Clavis Libri

Símbolo

O gelo do Cocito

O que é

O Cocito é o lago de gelo do fundo do Inferno, o último rio da hidrografia infernal. Nele as sombras estão presas até onde aparece a vergonha, lívidas, batendo os dentes como cegonhas, cada uma com o rosto voltado para baixo, e a boca dá testemunho do frio, e os olhos, do coração triste. No canto XXXII do Inferno, Dante não vê água no chão, vê um lago que o gelo faz parecer vidro, e nem o Danúbio na Áustria nem o Don no céu frio teceram no inverno um véu assim. O gelo se divide em zonas que seguem a traição, a Caína, a Antenora, a Tolomea e a Judeca, e as almas passam do rosto voltado para baixo, na Caína e na Antenora, a deitadas de costas, na Tolomea, e, no fim, a cobertas por inteiro, transparentes como palha em vidro. No centro, a metade do peito para cima, está Lúcifer.

Onde aparece

A origem do Cocito é dita no canto XIV do Inferno, na história do velho de Creta, uma estátua de metais cujas rachaduras gotejam lágrimas que juntas furam a gruta e descem formando os rios do Inferno, até o Cocito:

da indi in giuso è tutto ferro eletto, / salvo che ’l destro piede è terra cotta; / e sta ’n su quel, più che ’n su l’altro, eretto. / Ciascuna parte, fuor che l’oro, è rotta / d’una fessura che lagrime goccia, / le quali, accolte, fóran quella grotta., dali para baixo é todo de ferro escolhido, salvo o pé direito, que é de terracota; e se apoia mais nele do que no outro. Cada parte, exceto o ouro, está rachada por uma fenda que goteja lágrimas, as quais, juntadas, furam aquela gruta.
Cantos XIII a XVII: Os violentos

No canto XXXII do Inferno, o poeta confessa que não tem as rimas ásperas e roucas que convêm ao triste buraco sobre o qual se apoiam todas as outras rochas:

S’ïo avessi le rime aspre e chiocce, / come si converrebbe al tristo buco / sovra ’l qual pontan tutte l’altre rocce, / io premerei di mio concetto il suco / più pienamente; ma perch’ io non l’abbo, se eu tivesse as rimas ásperas e roucas, como convém ao triste buraco sobre o qual se apoiam todas as outras rochas, eu espremeria o suco da minha concepção mais plenamente; mas como não as tenho.
Cantos XXXI a XXXIV: O gelo e Lúcifer

No mesmo canto, Bocca recusa a única moeda que os condenados dos cantos anteriores pediam a Dante, a lembrança do nome:

Del contrario ho io brama. / Lèvati quinci e non mi dar più lagna, / ché mal sai lusingar per questa lama, do contrário eu tenho desejo. Some daqui e não me aborreça mais, pois mal sabes lisonjear nesta baixada.
Cantos XXXI a XXXIV: O gelo e Lúcifer

No canto XXXIII do Inferno, o frio impede o choro de sair: as primeiras lágrimas fazem nó e, como viseiras de cristal, enchem toda a concavidade sob a sobrancelha, e a dor, sem saída, se volta para dentro e cresce. Frei Alberigo pede a Dante que lhe tire os véus duros do rosto, e Dante o promete e não o faz. No canto XXXIV do Inferno, o vento de Lúcifer é a causa do gelo:

sì che tre venti si movean da ello: / quindi Cocito tutto s’aggelava. / Con sei occhi piangëa, e per tre menti / gocciava ’l pianto e sanguinosa bava, de modo que três ventos dele se moviam: dali Cocito todo se congelava. Com seis olhos chorava, e por três queixos gotejava o pranto e a baba sanguinolenta.
Cantos XXXI a XXXIV: O gelo e Lúcifer

O que significa

Depois de trinta cantos de fogo, sangue e briga, o fundo do Inferno é frio e termina em silêncio, e a pena é ficar imóvel. O gelo faz da traição a figura inversa do calor das paixões que o Inferno alto pune: aqui o laço que se quebrou é o de sangue, o de pátria, o de hóspedes e o de benfeitores, e quem o quebrou fica preso no lugar onde se pôs. A origem nas lágrimas da estátua dá ao Cocito uma segunda leitura, a de uma dor que a história acumula e que, ao descer, se solidifica.

O gelo explica a pergunta que atravessa a parte final: o que significa pôr no mesmo lago a piedade que Ugolino desperta e a dureza que Dante mostra com Bocca e Alberigo. No frio, a piedade que derrubou o peregrino no canto V do Inferno já não vale como virtude dele, e é o próprio Ugolino quem a cobra de Dante. O texto sustenta ambas as leituras: o gelo é o lugar onde a regra do lugar se impõe a quem passa, ou é onde o poeta deixa o peregrino cair no desprezo do traidor.

Relações