O que é
O Humanitismo é a doutrina de Quincas Borba, o colega de infância de Brás Cubas que reaparece mendigo e depois herdeiro. O nome vem de Humanitas, princípio das coisas, que a doutrina define como o mesmo homem repartido por todos os homens. Dele o filósofo tira que guerra, fome e inveja são funções necessárias e que a dor é uma ilusão. Brás o conhece por uma carta, o ouve em exposição à mesa, o usa para si e para os outros nos capítulos seguintes e vê o inventor morrer louco, repetindo a tese da dor.
Onde aparece
A doutrina tem um antecedente no capítulo LIX. No Passeio Público, Brás encontra Quincas Borba, o colega rico de antigamente, de roupas gastas. Quincas beija a nota de cinco mil-réis que Brás lhe dá, recusa trabalhar e anuncia a filosofia da miséria.
No capítulo XCI, Brás recebe de Quincas um relógio novo, no lugar do que este tomara emprestado, e uma carta que anuncia o Humanitismo, sistema que suprimiria a dor. Lê sem entender e toma a carta por sinal de sanidade.
Chamo-lhe Humanitismo, de Humanitas, princípio das coisas.
No capítulo CIX, Quincas visita Brás já de sobrecasaca e botas de verniz, herdeiro de um tio de Barbacena, e diz que a frugalidade não é necessária ao Humanitismo, que se acomoda com mesa, espetáculo e amores. Brás, com o espírito feito peteca, pede que a exposição fique para depois.
Gregos, subgregos, antigregos, toda a longa série dos homens tem-se debruçado sobre o poço, para ver sair a verdade, que não está lá
A exposição central é o capítulo CXVII. À mesa, entre o frango e o café, Quincas Borba expõe a Brás o Humanitismo, e dias depois lê a ele os quatro volumes manuscritos da obra. Brás confessa que ficou estupefato e que suas objeções foram tão frouxas que o filósofo as destruiu sem esforço. A tese cabe numa frase.
Humanitas, dizia ele, o princípio das coisas, não é outro senão o mesmo homem repartido por todos os homens
Dela o filósofo tira que o homem, veículo, cocheiro e passageiro, deve adorar-se a si próprio, que a inveja é virtude e que a dor é ilusão.
ele é ao mesmo tempo veículo, cocheiro e passageiro; ele é o próprio Humanitas reduzido; daí a necessidade de adorar-se a si próprio
a inveja não é senão uma admiração que luta, e sendo a luta a grande função do gênero humano, todos os sentimentos belicosos são os mais adequados à sua felicidade. Daí vem que a inveja é uma virtude
A dor, segundo o Humanitismo, é uma pura ilusão
O frango do almoço entra na demonstração como resultado de uma multidão de esforços, e a única desgraça é não nascer.
este frango, que eu almocei agora mesmo, é o resultado de uma multidão de esforços e lutas, executados com o único fim de dar mate ao meu apetite
Porquanto, verdadeiramente há só uma desgraça: é não nascer
O filósofo fecha os volumes defendendo o otimista que Voltaire ridicularizou.
Pangloss, dizia-me ele ao fechar o livro, não era tão tolo como o pintou Voltaire
No capítulo CXX, quando Sabina decreta que Brás há de casar, Quincas o anima, diz que Humanitas se agita no peito dele e que a parábola evangélica do convite era prenúncio do Humanitismo.
No capítulo CXXI, ao descer o morro com Nhã-loló, Brás chama de página acrescentada à filosofia de Quincas Borba um beijo dado sob o guarda-sol.
inclinei-o por modo que ajuntei uma página à filosofia do Quincas Borba: Humanitas osculou Humanitas
No capítulo CXXVI, Nhã-loló morre da febre amarela, e Quincas explica que epidemias servem à espécie e pergunta a Brás se ele não sente secreto encanto em ter escapado. Brás não responde.
No capítulo CXXXVII, acabrunhado, Brás ouve de Quincas que é idade de governo, e a consolação do filósofo funciona como ordem.
a pior filosofia é a do choramigas que se deita à margem do rio
No capítulo CXL, Quincas chama a ambição de Brás de capricho, e Brás o manda para o diabo com o Humanitismo, porque está farto de filosofias que não o levam a coisa nenhuma.
No capítulo CXLI, o filósofo manda Brás fundar um jornal e para em êxtase diante de dois cães que brigam por um osso sem carne.
Vida é luta. Vida sem luta é um mar morto no centro do organismo universal
No capítulo CXLII, Quincas responde a uma objeção de Brás com Pascal, e o supera na mesma frase.
“Sabe que morre” é uma expressão profunda; creio todavia que é mais profunda a minha expressão: sabe que tem fome
No capítulo CXLVI, Brás redige o programa do jornal como Humanitismo aplicado, sem citar o livro inédito de Quincas, que exige uma declaração reservada de autoria e o chama de discípulo amado.
Humanitas queria substituir Humanitas para consolação de Humanitas
No capítulo CXLIX, Quincas rejeita a acusação de ingratidão contra Cotrim com a teoria do benefício.
é que o prazer do beneficiador é sempre maior que o do beneficiado
Nem o remorso é outra coisa mais do que o trejeito de uma consciência que se vê hedionda
No capítulo CLIII, depois que Brás conta que sonhou ser nababo, Quincas o julga doido e manda um alienista, que declara Brás são e põe o amigo sob suspeita. À objeção de Brás de que Quincas é um filósofo, o alienista responde.
Não importa, a loucura entra em todas as casas
No capítulo CLVI, Quincas chama o gesto de um criado de orgulho da servilidade, sentimento nobre do Humanitismo, e não de mania.
prova cabal de que muitas vezes o homem, ainda a engraxar botas, é sublime
O fim do filósofo vem no capítulo CLIX. Quincas volta de Minas demente e consciente disso, e morre em casa de Brás repetindo que a dor é ilusão.
Quincas Borba não só estava louco, mas sabia que estava louco
a dor era uma ilusão, e que Pangloss, o caluniado Pangloss, não era tão tolo como o supôs Voltaire
No capítulo CLX, o balanço de Brás conta, entre o que a sorte lhe poupou, a semidemência de Quincas Borba.
O que significa
O Humanitismo tem três usos no livro. Na boca de Quincas Borba é uma explicação que tira de cada dor uma função: a inveja vira virtude, a fome prova necessária, a briga de cães, vida. Na de Brás é ferramenta de ocasião: batiza um beijo (capítulo CXXI), sustenta a ameaça de um jornal ao ministério (capítulo CXLVI) e é mandado para o diabo quando fere (capítulo CXL). No fim, é o que sobra de um homem que sabe que está louco e repete que a dor é ilusão.
O livro não discute o Humanitismo como filosofia, mostra quem o usa e a quem convém. O procedimento é sempre o mesmo, rebatizar o que se condena até que caiba entre as virtudes, e Brás o reconhece em Cotrim, no capítulo CXXIII, e o aplica a si mesmo no capítulo CXXXIII, ao salvar a teoria de Helvetius alargando a palavra interesse. No capítulo CXVII cabem duas leituras: o sistema seduz Brás de verdade, ou ele o transcreve com a seriedade de quem percebeu que toda doutrina conclui o que convém a quem a expõe. A frase de que a única desgraça é não nascer fica entre a tese do filósofo e a última frase do livro, em que Brás diz não ter transmitido a nenhuma criatura o legado da nossa miséria, e o texto não decide de que lado ele está.
Relações
- Obra: Memórias Póstumas de Brás Cubas.
- Temas-padrão: Loucura, Ambição, Sentido da vida.
- Personagens: Quincas Borba, que o formula, Brás Cubas, que o ouve e o usa, Cotrim, que a teoria do benefício absolve, Sabina e Nhã-loló, no noivado.
- Romance seguinte: Humanitas retoma o princípio no livro Quincas Borba, onde o herdeiro Rubião recebe a doutrina do filósofo e a repete depois da morte dele.