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Símbolo

Medusa

O que é

Diante da torre de Dite, no canto IX do Inferno, três Fúrias se erguem de repente, de membros de mulher e serpentes verdíssimas no lugar dos cabelos. São as Erínias, as servas da rainha do pranto eterno, e rasgam o peito com as unhas, batem-se e gritam por Medusa, que faria de Dante uma pedra. Lamentam não ter vingado em Teseu o assalto ao reino dos mortos. A Górgona nunca aparece: é só o nome dela, gritado do alto da torre, e a ordem que Virgílio dá ao discípulo para que não a veja.

Onde aparece

Medusa só aparece no canto IX do Inferno, e a cena tem três tempos. Primeiro, a ordem de Virgílio, que dá a razão da ordem, o risco de nunca mais voltar para o alto:

«Volgiti ’n dietro e tien lo viso chiuso; / ché se ’l Gorgón si mostra e tu ’l vedessi, / nulla sarebbe di tornar mai suso». / Così disse ’l maestro; ed elli stessi / mi volse, e non si tenne a le mie mani, / che con le sue ancor non mi chiudessi, vira-te para trás e mantém o rosto fechado, porque, se a Górgona aparecer e tu a vires, não haverá volta para o alto. Assim disse o mestre; e ele mesmo me virou, e não se contentou com as minhas mãos: fechou-me o rosto ainda com as suas.
Cantos IX a XII: A cidade de Dite

Depois, a interrupção do poeta, que rompe a cena no ponto mais carregado para se dirigir a quem lê:

O voi ch’avete li ’ntelletti sani, / mirate la dottrina che s’asconde / sotto ’l velame de li versi strani, ó vós que tendes o entendimento são, olhai a doutrina que se esconde sob o véu dos versos estranhos.
Cantos IX a XII: A cidade de Dite

Otto Maria Carpeaux cita esse mesmo terceto como o aviso do próprio poema de que há um sentido escondido sob o véu dos versos, e o usa para recusar a leitura que reduz a Comédia a sátira:

O voi ch'avete gl'intelletti sani, / Mirate la dottrina che s'asconde / Sotto 'l velame delli versi strani.
Carpeaux, História da Literatura Ocidental

Por fim, a chegada do anjo, que abre a porta de Dite com uma varinha e lembra aos demônios o que custa a resistência já paga, o queixo e a goela ainda pelados de Cérbero:

Che giova ne le fata dar di cozzo? / Cerbero vostro, se ben vi ricorda, / ne porta ancor pelato il mento e ’l gozzo, de que serve dar cabeçadas contra os fados? O vosso Cérbero, se bem vos lembrais, ainda leva por isso o queixo e a goela sem pelo.
Cantos IX a XII: A cidade de Dite

O que significa

Medusa é o perigo de que só se escapa não olhando. A ordem de Virgílio é concreta, a pedra que impediria o retorno, e o gesto de cobrir os olhos do discípulo com as próprias mãos mostra o que a razão humana, que Virgílio representa na leitura corrente, pode fazer: protege até a porta, e o que vem depois não vem dela. A leitura alegórica vê na Medusa a alma que endurece e se fecha à graça.

A interrupção do poeta é a razão de o símbolo estar neste livro. O terceto manda olhar a doutrina sob o véu, e o véu é o episódio recém-contado, as Fúrias, a Medusa, as mãos de Virgílio. Duas leituras convivem: o aviso vale só para esta cena e para a alegoria que ela traz, ou é a chave de leitura do poema inteiro. O que o texto dá é que o aviso vem justamente quando se pede a Dante que feche os olhos.

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