Clavis Libri

Símbolo

A selva e as três feras

O que é

No meio do caminho da vida, Dante se vê numa selva escura, porque a via reta se perdeu, e não sabe dizer como entrou: estava tão cheio de sono naquele ponto que abandonou a estrada verdadeira. A selva é selvagem, áspera e forte, e só de pensar nela o medo se renova, tão amarga que pouco mais é a morte. Ao pé de um morro iluminado pelo sol o medo da noite se acalma e Dante sobe, mas três feras lhe barram o caminho: uma onça leve e ligeira, de pelo malhado, que não sai da frente do seu rosto; um leão, de cabeça erguida e fome raivosa; e uma loba magra, carregada de todas as vontades, que lhe tira a esperança de chegar ao alto e o empurra de volta para onde o sol se cala. Nesse recuo aparece Virgílio.

Onde aparece

No canto I do Inferno está a cena inteira. Das três feras, só a loba tem sentido dito por alguém, e é Virgílio quem o diz:

e ha natura sì malvagia e ria, / che mai non empie la bramosa voglia, / e dopo ’l pasto ha più fame che pria, e tem natureza tão má e tão ruim que nunca sacia a vontade ávida, e depois do pasto tem mais fome que antes.
Cantos I a IV: A selva e a porta

No canto II do Inferno, Virgílio dá à dúvida de Dante, que hesita em seguir pelo caminho aberto, o nome do medo que a selva deixou:

l’anima tua è da viltade offesa; / la qual molte fïate l’omo ingombra / sì che d’onrata impresa lo rivolve, / come falso veder bestia quand’ ombra, a tua alma está ferida de covardia, que muitas vezes embaraça o homem a ponto de desviá-lo de honrada empresa, como o falso ver faz a besta quando se assombra.
Cantos I a IV: A selva e a porta

No canto XV do Inferno, ao encontrar Brunetto Latini, Dante conta que se perdeu num vale na vida serena, antes de a idade estar plena, e que ontem de manhã lhe virou as costas, quando Virgílio apareceu para reconduzi-lo. No canto XVI do Inferno, a corda que Dante traz cingida no corpo volta a falar da primeira fera, a onça de pele pintada, que ele pensou prender com ela algum dia.

O que significa

A selva é o lugar de onde o poema parte, e o texto dá dois motivos para estar nela sem escolher entre eles: Dante estava cheio de sono, e não diz mais do que isso. A loba é a única fera cujo sentido o poema fixa, a vontade que nunca se sacia e que depois do pasto tem mais fome que antes. Da onça e do leão ele não diz nada, e as leituras que lhes atribuem pecados vêm da tradição, não dos versos.

O símbolo tem duas leituras no texto. Uma é a de distração sem culpa, porque ninguém o enganou e ele só adormeceu. A outra é a do sono como falha, porque o poema não diz que houve outra causa para ter deixado a via. Em qualquer das duas, a selva só se desfaz quando outro o guia, e o que Virgílio oferece é um caminho mais longo, que passa pelo fundo do Inferno antes de chegar ao alto.

Relações