O tema na obra
O Purgatório só é possível se a vontade é livre, e o poema discute isso duas vezes, no centro da cântica, com duas vozes. A primeira é a de Marco Lombardo, no canto XVI. Dante lhe traz uma dúvida dobrada: o mundo está deserto de toda virtude, e uns põem a causa no céu e outros cá embaixo. Marco responde que o mundo é cego e que os vivos levam toda causa ao céu, como se tudo o movesse por necessidade, e concede o que pode:
Lo cielo i vostri movimenti inizia; / non dico tutti, ma, posto ch’i’ ’l dica, / lume v’è dato a bene e a malizia, / e libero voler; che, se fatica / ne le prime battaglie col ciel dura, / poi vince tutto, se ben si notrica., o céu inicia os vossos movimentos; não digo todos, mas, supondo que o dissesse, é-vos dada luz para o bem e para o mal, e livre querer; o qual, se sofre fadiga nas primeiras batalhas com o céu, depois vence tudo, se bem se nutre.
O céu inicia os movimentos, mas deixa luz para o bem e para o mal, e livre querer, que sofre nas primeiras batalhas e vence depois, se bem nutrido. A nutrição depende de lei e de governo: a alma sai da mão de quem a ama como uma menina que chora e ri, volta de bom grado a tudo o que a diverte, e por isso foi preciso pôr lei como freio.
Esce di mano a lui che la vagheggia / prima che sia, a guisa di fanciulla / che piangendo e ridendo pargoleggia, / l’anima semplicetta che sa nulla, / salvo che, mossa da lieto fattore, / volontier torna a ciò che la trastulla., sai da mão d’Aquele que a ama antes que ela seja, como uma menina que chora e ri e se diverte como criança, a alma simplezinha que nada sabe, a não ser que, movida por um criador alegre, volta de bom grado a tudo o que a diverte.
A segunda voz é a de Virgílio, no canto XVIII, quando Dante faz a objeção que parece desfazer a possibilidade da penitência: se o amor nos é oferecido de fora e a alma só anda com esse pé, andar direito ou torto não é mérito dela.
ché, s’amore è di fuori a noi offerto / e l’anima non va con altro piede, / se dritta o torta va, non è suo merto, porque, se o amor nos é oferecido de fora, e a alma não anda com outro pé, andando ela direita ou torta não é mérito seu.
A resposta é o poder de reter. Todo amor pode surgir por necessidade, mas segurá-lo ou não depende de quem o sente. O guia dá o que a razão alcança, que o livre arbítrio é o limiar do assentimento, e entrega o termo a Beatriz, que o chamará de nobre virtude:
Onde, poniam che di necessitate / surga ogne amor che dentro a voi s’accende, / di ritenerlo è in voi la podestate. / La nobile virtù Beatrice intende / per lo libero arbitrio, e però guarda / che l’abbi a mente, s’a parlar ten prende, daí que, suponhamos que por necessidade surja todo amor que em vós se acende, de retê-lo está em vós o poder. A nobre virtude, Beatriz a entende por livre arbítrio, e por isso cuida de tê-la na mente, se ela te falar disso.
O tema não se esgota na doutrina. Aparece em cenas em que a vontade é o que está em jogo. Na linha que Sordello traça no chão, a noite não proíbe a subida, a escuridão embaraça a vontade com o não poder. Na fala de Estácio, o monte treme quando uma alma sente livre o querer de um limiar melhor, e o querer é a prova da limpeza. Na última lição de Virgílio, a vontade de Dante é declarada livre, reta e sã, e a coroa e a mitra são postas sobre ele mesmo:
Non aspettar mio dir più né mio cenno; / libero, dritto e sano è tuo arbitrio, / e fallo fora non fare a suo senno: / per ch’io te sovra te corono e mitrio, não esperes mais minha palavra nem meu aceno; livre, reto e são é o teu arbítrio, e seria erro não agir segundo o seu querer: por isso eu te coroo e mitro sobre ti mesmo.
E na cena final, é a vontade que Beatriz julga: o esquecimento do Lete prova a culpa, porque mostra a vontade de Dante atenta a outra parte.
E se tu ricordar non te ne puoi», / sorridendo rispuose, «or ti rammenta / come bevesti di Letè ancoi; / e se dal fummo foco s’argomenta, / cotesta oblivïon chiaro conchiude / colpa ne la tua voglia altrove attenta, e se não podes te lembrar, respondeu sorrindo, lembra agora como hoje bebeste do Lete; e se da fumaça se infere o fogo, esse esquecimento conclui claramente culpa na tua vontade atenta a outra parte.
Quem o encarna
Marco Lombardo é a doutrina dita por um homem de corte. Virgílio é a mesma doutrina dita até onde a razão alcança. Estácio é a vontade que, depois de quinhentos anos, se sente livre. Beatriz é quem recebe o termo e o aplica a Dante.
Onde aparece
- canto VII: Sordello traça uma linha no chão e explica que a escuridão da noite embaraça a vontade de quem quer subir com o não poder.
- canto XIV: Virgílio diz que o céu chama os homens e gira em torno deles mostrando as suas belezas eternas, e que o olho deles só olha para a terra.
- canto XVI: Marco Lombardo afirma que o céu inicia os movimentos mas deixa luz para o bem e o mal e livre querer, e põe a causa do mundo perdido no mau governo.
- canto XVII: Virgílio mostra que todo ato nasce de amor e que só o amor de ânimo pode errar, o que faz do erro um desvio e não uma natureza.
- canto XVIII: Dante objeta que o amor vem de fora e a alma não tem outro pé, e Virgílio responde com o poder de reter e entrega a Beatriz a nobre virtude.
- canto XXI: Estácio diz que a prova de limpeza de uma alma é só o querer, livre para mudar de convento, e que ele sentiu livre a vontade de um limiar melhor.
- canto XXV: Estácio ensina que a alma leva consigo, além da morte, a memória, a inteligência e a vontade, mais agudas que antes.
- canto XXVII: Virgílio declara livre, reto e são o arbítrio de Dante e o coroa e mitra sobre si mesmo.
- canto XXXIII: Beatriz argumenta que o esquecimento do Lete prova culpa na vontade de Dante, atenta a outra parte.
Onde as leituras divergem
Marco afirma o livre querer e acusa o governo. O texto sustenta as duas coisas lado a lado e não diz quanto pesa cada uma. A pergunta fica aberta: a alma sai simples da mão do criador e corre atrás do primeiro bem pequeno, o querer vence se for bem alimentado, a nutrição depende de leis e de governo, e então a responsabilidade de quem viveu sob um mau pastor é dele ou do pastor?
O texto diz piacere, que se pode ler como desejo, e o verso seguinte nomeia o que Virgílio quer dizer: o arbítrio, a palavra que fecha a tese do canto XVIII. O livre arbítrio não é o desejo, é o poder de reter ou deixar ir.