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A borboleta preta

O que é

A borboleta preta é a criatura que Brás Cubas mata com uma toalha no capítulo XXXI, no dia seguinte ao de outra, também preta, entrar na varanda de D. Eusébia. Brás ri da primeira, mata a segunda por irritação e se consola com piadas: ela devia ter nascido azul, e o tomou por inventor das borboletas. O episódio ecoa em Eugênia, a moça coxa de nascença que ele conhece no mesmo capítulo da primeira borboleta.

Onde aparece

No capítulo XXX, em casa de D. Eusébia, uma borboleta preta entra na varanda quando Brás acaba de conhecer a filha, Eugênia. D. Eusébia esconjura, Brás a expulsa, rindo, e à tarde espera, em vão, que a moça volte a cabeça ao passar a cavalo.

um rir filosófico, desinteressado, superior
Capítulos XXV a XXXVII: Tijuca, a borboleta preta e Eugênia

No dia seguinte, no capítulo XXXI, outra borboleta preta, maior, entra no quarto de Brás e pousa na testa dele e no retrato do pai. Irritado com o ar escarninho dela, ele a mata com uma toalha, apieda-se e se consola com piadas.

Também por que diabo não era ela azul?
Capítulos XXV a XXXVII: Tijuca, a borboleta preta e Eugênia
Vejam como é bom ser superior às borboletas!
Capítulos XXV a XXXVII: Tijuca, a borboleta preta e Eugênia

O capítulo XXXII abre com um leitor circunspecto, que pergunta se o capítulo da borboleta é sensaboria ou empulhação, e passa a Eugênia. Na chácara, Brás repara que ela coxeia e pergunta se machucou o pé.

Não, senhor, sou coxa de nascença.
Capítulos XXV a XXXVII: Tijuca, a borboleta preta e Eugênia

No capítulo XXXIII, Brás remói o enigma da moça bonita e coxa e trata o corpo dela como um enigma da natureza, um imenso escárnio.

Por que bonita, se coxa? por que coxa, se bonita?
Capítulos XXV a XXXVII: Tijuca, a borboleta preta e Eugênia

No capítulo XXXVI, depois que o namoro termina, Brás tira as botas apertadas e tira daí a teoria da felicidade barata. O coração dele se descalça de Eugênia, que ele evoca solitária e calada até a morte.

Talvez um comparsa de menos fizesse patear a tragédia humana.
Capítulos XXV a XXXVII: Tijuca, a borboleta preta e Eugênia

No capítulo CLVIII, no mesmo dia em que vê Marcela morrer no hospital, Brás encontra Eugênia num cortiço. Ela recusa a esmola com o olhar, e ele estende a mão como a uma senhora.

Ergueu logo a cabeça, e fitou-me com muita dignidade
Capítulos CXXXVII a CLX: A barretina, o ministério e as negativas

O que significa

Nos dois capítulos da borboleta, Brás é o poder pequeno e certo de si. Mata por nervos, e a consolação que fabrica desloca a culpa para a cor da vítima. A fábula em que a borboleta o toma por criador é um espelho: o poder que ela não entende e que a mata com dois palmos de linho cru é ele, e as conclusões opostas do fim mostram que a consolação não se sustenta.

Eugênia entra na história no mesmo capítulo da primeira borboleta, e a cena volta em outra escala. Diante de uma moça coxa de nascença, filha espúria, Brás pergunta por que bonita, se coxa, e faz do corpo dela um escárnio da natureza em vez de pensar nela. Quando o namoro acaba, descreve-a manquejando da perna e do amor e se pergunta se a existência dela era necessária ao século, reduzindo-a a um comparsa da tragédia humana.

A borboleta ensaia o que Brás faz com Eugênia: nos dois casos ele nomeia uma diferença de nascença, a cor ou o pé, e a trata como defeito de quem a tem, e nos dois o texto deixa nas mãos do leitor a pergunta de quem é a falta. Eugênia é quem não aceita o papel: responde sem titubear no capítulo XXXII e, no capítulo CLVIII, recusa com o olhar o dinheiro de Brás. A cena de capítulo XXXI também lembra a onça e o novilho do delírio, em Pandora e o delírio, com uma toalha no lugar da Natureza.

Relações