Clavis Libri

Símbolo

A corda e Gerião

O que é

Perto da queda de água que desce ao círculo seguinte, Dante lembra um objeto que traz cingido em volta do corpo: uma corda, com a qual pensou algum dia prender a onça de pele pintada do primeiro canto. Virgílio manda tirá-la, Dante a solta enrolada como o mestre mandou, e Virgílio a joga pelo lado direito no fundo do despenhadeiro, sem explicar. O sinal tem resposta: de baixo sobe, nadando pelo ar grosso e escuro como quem volta de soltar a âncora presa no fundo, Gerião, a imagem suja da fraude, de face de homem justo, tão benigna tinha por fora a pele, e o resto do corpo de serpente, com duas patas peludas, o dorso e os flancos pintados de nós e de rodelas, e uma cauda que torce no vazio uma ponta de escorpião.

Onde aparece

No canto XVI do Inferno, o narrador diz da corda, e só dela:

Io avea una corda intorno cinta, / e con essa pensai alcuna volta / prender la lonza a la pelle dipinta., eu tinha uma corda cingida em volta, e com ela pensei alguma vez prender a onça de pele pintada.
Cantos XIII a XVII: Os violentos

Antes de contar o que a corda faz surgir, jura ao leitor pelas notas da comédia: há verdade com cara de mentira que o homem deve calar enquanto puder, mas aqui não pode.

Sempre a quel ver c’ha faccia di menzogna / de’ l’uom chiuder le labbra fin ch’el puote, / però che sanza colpa fa vergogna; / ma qui tacer nol posso; e per le note / di questa comedìa, lettor, ti giuro, a essa verdade que tem cara de mentira o homem deve fechar os lábios enquanto puder, porque sem culpa dá vergonha; mas aqui não posso calar; e pelas notas desta comédia, leitor, te juro.
Cantos XIII a XVII: Os violentos

No canto XVII do Inferno Virgílio acena à fera que venha à margem, e o poema a descreve pelo rosto antes do resto:

La faccia sua era faccia d’uom giusto, / tanto benigna avea di fuor la pelle, / e d’un serpente tutto l’altro fusto, a face dele era face de homem justo, tão benigna tinha por fora a pele, e de serpente todo o resto do corpo.
Cantos XIII a XVII: Os violentos

Dante vai sozinho ver a gente sentada perto, os usurários, que se socorre com as mãos ora dos vapores, ora do solo quente, como cães picados por pulgas e moscas. Não conhece rosto algum, só uma bolsa de certa cor e certo sinal em cada pescoço:

Poi che nel viso a certi li occhi porsi, / ne’ quali ’l doloroso foco casca, / non ne conobbi alcun; ma io m’accorsi / che dal collo a ciascun pendea una tasca / ch’avea certo colore e certo segno, / e quindi par che ’l loro occhio si pasca., depois que pus os olhos no rosto de alguns, nos quais cai o fogo doloroso, não conheci nenhum; mas percebi que do pescoço de cada um pendia uma bolsa de certa cor e de certo sinal, e daí parece que o olhar deles se alimenta.
Cantos XIII a XVII: Os violentos

Ao voltar, encontra Virgílio já montado na garupa da fera, que o manda subir à frente para que a cauda não faça mal. O medo de Dante é o de febre, e o que o faz montar é a vergonha:

Qual è colui che sì presso ha ’l riprezzo / de la quartana, c’ha già l’unghie smorte, / e triema tutto pur guardando ’l rezzo, / tal divenn’ io a le parole porte; / ma vergogna mi fé le sue minacce, / che innanzi a buon segnor fa servo forte., qual é aquele que está tão perto do arrepio da quartã, que já tem as unhas mortas e treme todo só de olhar a sombra, tal fiquei com as palavras que me foram dirigidas; mas a vergonha me fez suas ameaças, que diante de um bom senhor torna forte o servo.
Cantos XIII a XVII: Os violentos

Pensa que maior medo não teve Faetonte, ao largar as rédeas, nem Ícaro, ao sentir as costas sem penas, e a descida termina com Gerião largando os dois ao pé da rocha talhada e sumindo como flecha da corda.

O que significa

Gerião é a fraude como aparência de justiça sobre uma natureza peçonhenta: o poema mostra a face benigna primeiro, o corpo de serpente e a cauda de escorpião depois, e o leitor vê a fera como Dante a vê, o rosto antes do resto. A corda é um sinal que o poema usa e não explica. O que ela faz surgir é a fraude, e isso basta para ler o sinal pela direção da cena: quem joga a corda chama a fera.

O texto sustenta duas leituras da corda. Numa, é o cíngulo da penitência ou de uma virtude que Dante já não carrega, e jogá-lo no abismo é largar o último resto da proteção que trazia da vida. Na outra, é só o sinal de que Virgílio precisa para chamar Gerião. Em qualquer das duas, a descida a Malebolge depende de um objeto de Dante, e é a fraude, não a violência, que leva o peregrino ao oitavo círculo.

Relações