O que é
A arma dos dois assassinatos de Rodion Românovitch Raskólnikov. Raskólnikov decide muito antes do crime que será um machado, costura por dentro do casaco uma alça para levá-lo, vê falhar o plano de pegá-lo na cozinha da senhoria e acaba achando um por acaso debaixo do banco do zelador. Com ele mata Aliena Ivánovna, de dorso, e Lisavieta Ivánovna, de fio. Lava a lâmina no balde da cozinha e devolve o machado ao mesmo banco. Depois disso o objeto sai de cena, e o livro guarda a palavra: a imagem do golpe na cabeça, a piada de Zamiótov, a confissão com a arma nomeada, o espanto dos presos.
Onde aparece
Antes de ser objeto, o machado é uma imagem de que Rodion Românovitch Raskólnikov se assusta. No capítulo V da Primeira Parte, ao acordar do sonho da égua, ele diz a si mesmo, com todas as letras, o que o plano exigiria: pegar o machado, bater na cabeça, partir o crânio. Treme como folha. Dentro do próprio sonho a palavra já circula, porque alguém da multidão grita que se acabe com a égua a machadadas, e Mikolka a mata com a barra de ferro.
неужели ж, неужели ж я в самом деле возьму топор, стану бить по голове, размозжу ей череп [...] Господи, неужели?, será possível, será possível mesmo que eu vá pegar o machado, pôr-me a bater na cabeça, estraçalhar o crânio dela [...] Senhor, será possível?
No capítulo VI da Primeira Parte a arma ganha corpo, primeiro como alça. Raskólnikov arranca uma tira de uma camisa velha e a costura por dentro do casaco, sob a axila esquerda, ideia de duas semanas, para levar o machado sem segurá-lo à vista de ninguém. Depois vem o machado em si, que ele resolvera como arma havia muito, porque não confia no canivete de jardim nem nas próprias forças, e que pretende tirar da cozinha da senhoria. Desce os treze degraus de mansinho e encontra Nastácia em casa, pendurando roupa e olhando para ele o tempo todo. Sai arrasado, sem arma, e para sob o portão perguntando-se por que supôs que ela estaria fora. Então vê algo brilhar debaixo do banco do zelador, que não está, e é um machado, que ele prende na alça e leva consigo. O achado o anima, e ele o atribui ao diabo, não à razão.
Не рассудок, так бес!, Se não foi a razão, foi o diabo!
No capítulo VII da Primeira Parte o machado faz o que a alça foi feita para permitir. Quando a velha se vira para a janela, de costas, para desatar o laço difícil do falso penhor, ele solta o machado da alça e baixa o lado cego sobre a cabeça dela, quase sem esforço. A força só lhe vem depois desse primeiro golpe, e com ela dá mais dois, ainda com o dorso, até matá-la.
Он вынул топор совсем, взмахнул его обеими руками, едва себя чувствуя, и почти без усилия, почти машинально, опустил на голову обухом, Tirou o machado por inteiro, ergueu-o com as duas mãos, mal sentindo a si mesmo, e, quase sem esforço, quase mecanicamente, baixou-o sobre a cabeça, com o lado cego.
Ainda no capítulo VII da Primeira Parte, com Lisavieta Ivánovna, o machado muda de lado. Ela voltou antes da hora e vê a irmã morta; ele se lança sobre ela com o machado erguido, e o golpe cai com a lâmina e abre a testa até o alto do crânio. A penhorista, que o plano previa, morre pelo dorso; Lisavieta, que o plano não previa, morre pelo fio.
Она только чуть-чуть приподняла свою свободную левую руку, далеко не до лица, и медленно протянула ее к нему вперед, как бы отстраняя его., Ela apenas ergueu um pouquinho o braço esquerdo, que estava desocupado, longe de chegar ao rosto, e o estendeu devagar na direção dele, como que o afastando.
Ainda no capítulo VII da Primeira Parte, ele lava as mãos e o machado no balde da cozinha. Quando os visitantes batem à porta presa por dentro, fica de pé com o machado apertado na mão, pronto para brigar se entrarem. Foge sem ser visto e devolve o machado ao banco do zelador, sob os lenhos onde estava.
No capítulo I da Segunda Parte, na manhã seguinte, ele rasga o laço que costurara sob a axila para o machado e acha sangue no forro do bolso e na meia. O que mais o apavora é ter esquecido o laço e as manchas, sinal de que a memória e o juízo o abandonam.
No capítulo VI da Segunda Parte, diante de Zamiótov, a palavra terrível que ele quase deixa sair lembra o instante em que, atrás da porta do apartamento da velha, com o machado pulando na mão, teve vontade de gritar aos que batiam. O objeto já voltou ao banco, e o que volta é a lembrança do corpo.
Страшное слово, как тогдашний запор в дверях, так и прыгало на его губах: вот-вот сорвется; вот-вот только спустить его, вот-вот только выговорить!, a palavra terrível, como o ferrolho da porta naquele dia, não parava de pular em seus lábios: já ia escapar, era só soltá-la, era só pronunciá-la!
No capítulo V da Terceira Parte o machado volta como piada. Quando Porfiri Pietróvitch pergunta quem, na Rússia de hoje, não se julga um Napoleão, Zamiótov pergunta do canto se algum futuro Napoleão não despachou a machadadas, na semana anterior, a velha Aliena Ivánovna. Raskólnikov não responde e fixa o olhar em Porfiri.
Уж не Наполеон ли какой будущий и нашу Алену Ивановну на прошлой неделе топором укокошил?, Será que algum futuro Napoleão não despachou também a nossa Aliena Ivánovna a machadadas, semana passada?
No capítulo VI da Terceira Parte ele se acusa de ter pegado o machado conhecendo-se: devia ter sabido que não aguentaria. Adormecido, sonha o crime outra vez, tira o machado da alça e bate duas vezes na velha, que não se mexe, e a cada golpe o riso e o cochicho que vêm do quarto crescem.
старушонка сидела и смеялась, — так и заливалась тихим, неслышным смехом, из всех сил крепясь, чтоб он ее не услышал., a velhota estava ali sentada, rindo, desfeita num riso baixo, inaudível, e se continha com todas as forças para que ele não a ouvisse.
No capítulo V da Quarta Parte a imagem do dorso volta sem o objeto. Para zombar do método do juiz de instrução, Raskólnikov descreve o interrogatório como um sono de assuntos distantes que termina em atordoar o acusado, de repente, no alto da cabeça, com a pergunta mais perigosa. Porfiri Pietróvitch aceita a imagem e a completa: o golpe, diz, vem de dorso, como o próprio Raskólnikov teria dito, embora a palavra dorso não tenha saído da boca dele. O alto da cabeça é onde o golpe caiu em Aliena Ivánovna, no capítulo VII da Primeira Parte. No russo, o verbo que Raskólnikov usa para atordoar é o mesmo que o sonho da égua usa para a pancada de Mikolka com a barra de ferro.
No capítulo VI da Quarta Parte a primeira coisa que o falso confessor nomeia é o machado. Nikolai diz que matou Aliena Ivánovna e Lisavieta com um machado, que já havia preparado, e que correu com Mitka para despistar. Porfiri Pietróvitch o corta, furioso, porque as respostas são ensaiadas.
Ну, так и есть! — злобно вскрикнул Порфирий, — не свои слова говорит!, Pois é, como eu pensava, exclamou Porfiri com raiva: ele não diz palavras dele!
No capítulo IV da Quinta Parte, ao sentar na cama de Sófia Semeónovna Marmieládova para confessar, Raskólnikov sente o mesmo que sentiu atrás da velha, com o machado já solto da alça. Quando Sônia olha para ele, o rosto dela lhe devolve o de Lisavieta no momento em que ele se aproximava com o machado, a mão estendida e o susto de criança, e o terror passa de um para o outro.
No capítulo V da Sexta Parte o machado entra na boca de Arkadi Ivánovitch Svidrigáilov, que repete a Avdótia Românovna Raskólnikova a confissão que ouviu atrás da porta: o crime, as duas vítimas mortas com o machado que ele levara, o dinheiro escondido sob uma pedra.
No capítulo VIII da Sexta Parte, na delegacia, a palavra volta à boca de Raskólnikov na confissão formal: ele diz a Iliá Pietróvitch que matou a velha e Lisavieta com um machado e roubou.
Это я убил тогда старуху-чиновницу и сестру ее Лизавету топором и ограбил., Fui eu que matei, naquela ocasião, a velha mulher de funcionário e a irmã dela, Lisavieta, com um machado, e roubei.
No capítulo II do Epílogo, na prisão, os condenados, que fizeram coisas piores, riem do crime dele e lhe dizem que andar por aí com machado não é coisa de senhor.
Ты барин! - говорили ему. - Тебе ли было с топором ходить; не барское вовсе дело., Você é um senhor! diziam-lhe. Era para você andar por aí com machado? Isso não é nada coisa de senhor.
O que significa
No livro, o machado é o ponto onde o plano e o acaso se encostam. A alça, a escolha da arma, o falso penhor e a descida à cozinha são plano; o achado debaixo do banco é acaso, e Raskólnikov o toma por sinal, porque resolve justo o que o plano deixara aberto. O uso se divide do mesmo modo, em dorso e fio: o dorso, que o golpe quase mecânico contra Aliena Ivánovna aproveita no capítulo VII da Primeira Parte, e o fio, que atinge Lisavieta sem que ele a tivesse previsto. Depois do crime o objeto volta ao banco e não reaparece como coisa, e o que o livro guarda são os usos da palavra: a imagem do interrogatório, a piada, a confissão com a arma nomeada, o desdém dos presos.
O machado é a única peça do plano que Raskólnikov não escolheu: ele costurou a alça, preparou o falso penhor e calculou o horário, e a arma lhe veio de um banco sem dono. Duas leituras se sustentam. Na primeira, o acaso só confirma o que já estava decidido, porque a alça, o canivete recusado e a cozinha são anteriores ao achado do capítulo VI da Primeira Parte. Na segunda, o acaso decide: sem o banco do zelador o plano ficava sem arma, e Raskólnikov, que acabava de falhar na cozinha, ficava sem o sinal de que precisava para continuar.
Relações
- Temas-padrão: Culpa, Razão.
- Temas da obra: Culpa, Razão.
- Personagens: Rodion Românovitch Raskólnikov, Lisavieta Ivánovna, Sófia Semeónovna Marmieládova, Arkadi Ivánovitch Svidrigáilov, Porfiri Pietróvitch, Avdótia Românovna Raskólnikova.
- Símbolos vizinhos: o sonho da égua, onde a palavra aparece antes do objeto e o verbo da pancada se repete, e as cruzes, cujo cordão Raskólnikov corta com este mesmo machado.