Clavis Libri

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O cubículo

O que é

O quarto de Rodion Românovitch Raskólnikov no alto de um prédio de cinco andares, que o narrador compara a um armário na abertura do livro e que a mãe dele chama de caixão. É pequeno e baixo, de papel amarelo descolando, com um sofá que ocupa metade da largura, e é onde o plano amadureceu, de onde ele sai para o crime e para onde volta sem conseguir ficar. Em contraste, o livro põe outros espaços: o quarto de passagem dos Marmieládov, o quarto de Sófia Semeónovna Marmieládova, o quartinho de hotel de Arkadi Ivánovitch Svidrigáilov, a caserna da Sibéria e, no outro extremo, a margem do rio.

Onde aparece

No capítulo I da Primeira Parte, na abertura do livro, o narrador diz que o quartinho fica logo sob o telhado de uma casa de cinco andares e parece mais um armário que um aposento. Raskólnikov desce a escada às pressas para não cruzar com a senhoria.

No capítulo II da Primeira Parte, o quarto da família de Semion Zakhárovitch Marmieládov não é um canto, é a passagem entre os cômodos de uma pensão barulhenta, e as crianças tremem num canto enquanto Catierina Ivánovna Marmieládova arrasta o marido pelos cabelos.

No capítulo III da Primeira Parte, ao acordar, Raskólnikov olha com ódio o quarto: seis passos de comprimento, papel amarelo e empoeirado soltando-se da parede, teto tão baixo que um homem alto sente que vai bater a cabeça. O sofá, rasgado, ocupa quase uma parede e serve de cama. O narrador diz que ele se retirou de todos como uma tartaruga na carapaça. Depois de ler a carta da mãe, o ar lhe falta, o quarto lhe parece um armário ou um baú, e o russo diz que o olhar e o pensamento pedem espaço.

No capítulo V da Primeira Parte, depois do sonho e da renúncia, ele não quer voltar ao quarto, onde o plano amadureceu. O russo o chama de armário horrível e diz que ali, naquele canto, a ideia crescera por mais de um mês.

No capítulo III da Segunda Parte, na febre, Dmitri Prokófitch Razumíkhin entra no quarto batendo a testa no teto baixo.

No capítulo IV da Segunda Parte, ao ouvir de Nastácia que Lisavieta Ivánovna também foi morta, Raskólnikov se vira para a parede e fixa uma flor desajeitada do papel amarelo e sujo, contando folhas e riscos.

Раскольников оборотился к стене, где на грязных желтых обоях с белыми цветочками выбрал один неуклюжий белый цветок, с какими-то коричневыми черточками, и стал рассматривать: сколько в нем листиков, какие на листиках зазубринки и сколько черточек?, Raskólnikov virou-se para a parede, onde, no papel amarelo e sujo de florezinhas brancas, escolheu uma flor branca desajeitada, com uns tracinhos marrons, e pôs-se a examiná-la: quantas folhinhas tinha, que dentes havia nas folhinhas e quantos eram os tracinhos?
Segunda Parte: O inquérito

No capítulo V da Segunda Parte, Piotr Pietróvitch Lújin olha o quarto como uma cabine de navio, apertada e baixa, e sai curvando-se para passar pela porta baixa.

No capítulo VI da Segunda Parte, no apartamento da velha, agora em reforma, os operários trocaram o papel amarelo por papel branco de flores lilás, e Raskólnikov sente uma aversão que não sabe explicar. O papel que saiu era amarelo como o do quarto dele.

No capítulo III da Terceira Parte, a mãe, Pulkhéria Alieksándrovna Raskólnikova, ao romper o silêncio pesado da visita, diz a Rodia que o quarto dele é ruim e parece um caixão.

No capítulo IV da Terceira Parte, quando Sófia Semeónovna Marmieládova olha o quarto, Raskólnikov comenta que a mãe também dissera que parecia um caixão, e ela deixa escapar o que viu: ele lhes dera tudo no dia anterior.

Вы нам все вчера отдали!, O senhor nos deu tudo ontem!
Terceira Parte: A teoria

No capítulo I da Quarta Parte, Arkadi Ivánovitch Svidrigáilov imagina a eternidade como um único quartinho, como uma casa de banho de aldeia, esfumaçado, com aranhas em todos os cantos, e Raskólnikov sente um frio ao ouvi-lo.

вместо всего этого, представьте себе, будет там одна комнатка, эдак вроде деревенской бани, закоптелая, а по всем углам пауки, и вот и вся вечность., em vez de tudo isso, imagine só, haverá lá um quartinho só, algo como uma casa de banho de aldeia, negra de fuligem, com aranhas em todos os cantos, e pronto: essa é a eternidade inteira.
Quarta Parte: O cerco

No capítulo IV da Quarta Parte, o quarto de Sônia é grande, mas baixíssimo, com ar de galpão, um quadrilátero irregular que uma parede de três janelas sobre o canal corta na diagonal, e com portas sempre trancadas para outros apartamentos. Atrás de uma delas Svidrigáilov ouvirá a conversa inteira. É o mais próximo do quarto de Raskólnikov que o livro mostra.

Что ж бы я без бога-то была?, E o que eu seria sem Deus?
Quarta Parte: O cerco

No capítulo IV da Quinta Parte, ao explicar a Sônia como chegou ao crime, Raskólnikov diz que se fechou no canto dele como uma aranha, que tetos baixos e quartos apertados esmagam a alma e o espírito, e que odiava aquela toca.

No capítulo V da Quinta Parte, depois da confissão, ele entra no quarto, olha a poeira e a janela e nunca se sentira tão só.

Никогда, никогда еще не чувствовал он себя так ужасно одиноким!, Nunca, nunca ainda se sentira tão terrivelmente sozinho!
Quinta Parte: A confissão

No capítulo I da Sexta Parte, nos dias de névoa depois da morte de Catierina Ivánovna Marmieládova, o russo repete, para o estado dele, a palavra de aperto que usou para o quarto: desde a cena de Mikolka na sala de Porfiri Pietróvitch ele passou a sufocar sem saída, em aperto, já fora do quarto.

No capítulo VI da Sexta Parte, Arkadi Ivánovitch Svidrigáilov aluga na última noite um quartinho sob a escada de um hotel de madeira, tão pequeno que quase não é do tamanho dele, com papel amarelo rasgado e um teto cortado na diagonal pela escada, e com uma parede fina que deixa ouvir os vizinhos. Pensa que se tornou exigente com o lugar para um fim assim.

No capítulo I do Epílogo, pelas cartas de Sônia, a caserna da prisão é comum a todos e, ela supõe, apertada, feia e insalubre, e ele dorme num estrado sobre um feltro, sem querer arranjar nada melhor.

No capítulo II do Epílogo, sentado nas toras à beira do rio, Raskólnikov olha a margem larga e deserta e, do outro lado, as iurtas dos nômades, onde parece haver liberdade e outra gente, como se o tempo tivesse parado nos séculos de Abraão. É ali, a céu aberto, que Sônia o alcança.

Их воскресила любовь, сердце одного заключало бесконечные источники жизни для сердца другого, O amor os ressuscitou: o coração de um encerrava fontes infinitas de vida para o coração do outro.
Epílogo: A ressurreição

O que significa

O quarto faz duas coisas no livro. É o lugar onde a ideia cresce sem testemunha, porque o plano amadureceu ali e é dali que ele sai para o crime, e é também o primeiro castigo, um espaço pequeno demais para o que ele pensa de si. O que se opõe a ele no resto do livro são lugares com outra pessoa dentro: o quarto de Sônia, de teto igualmente baixo, a caserna comum e a margem do rio, onde há espaço e há Sônia. Os quartos que lhe correspondem do lado de Svidrigáilov, a eternidade de aranhas e o hotel da última noite, são fechados sem ninguém.

O teto baixo não muda, e o que muda é quem está no quarto. No de Sônia, de teto baixo e canto agudo, acontece a leitura de Lázaro no capítulo IV da Quarta Parte; no de Svidrigáilov, sob a escada, há um homem que se mata de manhã; no de Raskólnikov, o armário da abertura do livro, no capítulo I da Primeira Parte, é o lugar de onde ele sai para o crime e para onde volta sem poder ficar. Duas leituras do aperto. Numa, ele é causa: Raskólnikov diz a Sônia, no capítulo IV da Quinta Parte, que tetos baixos e quartos apertados esmagam a alma, e o quarto produz a teoria. Na outra, é consequência: ele já se retirara de todos como uma tartaruga na carapaça, no capítulo III da Primeira Parte, antes de o quarto o esmagar.

Relações