O que é
O delírio do capítulo VII é o episódio em que Brás Cubas, doente, atravessa vinte ou trinta minutos de febre: vira barbeiro chinês, depois a Suma Teológica, e um hipopótamo o leva à origem dos séculos. Numa planície de neve, uma figura imensa se diz Natureza ou Pandora, mãe e inimiga, nega-lhe mais anos e do alto de uma montanha lhe mostra o desfile dos séculos. A visão se desfaz quando o hipopótamo vira o gato Sultão. No mito de Hesíodo, Pandora abre uma jarra de males e só a esperança fica dentro, e a figura de Brás tem uma bolsa onde leva os bens, os males e a esperança.
Onde aparece
O delírio começa no capítulo VI. Brás, doente, revê Virgília depois de dois anos, e ela volta dois dias depois com o filho, o Nhonhô, e fala com desdém dos amores ilegítimos de uma amiga. É a hora em que o delírio começa.
No capítulo VII, Brás oferece o relato à ciência como o primeiro de seu gênero, e a figura imensa se apresenta na planície de neve.
Que me conste, ainda ninguém relatou o seu próprio delírio; faço-o eu, e a ciência mo agradecerá
Chama-me Natureza ou Pandora; sou tua mãe e tua inimiga
Brás treme, e a figura explica o que leva consigo.
Porque levo na minha bolsa os bens e os males, e o maior de todos, a esperança, consolação dos homens
Ao pedido de mais anos, ela responde com a lei de quem não tem outra.
A onça mata o novilho porque o raciocínio da onça é que ela deve viver, e se o novilho é tenro tanto melhor: eis o estatuto universal
Do alto da montanha, o desfile dos séculos termina numa figura de retalhos que foge ou, quando apanhada, ri e desaparece. Brás ri, e a visão se desfaz quando o hipopótamo vira o gato Sultão.
nada menos que a quimera da felicidade, - ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda [...] e então ela ria, como um escárnio, e sumia-se, como uma ilusão
No capítulo VIII, Brás conta a volta da lucidez como disputa entre a Razão, que quer despejar a intrusa, e a Sandice, que pede mais dez minutos para o mistério da vida e da morte. A Razão ri e a expulsa.
é sestro antigo da Sandice criar amor às casas alheias, de modo que, apenas senhora de uma, dificilmente lha farão despejar
No capítulo IX, Brás liga o delírio ao começo da vida: o delírio começou diante de Virgília, Virgília foi o seu grão pecado da juventude, e daí, de meninice em nascimento, se chega a 20 de outubro de 1805.
o meu delírio começou em presença de Virgília; Virgília foi o meu grão pecado da juventude [...] ao dia 20 de outubro de 1805, em que nasci
O que significa
O delírio reúne em minutos o que o livro desenvolve: a Natureza que dá a vida e a tira, a lei de quem se conserva sem culpa, a esperança posta na mesma bolsa dos males, a felicidade como figura que foge. Quem o relata é um homem que já nada arrisca e ainda assim pede mais anos. A figura que responde ao pedido é a que o fez e o desfará, e o argumento que usa para negá-lo serve a ela, não a ele.
O riso de Brás ao fim do desfile cabe em duas leituras: sinal de que a loucura o toma, ou a única atitude que sobra diante do espetáculo. O capítulo VIII dá uma pista de como o livro escolhe, ao mostrar a Razão expulsando a Sandice, que já se contentava com um cantinho no sótão, e a mesma hóspede reaparece, em outro tom, no capítulo LXIX, com o louco Romualdo, e no capítulo CLIII, em que o alienista diz que a loucura entra em todas as casas. O consolo oferecido ao homem tem ainda um par no remédio do capítulo II, em o emplasto. No capítulo CLX, o último capítulo, Brás diz não ter transmitido a nenhuma criatura o legado da nossa miséria, e o fecho do livro responde, à sua maneira, ao que o delírio mostrou.
Relações
- Obra: Memórias Póstumas de Brás Cubas.
- Temas-padrão: Morte, Sentido da vida, Loucura.
- Personagens: Brás Cubas, que delira, e Virgília, diante de quem o delírio começa.
- Símbolos vizinhos: o emplasto, o outro consolo que Brás oferece aos homens. O mito vem de Hesíodo.