O que é
No segundo giro do sétimo círculo, Dante e Virgílio entram num bosque sem trilha, de folhas escuras, galhos nodosos e retorcidos, em que em vez de frutos há espinhos de veneno e onde fazem ninho as Harpias, que expulsaram os troianos das Estrófades com anúncio de desgraça. Dante ouve lamentos de toda parte e não vê ninguém. É Virgílio quem lhe manda quebrar um raminho de um espinheiro, para que o pensamento se desfaça: o tronco grita, escurece de sangue, e as árvores são almas. A alma que se arranca do próprio corpo, explica o tronco, é mandada por Minos à sétima boca, cai onde a Fortuna a lança, brota como grão de espelta e vira vergôntea e planta silvestre; as Harpias, pastando as folhas, lhe dão dor e janela para a dor.
Onde aparece
Tudo acontece no canto XIII do Inferno. A primeira fala do bosque é uma pergunta sobre piedade, e o poema faz o visitante repetir por engano o ferimento que é a pena:
ricominciò a dir: «Perché mi scerpi? / non hai tu spirto di pietade alcuno? / Uomini fummo, e or siam fatti sterpi: / ben dovrebb’ esser la tua man più pia, / se state fossimo anime di serpi»., recomeçou a dizer: por que me rasgas? Não tens espírito algum de piedade? Homens fomos, e agora somos tocos: a tua mão devia ser mais piedosa, ainda que tivéssemos sido almas de serpentes.
A regra do bosque é dita no fim da explicação do tronco, e aplica à ressurreição o que a pena fez ao ato:
Come l’altre verrem per nostre spoglie, / ma non però ch’alcuna sen rivesta, / ché non è giusto aver ciò ch’om si toglie. / Qui le strascineremo, e per la mesta / selva saranno i nostri corpi appesi, / ciascuno al prun de l’ombra sua molesta», como as outras almas viremos pelos nossos despojos, mas não para que alguma os revista de novo, porque não é justo ter o que se tirou. Aqui os arrastaremos, e pela triste selva serão os nossos corpos pendurados, cada um no espinheiro da sombra que o molesta.
O ruído de dois nus e arranhados, perseguidos por cadelas negras, interrompe a conversa, e o arbusto que as cadelas despedaçam se queixa e conta, sem dar o nome, de que cidade foi:
e se non fosse che ’n sul passo d’Arno / rimane ancor di lui alcuna vista, / que’ cittadin che poi la rifondarno / sovra ’l cener che d’Attila rimase, / avrebber fatto lavorare indarno. / Io fei gibetto a me de le mie case»., e se não fosse que sobre a passagem do Arno resta ainda alguma imagem dele, os cidadãos que depois a refundaram sobre as cinzas que Átila deixou teriam trabalhado em vão. Fiz de minhas casas uma forca para mim.
No começo do canto XIV do Inferno, por amor da pátria, Dante recolhe as folhas espalhadas e as devolve ao tronco, e os dois poetas chegam à charneca seguinte. O tronco que fala, segundo a tradição, é Pier delle Vigne.
O que significa
O bosque é a pena do suicida levada até o fim: quem tirou de si o corpo fica sem ele, e os corpos pendurados nos espinheiros não serão reassumidos na ressurreição, porque não é justo ter o que se tirou. A pena não é um castigo acrescentado ao ato, é a sua consequência exata. A árvore que fala e sangra ao ser ferida dá ao suicida uma voz que só se ouve quando alguém lhe quebra um ramo.
O episódio é construído de modo que o peregrino cometa, sem saber, o gesto que dói, e é Virgílio quem o manda. O texto sustenta duas leituras: a lição é sobre a fé, porque o incrível só se aceita pela experiência, como Virgílio diz ao se desculpar, ou é sobre a piedade, porque quem fere sem saber aprende o que é ferir.
Relações
- Temas-padrão: Pecado, Justiça e lei.
- Temas da obra: Pecado, Justiça e lei.
- Personagens: Pier delle Vigne, Dante, Virgílio, Minos.
- Símbolos vizinhos: o gelo do Cocito, a outra paisagem do Inferno que aprisiona a pessoa no lugar onde ela se pôs.