Clavis Libri

Tema em Inferno

Conhecimento e sabedoria

Saber e não saber: conhecimento, sabedoria, ignorância, curiosidade, educação, filosofia.

O tema na obra

No Inferno o saber é guia, pena e risco. Guia, porque a viagem de Dante só se faz por um mestre que sabe o caminho e explica o que ele vê. Pena, porque quase todo condenado perde alguma forma de conhecer: os hereges veem o que vem de longe e perdem o presente, os adivinhos andam de costas por terem querido ver demais adiante, o gigante Nemrod fala uma língua que ninguém entende. Risco, porque o poema coloca no ponto mais alto do desejo de saber, o de Ulisses, a ameaça do mar que se fecha.

O ponto de partida está no Limbo. No canto IV do Inferno, Dante é recebido pelos grandes poetas e pelos filósofos, e vê no alto de um lugar luminoso o mestre dos que sabem, sentado entre a família filosófica, que o verso nomeia pelo papel e não pelo nome:

maestro di color che sanno / seder tra filosofica famiglia, o mestre dos que sabem sentado entre a família filosófica.
Cantos I a IV: A selva e a porta

O poema faz do saber antigo a casa de Virgílio e, ao mesmo tempo, mostra que ela não basta: a casa é no Limbo. É também com esse saber que Virgílio ordena o abismo no canto XI do Inferno, lembrando a Dante a Ética de Aristóteles, e é nele que o peregrino reconhece o próprio estudo, quando o guia o manda voltar à sua ciência. Ao mesmo tempo, o mestre é barrado nas portas de Dite, é enganado por um demônio e se cala sobre o lugar dos hereges no seu próprio mapa, e o leitor aprende que o saber de Virgílio tem buracos.

Lo duca stette un poco a testa china; / poi disse: «Mal contava la bisogna / colui che i peccator di qua uncina». / E ’l frate: «Io udi’ già dire a Bologna / del diavol vizi assai, tra ’ quali udi’ / ch’elli è bugiardo, e padre di menzogna», o guia ficou um pouco de cabeça baixa; depois disse: mal contava o caso aquele que de lá cravava os pecadores. E o frade: ouvi dizer em Bolonha muitos vícios do diabo, entre os quais que é mentiroso e pai da mentira.
Cantos XXIII a XXVI: Hipócritas, ladrões e Ulisses

A pena do saber é mais clara no canto X do Inferno, onde Farinata explica que os condenados veem as coisas distantes e perdem o presente, e que, quando a porta do futuro se fechar, toda a ciência deles morre:

Noi veggiam, come quei c’ha mala luce, / le cose», disse, «che ne son lontano; / cotanto ancor ne splende il sommo duce. / Quando s’appressano o son, tutto è vano / nostro intelletto; e s’altri non ci apporta, / nulla sapem di vostro stato umano., vemos, como quem enxerga mal, as coisas que estão longe de nós, disse; tanto ainda nos ilumina o sumo guia. Quando se aproximam ou são, é vão todo o nosso intelecto, e se outros não no-lo trazem nada sabemos do vosso estado humano.
Cantos IX a XII: A cidade de Dite

No canto XX do Inferno, Virgílio põe a mesma ideia em outro castigo, o dos adivinhos de rosto torcido:

Mira c’ha fatto petto de le spalle; / perché volle veder troppo davante, / di retro guarda e fa retroso calle., olha como fez peito das costas; porque quis ver longe demais adiante, olha para trás e anda para trás.
Cantos XVIII a XXII: As cinco primeiras valas

O limite do saber humano chega ao centro no canto XXVI do Inferno. Ulisses diz que nem filho, nem pai, nem mulher puderam vencer o ardor de conhecer o mundo, os vícios dos homens e o valor, e o canto não decide se a viagem foi pecado, castigo ou as duas coisas. Dante o prepara dizendo que freia o engenho para que não corra sem que a virtude o guie.

né dolcezza di figlio, né la pieta / del vecchio padre, né ’l debito amore / lo qual dovea Penelopè far lieta, / vincer potero dentro a me l’ardore / ch’i’ ebbi a divenir del mondo esperto / e de li vizi umani e del valore, nem a doçura de um filho, nem a piedade pelo velho pai, nem o amor devido que devia alegrar Penélope, puderam vencer dentro de mim o ardor que tive de me tornar conhecedor do mundo, dos vícios humanos e do valor.
Cantos XXIII a XXVI: Hipócritas, ladrões e Ulisses

O tema se fecha com o poeta de volta diante do leitor, no canto XXXIV do Inferno, quando Dante diz não saber descrever o que sentiu diante de Lúcifer e manda o leitor imaginar, se tem flor de engenho: o poema entrega, no ponto de maior silêncio, a parte do saber que cabe a quem lê.

Quem o encarna

Virgílio é o saber que guia e que ensina, e que o texto mostra falho no que ainda não podia saber. Ulisses é o saber como paixão, a experiência do mundo desabitado atrás do sol. Farinata degli Uberti é a ciência que vê longe e perde o presente, e é dele a regra que explica a cena de Cavalcante.

Onde aparece

  • canto IV: Dante vê no Limbo o mestre dos que sabem, sentado entre a família filosófica, e Sócrates e Platão mais perto dele que os outros.
  • canto IX: O poeta interrompe a cena da Medusa para mandar os de intelecto são olharem a doutrina que se esconde sob o véu dos versos estranhos.
  • canto X: Farinata explica que os condenados veem o que vem de longe e perdem o presente, e que sua ciência morre quando o futuro se fechar.
  • canto XI: Virgílio remete Dante à Ética de Aristóteles para provar que a incontinência ofende menos a Deus que a malícia.
  • canto XX: Virgílio mostra Anfiarau e os adivinhos de rosto torcido, que perderam o ver adiante por terem querido ver demais.
  • canto XXIII: Um frade de Bolonha desmente Malacoda sobre a ponte quebrada, lembrando que o diabo é pai da mentira, e o mestre segue turbado de ira.
  • canto XXV: Dante desafia Lucano e Ovídio a calar diante das metamorfoses que ele agora conta, e avisa o leitor de que mal admite o que viu.
  • canto XXVI: Dante freia o engenho para que não corra sem virtude, e Ulisses fala do ardor de conhecer o mundo, os vícios dos homens e o valor.
  • canto XXXI: O poeta diz que, onde o instrumento da mente se junta à má vontade e à força, a gente não tem defesa, e o gigante é a prova disso.
  • canto XXXIV: Dante diz que não sabe descrever o que sentiu diante de Lúcifer e manda o leitor imaginar, se tem flor de engenho.

Onde as leituras divergem

O saber de Ulisses aguenta duas leituras: um discurso nobre, que chama os homens ao que são, ou um conselho que leva os ouvintes à morte. O poema dá ao condenado o discurso mais admirado do Inferno e o põe no fogo que esconde, e o mesmo traço, a inteligência a serviço de alguma coisa, aparece no canto XXXI do Inferno como o que torna o gigante terrível. O Inferno sustenta as duas: o conhecimento é o que o homem tem de mais próprio, e é também o que, mal medido, o perde.

O saber do poema não é o de quem sabe tudo, é o de quem sabe onde o conhecimento termina. Virgílio, Farinata e Ulisses saem do canto cada um com o limite à vista, e o peregrino aprende a medir o próprio engenho.