O que é
A porta do Inferno traz no alto uma inscrição em palavras de cor escura, que fala em primeira pessoa: por ela se vai à cidade dolente, à dor eterna, à gente perdida. Dante a lê no canto III do Inferno e diz que o sentido lhe é duro. A inscrição dá a causa de si mesma, justiça que moveu o criador, poder, sabedoria e primeiro amor, afirma que antes dela só havia coisas eternas e que ela perdura eterna, e termina mandando deixar toda esperança. A mesma lógica de porta se repete duas vezes à frente: a porta de Dite, no canto VIII do Inferno, que mais de mil caídos do céu fecham a Virgílio, e a porta aberta com uma varinha por um enviado do alto, no canto IX do Inferno.
Onde aparece
No canto III do Inferno, Dante lê a inscrição e Virgílio responde com um gesto, mais do que com uma explicação: toma-lhe a mão e o introduz com rosto alegre.
Giustizia mosse il mio alto fattore; / fecemi la divina podestate, / la somma sapïenza e ’l primo amore. / Dinanzi a me non fuor cose create / se non etterne, e io etterno duro. / Lasciate ogne speranza, voi ch’intrate, justiça moveu o meu alto criador; fizeram-me a divina potestade, a suma sabedoria e o primeiro amor. Antes de mim não houve coisas criadas, senão eternas, e eu, eterna, perduro. Deixai toda esperança, vós que entrais.
Otto Maria Carpeaux lê, no último verso da inscrição, um dos julgamentos mais graves que já se pronunciaram contra a humanidade, e o cita:
Lasciate ogni speranza, voi Che entrate!
No canto VIII do Inferno, diante da cidade de Dite, o poema nega pela primeira vez a Virgílio o que ele pede: os guardiões das portas não cedem, e ele volta de olhos baixos, dizendo que vencerá a prova.
Li occhi a la terra e le ciglia avea rase / d’ogne baldanza, e dicea ne’ sospiri: / «Chi m’ha negate le dolenti case!». / E a me disse: «Tu, perch’ io m’adiri, / non sbigottir, ch’io vincerò la prova, / qual ch’a la difension dentro s’aggiri, tinha os olhos no chão e as sobrancelhas despidas de toda audácia, e dizia nos suspiros: quem me negou as casas dolentes! E me disse: tu, porque eu me irrite, não te desanimes, que eu vencerei a prova, quem quer que dentro se mova para a defesa.
Virgílio mesmo lembra a Dante, nessa cena, que essa insolência não é nova, porque já a usaram numa porta menos secreta, a que ainda está sem tranca, e sobre ela Dante viu a inscrição morta. No canto IX do Inferno, o anjo que atravessa o Estige abre a porta de Dite com uma varinha e fala aos demônios do alto da soleira.
Che giova ne le fata dar di cozzo? / Cerbero vostro, se ben vi ricorda, / ne porta ancor pelato il mento e ’l gozzo, de que serve dar cabeçadas contra os fados? O vosso Cérbero, se bem vos lembrais, ainda leva por isso o queixo e a goela sem pelo.
O que significa
A porta do canto III do Inferno é a única do poema que fala, e fala como o Inferno se vê a si mesmo: como obra da justiça, do poder, da sabedoria e do primeiro amor, que a leitura corrente associa à Trindade. A inscrição não ameaça, enuncia, e o verso final dirige-se a quem entra. A porta de Dite faz a mesma coisa ao contrário: Virgílio, que atravessou a primeira sem ajuda, não atravessa a segunda sem alguém de cima.
As duas portas medem a autoridade de Virgílio. Na primeira ele responde a uma inscrição com um gesto e basta; na segunda é detido, e o que o faz passar não é mais argumento dele, é um enviado que abre sem resistência. A inscrição morta de que ele fala no canto VIII do Inferno é a prova de que, nas duas, o que sustenta a entrada é a vontade que o poema chama de alto.
Relações
- Temas-padrão: Justiça e lei, Pecado.
- Temas da obra: Justiça e lei, Pecado.
- Personagens: Dante, Virgílio.
- Símbolos vizinhos: Medusa, que acontece logo depois da abertura da porta de Dite.