O que é
O sonho de febre de Rodion Românovitch Raskólnikov no hospital da prisão, na Sibéria, contado no capítulo II do Epílogo, no fim da Quaresma e na semana da Páscoa: o mundo inteiro condenado a uma peste nunca vista, vinda do fundo da Ásia para a Europa, causada por novas triquinas, seres microscópicos que são espíritos dotados de inteligência e vontade. Quem os recebe enlouquece e se julga mais inteligente e mais firme na verdade do que nunca. Ninguém concorda com ninguém sobre o bem e o mal, os povos se matam, e só se salvam poucos escolhidos puros, que ninguém vê nem ouve.
Onde aparece
O sonho só aparece no capítulo II do Epílogo, mas leva ao limite, em escala de mundo, o que as partes anteriores armam em escala de uma pessoa.
No capítulo V da Segunda Parte, Piotr Pietróvitch Lújin expõe na sala de Raskólnikov a doutrina de que o interesse pessoal funda tudo: ama primeiro a ti mesmo, e quanto mais cafetãs inteiros, mais firme a sociedade. Raskólnikov responde que, levada às últimas consequências, ela autoriza passar gente na faca.
Наука же говорит: возлюби, прежде всех, одного себя, ибо все на свете на личном интересе основано, a ciência, por sua vez, diz: ama, antes de todos, só a ti mesmo, pois tudo no mundo se funda no interesse pessoal.
No capítulo V da Terceira Parte, na casa de Porfiri Pietróvitch, o juiz resume o artigo de Raskólnikov: as pessoas se dividem em ordinários, que vivem em obediência e não têm o direito de transgredir a lei, e extraordinários, que o têm.
Все дело в том, что в ихней статье все люди как-то разделяются на «обыкновенных» и «необыкновенных». Обыкновенные должны жить в послушании и не имеют права переступать закона, потому что они, видите ли, обыкновенные. А необыкновенные имеют право делать всякие преступления и всячески преступать закон, собственно потому, что они необыкновенные., A coisa toda é que, no artigo do senhor, as pessoas se dividem de certa forma em ordinários e extraordinários. Os ordinários têm de viver obedecendo e não têm direito de transgredir a lei, pois são, veja só, ordinários. Já os extraordinários têm o direito de cometer todo tipo de crime e de transgredir a lei como quiserem, justamente por serem extraordinários.
Ainda no capítulo V da Terceira Parte, Raskólnikov reconhece o resumo e fecha o núcleo da doutrina com os dois grupos de homens, o senhor do presente e o senhor do futuro.
Первый разряд всегда — господин настоящего, второй разряд — господин будущего. Первые сохраняют мир и приумножают его численно; вторые двигают мир и ведут его к цели., O primeiro grupo é sempre senhor do presente, o segundo, senhor do futuro. Os primeiros preservam o mundo e o fazem crescer em número; os segundos põem o mundo em marcha e o levam à meta.
No capítulo VI da Terceira Parte, depois de ser chamado de assassino na rua, Raskólnikov delira sozinho: imagina o profeta de sabre que manda sem explicar, se identifica com ele e diz que matou um princípio, não uma pessoa. A ordem que imagina é dirigida à criatura trêmula, a categoria em que se descobre.
Повинуйся, дрожащая тварь, и — не желай, потому — не твое это дело!.., Obedeça, criatura trêmula, e não deseje, pois isso não é da sua conta!..
No capítulo IV da Quinta Parte, diante de Sófia Semeónovna Marmieládova, ele descarta uma a uma as razões, o dinheiro, a mãe, a humanidade, Napoleão, e fica com uma formulação que não tem fim fora dele: matou para si, para si somente.
Я просто убил; для себя убил, для себя одного, Eu simplesmente matei; matei para mim, para mim somente.
No capítulo V da Sexta Parte, Arkadi Ivánovitch Svidrigáilov resume a teoria a Avdótia Românovna Raskólnikova como uma teoriazinha do rapaz, na qual as pessoas se dividem em material e gente especial, para quem a lei não está escrita e que compõe as leis para os demais, e a despacha como uma teoria como qualquer outra.
Тут была тоже одна собственная теорийка, [...] по которой люди разделяются, [...] на материал и на особенных людей, то есть на таких людей, для которых, [...] закон не писан а, напротив, которые сами сочиняют законы остальным людям, материалу-то, сору-то. Ничего, так себе теорийка; une theorie comme une autre, Havia também uma teoriazinha dele mesmo, [...] segundo a qual as pessoas se dividem [...] em material e em gente especial, isto é, em pessoas para as quais, [...] a lei não está escrita e que, ao contrário, elas próprias compõem as leis para as demais, para o material, para o refugo. Nada mal, uma teoriazinha qualquer; uma teoria como qualquer outra.
No capítulo VII da Sexta Parte, quando Avdótia Românovna Raskólnikova diz que quem vai ao sofrimento lava metade do crime, Raskólnikov explode: a velha era um piolho que não servia a ninguém, e ele não pensa em lavar o que não vê como crime.
то, что я убил гадкую, зловредную вошь, старушонку процентщицу, никому не нужную, которую убить сорок грехов простят, которая из бедных сок высасывала, и это-то преступление? Не думаю я о нем и смывать его не думаю., que eu matei um piolho asqueroso e nocivo, uma velhota agiota que não serve a ninguém, por cuja morte se perdoam quarenta pecados, que sugava a seiva dos pobres, e isso é que é crime? Não penso nele e não penso em lavá-lo.
No capítulo II do Epílogo, já na prisão, ele retoma a teoria: o pensamento dele não foi mais tolo do que os que enxameiam o mundo, e os benfeitores da humanidade que tomaram o poder deveriam ter sido executados nos primeiros passos, mas suportaram os passos e por isso têm razão. Ele não suportou. Reconhece culpa em não ter suportado o crime e em ter se entregado, e não se arrepende do assassinato.
Ainda no capítulo II do Epílogo, já convalescente no hospital, onde passou o fim da Quaresma e a semana da Páscoa, ele lembra os sonhos da febre: o mundo condenado a uma peste nunca vista, vinda das profundezas da Ásia para a Europa. Novas triquinas, seres microscópicos que são espíritos dotados de inteligência e vontade, entram nos corpos, e quem as recebe enlouquece. Povos inteiros adoecem, ninguém se entende, ninguém sabe quem julgar nem o que chamar de bem e de mal; matam-se numa raiva sem sentido, exércitos se devoram em marcha, os ofícios param, vêm o fogo e a fome. Só poucos puros e escolhidos podem se salvar, destinados a começar uma nova gente e uma nova vida, mas ninguém os viu nem ouviu a voz deles.
всякий думал, что в нем в одном и заключается истина, cada qual achava que a verdade se encerrava nele, e só nele.
Ainda no capítulo II do Epílogo, o que atormenta Raskólnikov é a lembrança do delírio, que demora a passar: o russo diz que o incomodava que aquele delírio sem sentido ecoasse tão triste e tão penosamente na memória. Em seguida ele aparece à janela da enfermaria, vendo Sônia parada no portão do hospital.
O que significa
O sonho dá escala de mundo ao que o artigo de Raskólnikov dizia de poucos. Na teoria do capítulo V da Terceira Parte, só os extraordinários têm o direito de transpor a lei e os ordinários vivem em obediência. Na peste, todos se julgam extraordinários: cada um tem por inabaláveis os seus juízos, as suas conclusões científicas, as suas convicções morais, e o resultado é que ninguém obedece, ninguém se entende e ninguém sabe quem julgar. Os únicos que escapam são puros e escolhidos que o sonho não deixa ninguém ver nem ouvir.
A teoria é refutada pelo sonho da única maneira que ela não previa: pela generalização. Se o direito é de todos, não há ordinários para obedecer, e o que o artigo prometia como motor do futuro vira guerra de convicções, como a campanha de Napoleão em que Raskólnikov pensa no capítulo VI da Terceira Parte, agora feita por todos ao mesmo tempo. Duas leituras do sonho. Numa, é o julgamento do narrador sobre a teoria, que o próprio Raskólnikov não tem como fazer, porque na prisão ainda sustenta que não se arrepende do crime. Na outra, é a primeira vez em que ele a vê de fora, e por isso a lembrança o atormenta mais do que a doença.
Relações
- Temas-padrão: Razão, Orgulho, Redenção.
- Temas da obra: Razão, Orgulho.
- Personagens: Rodion Românovitch Raskólnikov, Sófia Semeónovna Marmieládova, Porfiri Pietróvitch, Piotr Pietróvitch Lújin, Arkadi Ivánovitch Svidrigáilov, Avdótia Românovna Raskólnikova.
- Símbolos vizinhos: a ressurreição de Lázaro, o Evangelho que fica fechado depois do sonho, e o sonho da égua, o outro sonho de Raskólnikov com uma multidão, o primeiro do livro.