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O vergalho

O que é

O vergalho é o chicote com que Prudêncio, escravo alforriado pelo pai de Brás, castiga no Valongo o escravo que ele próprio possui, e que Brás Cubas encontra ao voltar a pé de ajustar a casinha. A cena fecha a figura que o livro abre na infância de Brás, quando ele montava Prudêncio, punha-lhe um freio na boca e o fustigava: a pancada recebida passa de um corpo a outro.

Onde aparece

No capítulo XI, Brás descreve o menino que foi: aos seis anos quebrou a cabeça de uma escrava que lhe negara doce de coco e a acusou à mãe, e fez de Prudêncio, moleque da casa, o seu cavalo. O pai o admirava e só o repreendia por formalidade.

Prudêncio, um moleque de casa, era o meu cavalo de todos os dias
Capítulos X a XVI: Infância e Marcela

No capítulo XLVI, na discussão da partilha do pai, entram a casa, a sege, o boleeiro, os pretos Paulo e Prudêncio, este livre há dois anos, e a prataria. A alforria feita pelo pai sem dar parte a ninguém aparece como surpresa e como perda, e Cotrim a trata com escárnio.

creio que não libertou a prata?
Capítulos XXXVIII a XLIX: Virgília perdida, a morte do pai e a herança

No capítulo LXVIII, voltando a pé pelo Valongo logo depois de ajustar a casinha, Brás encontra um ajuntamento: um preto vergalha outro na praça, e o que apanha só pede perdão. O que bate é Prudêncio, que pede a bênção a Brás e explica que bate no seu escravo por vadio e bêbado. Brás manda perdoar, e Prudêncio obedece.

Nhonhô manda, não pede.
Capítulos LXIV a LXXVI: A casinha, o vergalho e Dona Plácida

Brás diz ter perdido as reflexões que fez depois, mas dá a que lhe resta.

Eu, em criança, montava-o, punha-lhe um freio na boca, e desancava-o sem compaixão; ele gemia e sofria.
Capítulos LXIV a LXXVI: A casinha, o vergalho e Dona Plácida
Era um modo que o Prudêncio tinha de se desfazer das pancadas recebidas, [...] transmitindo-as a outro.
Capítulos LXIV a LXXVI: A casinha, o vergalho e Dona Plácida

No capítulo LXIX, Brás lembra o louco Romualdo, que dizia ser Tamerlão porque tomara tanto tártaro que ficara Tártaro, e confessa que não acha graça na história, contada a propósito de um vergalho recebido e transferido.

O tártaro tem a virtude de fazer Tártaros.
Capítulos LXIV a LXXVI: A casinha, o vergalho e Dona Plácida

O que significa

O vergalho passa de mão em mão ao longo do livro. O menino Brás o empunha contra Prudêncio no capítulo XI, o ex-escravo o empunha contra outro no capítulo LXVIII, e a pancada que cada um transmite é a que recebeu. A cena mostra o que a alforria mudou e o que deixou de pé: Prudêncio manda em outro, e continua a obedecer ao antigo dono, que não pede, manda. O capítulo LXIX dá a lógica em forma de delírio, o que se recebe faz-se, e Brás a cita sem achar graça.

Brás chama o episódio de alegre e de profundo, e o texto sustenta duas leituras: a de uma ironia de Machado contra a alegria dele, que ri do que não devia, e a de uma análise limpa, em que a violência recebida se repete em quem tem alguém abaixo. Em qualquer das duas, Brás é o primeiro elo da cadeia que descreve, e a graça com que a conta é o que a cena deixa também à mostra. Na mesma ordem de coisas, o capítulo CXXIII traz Cotrim mandando escravos ao calabouço, de onde desciam a escorrer sangue, e Brás o defende dizendo que o trato é efeito das relações sociais, frase que serve de desculpa e de denúncia.

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