojas para cantar e dançar, com gente atrás. A encruzilhada que Sônia propusera a Raskólnikov como lugar de confissão serve, para Catierina, de palco.
No capítulo VIII da Sexta Parte Raskólnikov chega a Sônia dizendo, em tom de troça, que veio pelas cruzes, já que ela o mandou à encruzilhada, e pergunta se na hora do aperto ela se acovardou. Sônia tira da gaveta as duas cruzes, benze-se e benze-o, e o que faz com elas fecha o combinado da confissão:
Sônia põe no peito de Raskólnikov só a cruz de cipreste, a dos simples, e fica com a de cobre, que trocou com Lisavieta Ivánovna. Na Quinta Parte ele recusara a de cipreste, dizendo que seria melhor depois, e ela combinara dá-la quando ele fosse ao sofrimento, de modo que a cena cumpre o combinado; a cruz da vítima fica com a mulher que o acompanhará.
Ainda no capítulo VIII da Sexta Parte, ele responde zombando, pede para ver a de cobre e pergunta se era aquela que Lisavieta trazia no minuto da morte. Lembra então outras duas, uma de prata e uma imagem, que diz ter lançado sobre o peito da velha, e acrescenta que viriam a calhar agora. A descrição não casa com a do capítulo VII da Primeira Parte, que as dava como de cipreste e de cobre, e o russo não concilia as duas. Por insistência de Sônia, benze-se várias vezes.
Это, значит, символ того, что крест беру на себя, хе-хе! И точно, я до сих пор мало страдал!, Isto é, então, o símbolo de que tomo a cruz sobre mim, he-he! E é verdade, até agora sofri pouco!
Ainda no capítulo VIII da Sexta Parte, na rua, ele entende que a visita não teve outro objeto. Não eram as cruzes que foi buscar.
мне слез ее надобно было, мне испуг ее видеть надобно было, смотреть, как сердце ее болит и терзается! Надо было хоть обо что-нибудь зацепиться, помедлить, на человека посмотреть!, eu precisava das lágrimas dela, precisava ver o susto dela, ver como o coração dela dói e se dilacera! Precisava me agarrar a alguma coisa, demorar um pouco, olhar para uma pessoa!
Ainda no capítulo VIII da Sexta Parte, ele lembra a ordem de Sônia, e a lembrança vira ato.
Поди на перекресток, поклонись народу, поцелуй землю, потому что ты и пред ней согрешил, и скажи всему миру вслух: „Я убийца!“, Vá a uma encruzilhada, curve-se diante do povo, beije a terra, porque você pecou também contra ela, e diga ao mundo inteiro, em voz alta: ‘Sou um assassino!’.
Ainda no capítulo VIII da Sexta Parte, na praça, a segunda metade da ordem, dizer em voz alta que matou, congela nele, e a confissão fica para a delegacia; Sônia o seguiu, escondida atrás de uma barraca. A primeira metade ele cumpre ali mesmo, sob o riso de quem o toma por bêbado ou por peregrino a caminho de Jerusalém:
Он стал на колени среди площади, поклонился до земли и поцеловал эту грязную землю, с наслаждением и счастием., Pôs-se de joelhos no meio da praça, curvou-se até o chão e beijou aquela terra suja, com deleite e felicidade.
Nos dois capítulos finais do livro as cruzes não são nomeadas. O objeto que fica entre Sônia e Raskólnikov na Sibéria é o Evangelho, que o capítulo II do Epílogo deixa debaixo do travesseiro dele.
O que significa
Os dois pares de cruzes caminham em sentidos contrários. As da penhorista são cortadas de um corpo e jogadas de volta sobre ele no capítulo VII da Primeira Parte; as de Sônia e de Lisavieta foram trocadas por escolha e circulam de quem sofre para quem vai sofrer. A cruz de cipreste que Sônia dá é a dos simples, e Raskólnikov a recebe como símbolo de tomar a cruz sobre si e a ironiza no mesmo fôlego, dizendo que até agora sofreu pouco. A encruzilhada reúne os dois gestos: Sônia a descreve no capítulo IV da Quinta Parte como o lugar onde se pede perdão à terra e ao mundo, e o capítulo VIII da Sexta Parte mostra o primeiro passo, dado sem que ninguém o entenda.
Em russo, encruzilhada (перекрёсток) e cruz (крест) partilham a raiz.
A cruz de cobre fica com Sônia e a de cipreste vai com Raskólnikov, de modo que a vítima e o assassino ficam ligados por uma troca que as duas mulheres fizeram antes dele: quem carrega a cruz de Lisavieta é a mulher que o seguirá à Sibéria. Duas leituras da cruz de cipreste. Na primeira, é oferta de penitência, que ele adia no capítulo IV da Quinta Parte e aceita com ironia no capítulo VIII da Sexta Parte. Na segunda, é oferta de companhia, o juntos do russo, e o que a cena seguinte mostra que ele foi buscar são as lágrimas de Sônia, não as cruzes.
Relações
- Temas-padrão: Sofrimento, Redenção, Culpa.
- Temas da obra: Sofrimento, Culpa.
- Personagens: Rodion Românovitch Raskólnikov, Sófia Semeónovna Marmieládova, Lisavieta Ivánovna, Semion Zakhárovitch Marmieládov, Catierina Ivánovna Marmieládova.
- Símbolos vizinhos: a ressurreição de Lázaro, porque o Evangelho de Sônia foi Lisavieta quem trouxe; o machado, que corta o cordão da velha; e o sonho da égua, onde a multidão diz a Mikolka que ele não tem cruz.