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A tempestade dos amantes

O que é

No segundo círculo, Dante entra num lugar mudo de toda luz, que muge como o mar em tempestade quando ventos contrários o combatem. É a ventania infernal, que não para nunca: leva os espíritos na sua rapina, voltando-os e batendo neles, e diante da ruína, o ponto em que o vento se quebra, ficam os gritos, o pranto e a blasfêmia contra a virtude divina. O poeta compara as almas aos estorninhos que as asas levam no tempo frio, em bando largo e cheio, e aos grous que cantam seus lamentos em longa fila no ar, e diz que o sopro as leva de cá, de lá, de baixo, de cima, sem esperança de repouso nem sequer de pena menor.

Onde aparece

No canto V do Inferno, depois de Minos, Dante dá com a tempestade e o narrador diz o que ela é, pelo pecado que castiga:

Intesi ch’a così fatto tormento / enno dannati i peccator carnali, / che la ragion sommettono al talento, entendi que a tão grande tormento são condenados os pecadores carnais, que submetem a razão ao desejo.
Cantos V a VIII: Os incontinentes

Quando Francesca da Rimini responde ao chamado de Dante, diz que ouvirão e falarão com ele enquanto o vento, como faz, se calar para eles. É a única pausa da ventania no canto, e é dentro dela que Francesca conta quem foi. No canto VI do Inferno a imagem passa do vento à chuva: no terceiro círculo cai uma chuva eterna, fria e pesada, de granizo grosso, água suja e neve, e a terra que a recebe fede; é debaixo dela que Cérbero esfola os gulosos e que Ciacco se levanta para pedir que Dante o lembre. A mudança de elemento, do ar à lama, acompanha a do pecado: o desejo que leva, no segundo círculo, vira no terceiro o desejo que afunda.

O que significa

A tempestade é a figura da razão submetida ao apetite, como o canto V do Inferno diz com todas as letras: quem foi arrastado em vida por uma paixão sem freio fica arrastado para sempre, sem poder parar nem escolher a direção. A pena repete o pecado de dentro, e a imagem fecha o que a cena de Francesca abre, o amor como força que vem de fora.

O vento que se cala para que Francesca fale é a única indulgência do lugar, e o poema a concede a quem a pede com cortesia. Duas leituras: é o sinal de que a pena respeita a conversa, ou é a prova de que a cortesia não alivia nada, porque o vento volta quando ela termina. O texto sustenta ambas.

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