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O bosque dos suicidas

O que é

No segundo giro do sétimo círculo, Dante e Virgílio entram num bosque sem trilha, de folhas escuras, galhos nodosos e retorcidos, em que em vez de frutos há espinhos de veneno e onde fazem ninho as Harpias, que expulsaram os troianos das Estrófades com anúncio de desgraça. Dante ouve lamentos de toda parte e não vê ninguém. É Virgílio quem lhe manda quebrar um raminho de um espinheiro, para que o pensamento se desfaça: o tronco grita, escurece de sangue, e as árvores são almas. A alma que se arranca do próprio corpo, explica o tronco, é mandada por Minos à sétima boca, cai onde a Fortuna a lança, brota como grão de espelta e vira vergôntea e planta silvestre; as Harpias, pastando as folhas, lhe dão dor e janela para a dor.

Onde aparece

Tudo acontece no canto XIII do Inferno. A primeira fala do bosque é uma pergunta sobre piedade, e o poema faz o visitante repetir por engano o ferimento que é a pena:

ricominciò a dir: «Perché mi scerpi? / non hai tu spirto di pietade alcuno? / Uomini fummo, e or siam fatti sterpi: / ben dovrebb’ esser la tua man più pia, / se state fossimo anime di serpi»., recomeçou a dizer: por que me rasgas? Não tens espírito algum de piedade? Homens fomos, e agora somos tocos: a tua mão devia ser mais piedosa, ainda que tivéssemos sido almas de serpentes.
Cantos XIII a XVII: Os violentos

A regra do bosque é dita no fim da explicação do tronco, e aplica à ressurreição o que a pena fez ao ato:

Come l’altre verrem per nostre spoglie, / ma non però ch’alcuna sen rivesta, / ché non è giusto aver ciò ch’om si toglie. / Qui le strascineremo, e per la mesta / selva saranno i nostri corpi appesi, / ciascuno al prun de l’ombra sua molesta», como as outras almas viremos pelos nossos despojos, mas não para que alguma os revista de novo, porque não é justo ter o que se tirou. Aqui os arrastaremos, e pela triste selva serão os nossos corpos pendurados, cada um no espinheiro da sombra que o molesta.
Cantos XIII a XVII: Os violentos

O ruído de dois nus e arranhados, perseguidos por cadelas negras, interrompe a conversa, e o arbusto que as cadelas despedaçam se queixa e conta, sem dar o nome, de que cidade foi:

e se non fosse che ’n sul passo d’Arno / rimane ancor di lui alcuna vista, / que’ cittadin che poi la rifondarno / sovra ’l cener che d’Attila rimase, / avrebber fatto lavorare indarno. / Io fei gibetto a me de le mie case»., e se não fosse que sobre a passagem do Arno resta ainda alguma imagem dele, os cidadãos que depois a refundaram sobre as cinzas que Átila deixou teriam trabalhado em vão. Fiz de minhas casas uma forca para mim.
Cantos XIII a XVII: Os violentos

No começo do canto XIV do Inferno, por amor da pátria, Dante recolhe as folhas espalhadas e as devolve ao tronco, e os dois poetas chegam à charneca seguinte. O tronco que fala, segundo a tradição, é Pier delle Vigne.

O que significa

O bosque é a pena do suicida levada até o fim: quem tirou de si o corpo fica sem ele, e os corpos pendurados nos espinheiros não serão reassumidos na ressurreição, porque não é justo ter o que se tirou. A pena não é um castigo acrescentado ao ato, é a sua consequência exata. A árvore que fala e sangra ao ser ferida dá ao suicida uma voz que só se ouve quando alguém lhe quebra um ramo.

O episódio é construído de modo que o peregrino cometa, sem saber, o gesto que dói, e é Virgílio quem o manda. O texto sustenta duas leituras: a lição é sobre a fé, porque o incrível só se aceita pela experiência, como Virgílio diz ao se desculpar, ou é sobre a piedade, porque quem fere sem saber aprende o que é ferir.

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