Clavis Libri

Tema em Ilíada

Destino e livre-arbítrio

O quanto a vida de alguém já está decidida, pelos deuses, pela fortuna, pela providência ou pelo acaso, e o quanto depende da escolha dele. Entram profecia, oráculo, sorte, predestinação e a pergunta sobre quem responde pelo que acontece.

O tema na obra

O poema mantém duas causas lado a lado desde o primeiro verso. No Canto I, a ira de Aquiles é a escolha de um homem e, ao mesmo tempo, o desígnio de Zeus que se cumpre, e o canto mostra esse desígnio nascendo no pedido de Tétis e no aceno de cabeça que Zeus não revoga. No Canto II, o Sonho que Zeus manda diz que Agamêmnon poderia tomar a cidade, e o rei transforma o poderia em certeza, sem saber o que Zeus prepara. O poeta mede o risco da debandada com uma palavra que significa além do destino.

Os homens falam do destino como quem o conhece pela metade. No Canto III, Príamo diz que a culpa é dos deuses e que só Zeus sabe a qual dos dois, Páris ou Menelau, a morte está destinada. No Canto VI, Heitor diz a Andrômaca que sabe que Troia cairá e, na mesma cena, que ninguém escapou da sorte depois de nascer. No Canto VII, Heleno lhe garante que ainda não é a sorte dele morrer, e o coração de Heitor bate no peito ao ver Ájax. No Canto IX, Aquiles conta o que a mãe lhe disse: há dois destinos de morte, glória sem volta ou vida longa sem glória.

Zeus pesa e Zeus anuncia. No Canto VIII, ele estende a balança de ouro e põe nos pratos as sortes de morte de troianos e aqueus. No Canto XII, Sarpédon diz a Glauco que as Queres são incontáveis e que, como ninguém as evita, resta dar ou receber glória. No Canto XIII, Eucenor embarca sabendo, pelo adivinho Polído, que morrerá doente em casa ou pelos troianos, e escolhe a segunda. No Canto XV, Zeus conta a Hera a cadeia que falta, a morte de Pátroclo, a de Sarpédon e a de Heitor, e promete não parar até que se cumpra o desejo de Aquiles.

Os deuses têm um poder que o destino limita. No Canto XVI, Zeus quer arrancar Sarpédon da morte marcada, e Hera lhe lembra que os outros deuses não o aprovarão, e ele cede; o narrador diz que Pátroclo cometeu um grande desvario e, na mesma passagem, que Zeus lhe soltou o ânimo no peito. No Canto XIX, Agamêmnon e Aquiles atribuem a briga a Zeus, à Moira e a Atê, e o cavalo Xanto avisa Aquiles de que o dia da ruína está perto, e ele responde que já sabe. No Canto XX, Hera protege Aquiles por hoje, dizendo que depois ele sofrerá o que o destino lhe fiou, e Poseidon salva Eneias porque é fadado a escapar e a reinar. No Canto XXI, Aquiles, dominado pela correnteza, queixa-se de que a mãe o enganou, e no Canto XXII a balança de Zeus fixa o dia de Heitor depois que Atena lembra que ele está destinado há muito.

A Ilíada não separa a ação humana do plano divino, e cada cena escolhe uma das duas explicações sem anular a outra. A cadeia que Zeus enuncia no Canto XV, Aquiles manda Pátroclo, Heitor mata Pátroclo, Aquiles mata Heitor, se cumpre por escolhas humanas que o deus enuncia de antemão: Pátroclo decide ir a Aquiles por compaixão pelo ferido, e Aquiles decide a vingança sabendo o preço. Sobre a balança do Canto VIII e a do Canto XXII cabem duas leituras, e o texto sustenta as duas: ela revela uma sorte que já existia, ou torna visível uma decisão que Zeus acabou de tomar. As intervenções dos deuses, por seu lado, poupam alguém que o destino ainda quer vivo, Eneias, Sarpédon por um tempo, e, no caso de Heitor, Apolo o tira da mão de Aquiles no Canto XX sem que o texto diga que o destino o pede, e o deixa no Canto XXII quando o prato desce.

Onde aparece

  • Canto I: O proêmio diz que, enquanto Aquiles se irava, cumpria-se o desígnio de Zeus, e o canto mostra o plano nascendo no pedido de Tétis e no aceno que o confirma.
  • Canto II: Zeus manda a Agamêmnon um Sonho que diz que ele poderia tomar a cidade, e o rei transforma o poderia em certeza sem saber o que Zeus prepara.
  • Canto III: Príamo diz a Helena que a culpa é dos deuses e, ao deixar o campo, que só Zeus e os outros deuses sabem a qual dos dois a morte está destinada.
  • Canto V: Atena dá a Diomedes licença para ferir Afrodite e, mais tarde, suspende o limite que pusera, e a regra do que um mortal pode contra um deus muda por decisão dela.
  • Canto VI: Heitor diz a Andrômaca que sabe que Troia vai cair e, na mesma cena, que ninguém escapou da sorte depois de nascer nem o mandará ao Hades antes da hora.
  • Canto VII: Heleno garante a Heitor que ainda não é a sorte dele morrer, como ouviu dos deuses, e Heitor se oferece ao duelo, embora o coração bata no peito diante de Ájax.
  • Canto VIII: Zeus pesa numa balança de ouro as sortes de morte de troianos e aqueus, e o prato dos aqueus desce, enquanto Nestor diz que homem nenhum detém o pensamento de Zeus.
  • Canto IX: Aquiles conta que a mãe lhe disse que há dois destinos de morte: ficar em Troia com glória imperecível e sem volta, ou voltar para casa com vida longa e sem glória.
  • Canto XII: Sarpédon diz a Glauco que as Queres da morte estão sobre os dois, incontáveis, e que a glória é o que se pode fazer com uma morte que ninguém evita.
  • Canto XIII: Eucenor embarca para a guerra sabendo, pelo adivinho Polído, que morrerá doente em casa ou pelos troianos junto às naus, e vai ao encontro da segunda morte.
  • Canto XV: Zeus conta a Hera a cadeia que falta, a morte de Pátroclo, a de Sarpédon e a de Heitor, e promete não parar até que se cumpra o desejo de Aquiles.
  • Canto XVI: Zeus quer tirar Sarpédon da morte marcada, mas Hera lembra que os outros deuses não aprovarão, e ele cede; o narrador diz que Zeus soltou o ânimo de Pátroclo no peito.
  • Canto XIX: Agamêmnon e Aquiles atribuem a briga a Zeus, à Moira e a Atê, e o cavalo Xanto avisa Aquiles de que o dia da ruína está perto, e ele responde que já sabe.
  • Canto XX: Hera protege Aquiles por hoje, dizendo que depois ele sofrerá o que o destino lhe fiou, e Poseidon salva Eneias porque é fadado a escapar e a reinar.
  • Canto XXI: Aquiles, dominado pela correnteza, queixa-se de que a mãe o enganou ao dizer que ele morreria sob o muro pelas flechas de Apolo, e não arrastado como um menino porqueiro.
  • Canto XXII: Zeus pergunta aos deuses se salva Heitor, Atena responde que ele está destinado há muito, e Zeus estende a balança de ouro, cujo prato desce do lado de Heitor.
  • Canto XXIV: Aquiles diz a Príamo que dois jarros jazem no chão de Zeus, um de males e outro de bens, e que a sorte de cada mortal vem da mistura que ele dá.

Passagens

O poeta mede o risco da debandada com uma palavra que diz além do destino.

ἔνθά κεν Ἀργείοισιν ὑπέρμορα νόστος ἐτύχθη / εἰ μὴ Ἀθηναίην Ἥρη πρὸς μῦθον ἔειπεν· (2.155-156), então teria havido para os argivos um retorno além do destino, se Hera não tivesse falado a Atena.
Canto II: O sonho e o catálogo das naus

Heitor diz a Andrômaca que sabe como a cidade termina.

εὖ γὰρ ἐγὼ τόδε οἶδα κατὰ φρένα καὶ κατὰ θυμόν· / ἔσσεται ἦμαρ ὅτʼ ἄν ποτʼ ὀλώλῃ Ἴλιος ἱρὴ / καὶ Πρίαμος καὶ λαὸς ἐϋμμελίω Πριάμοιο. (6.447-449), pois isto eu sei bem, no espírito e no coração: virá o dia em que a sagrada Ílion será destruída, e Príamo, e o povo de Príamo, bom lanceiro.
Canto VI: Heitor e Andrômaca

Aquiles conta o que a mãe lhe disse sobre os dois destinos de morte.

μήτηρ γάρ τέ μέ φησι θεὰ Θέτις ἀργυρόπεζα / διχθαδίας κῆρας φερέμεν θανάτοιο τέλος δέ. / εἰ μέν κʼ αὖθι μένων Τρώων πόλιν ἀμφιμάχωμαι, / ὤλετο μέν μοι νόστος, ἀτὰρ κλέος ἄφθιτον ἔσται· / εἰ δέ κεν οἴκαδʼ ἵκωμι φίλην ἐς πατρίδα γαῖαν, / ὤλετό μοι κλέος ἐσθλόν, ἐπὶ δηρὸν δέ μοι αἰὼν / ἔσσεται, οὐδέ κέ μʼ ὦκα τέλος θανάτοιο κιχείη. (9.410-416), Pois minha mãe, a deusa Tétis dos pés de prata, diz que dois destinos de morte me levam ao termo: se eu ficar aqui e combater a cidade dos troianos, perdi o retorno, mas minha glória será imperecível; se eu voltar para casa, à querida pátria, perdi a boa glória, mas longa vida me será dada, e o termo da morte não me alcançará logo.
Canto IX: A embaixada a Aquiles

Zeus conta a Hera a cadeia de mortes que vai do enviado de Aquiles ao próprio Heitor.

Πηλεΐδεω Ἀχιλῆος· ὃ δʼ ἀνστήσει ὃν ἑταῖρον / Πάτροκλον· τὸν δὲ κτενεῖ ἔγχεϊ φαίδιμος Ἕκτωρ / Ἰλίου προπάροιθε πολέας ὀλέσαντʼ αἰζηοὺς / τοὺς ἄλλους, μετὰ δʼ υἱὸν ἐμὸν Σαρπηδόνα δῖον. / τοῦ δὲ χολωσάμενος κτενεῖ Ἕκτορα δῖος Ἀχιλλεύς. (15.64-68), do Pelida Aquiles; e ele fará levantar-se o seu companheiro Pátroclo, a quem o ilustre Heitor matará com a lança diante de Ílion, depois de Pátroclo ter feito perecer muitos outros jovens, e entre eles o meu filho, o divino Sarpédon. Irado por causa dele, o divino Aquiles matará Heitor.
Canto XV: Os troianos nas naus

O narrador dá duas causas ao erro de Pátroclo: a palavra de Aquiles esquecida e o ânimo que Zeus lhe soltou.

καὶ μέγʼ ἀάσθη / νήπιος· εἰ δὲ ἔπος Πηληϊάδαο φύλαξεν / ἦ τʼ ἂν ὑπέκφυγε κῆρα κακὴν μέλανος θανάτοιο. / ἀλλʼ αἰεί τε Διὸς κρείσσων νόος ἠέ περ ἀνδρῶν· / ὅς τε καὶ ἄλκιμον ἄνδρα φοβεῖ καὶ ἀφείλετο νίκην / ῥηϊδίως, ὅτε δʼ αὐτὸς ἐποτρύνῃσι μάχεσθαι· / ὅς οἱ καὶ τότε θυμὸν ἐνὶ στήθεσσιν ἀνῆκεν. (16.685-691), e cometeu um grande desvario, o insensato: se tivesse guardado a palavra do filho de Peleu, teria escapado da má sorte da negra morte. Mas a mente de Zeus é sempre mais forte que a dos homens: ele faz fugir até o homem valente e lhe tira a vitória com facilidade, e outras vezes é ele próprio quem o incita a lutar; foi ele que então lhe soltou o ânimo no peito.
Canto XVI: A morte de Pátroclo

Aquiles responde ao cavalo que já sabe que morrerá longe de casa.

Ξάνθε τί μοι θάνατον μαντεύεαι; οὐδέ τί σε χρή. / εὖ νυ τὸ οἶδα καὶ αὐτὸς ὅ μοι μόρος ἐνθάδʼ ὀλέσθαι / νόσφι φίλου πατρὸς καὶ μητέρος· ἀλλὰ καὶ ἔμπης / οὐ λήξω πρὶν Τρῶας ἅδην ἐλάσαι πολέμοιο (19.420-423), Xanto, por que me profetizas a morte? Não precisas. Eu mesmo bem o sei: meu destino é perecer aqui, longe do pai querido e da mãe; mas, ainda assim, não pararei antes de levar os troianos a se fartarem de guerra.
Canto XIX: O fim da ira

Atena responde à vontade de Zeus de salvar Heitor com o que os outros deuses não aprovam.

ἄνδρα θνητὸν ἐόντα πάλαι πεπρωμένον αἴσῃ / ἂψ ἐθέλεις θανάτοιο δυσηχέος ἐξαναλῦσαι; / ἔρδʼ· ἀτὰρ οὔ τοι πάντες ἐπαινέομεν θεοὶ ἄλλοι. (22.179-181), um homem mortal, destinado há muito pela sorte, queres libertá-lo outra vez da morte de lamentos? Faze-o; mas nós, os outros deuses, não te aprovamos todos.
Canto XXII: A morte de Heitor

O dia de Heitor desce com a balança, e Apolo o deixa.

ἐν δʼ ἐτίθει δύο κῆρε τανηλεγέος θανάτοιο, / τὴν μὲν Ἀχιλλῆος, τὴν δʼ Ἕκτορος ἱπποδάμοιο, / ἕλκε δὲ μέσσα λαβών· ῥέπε δʼ Ἕκτορος αἴσιμον ἦμαρ, / ᾤχετο δʼ εἰς Ἀΐδαο, λίπεν δέ ἑ Φοῖβος Ἀπόλλων. (22.210-213), pôs nela as duas Queres da morte que traz dor prolongada, a de Aquiles e a de Heitor, domador de cavalos; levantou-a segurando o meio: o dia fatal de Heitor pendeu, foi para o Hades, e Febo Apolo o deixou.
Canto XXII: A morte de Heitor

Aquiles descreve a Príamo os dois jarros no chão de Zeus.

δοιοὶ γάρ τε πίθοι κατακείαται ἐν Διὸς οὔδει / δώρων οἷα δίδωσι κακῶν, ἕτερος δὲ ἑάων· / ᾧ μέν κʼ ἀμμίξας δώῃ Ζεὺς τερπικέραυνος, / ἄλλοτε μέν τε κακῷ ὅ γε κύρεται, ἄλλοτε δʼ ἐσθλῷ· (24.527-530), pois dois jarros jazem no chão de Zeus, de dons, dos que ele dá: um de males, o outro de bens. A quem Zeus, que se alegra com o raio, der misturando, ora topa com um mal, ora com um bem.
Canto XXIV: O resgate de Heitor