Quem é
Narrador e protagonista de Memórias Póstumas de Brás Cubas, nascido em 20 de outubro de 1805, bacharel por Coimbra, herdeiro de uma família que enriqueceu e depois inventou para si uma origem nobre, deputado que não chega a ministro e amante de uma mulher casada. Conta a própria vida depois de morto, como "defunto autor", em capítulos curtos e fora de ordem, e diz o que vivo calaria. O livro não decide se essa franqueza é liberdade de quem nada mais arrisca ou pose de quem escolhe com cuidado o que mostrar. A vida que ele narra vai do berço ao balanço das negativas.
Trajetória
O livro abre pelo fim: Brás conta que expirou numa sexta-feira de agosto de 1869, aos sessenta e quatro anos, solteiro, com cerca de trezentos contos, e que onze amigos o levaram ao cemitério (capítulo I).
eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço
Diz que o matou uma ideia grandiosa e útil, a de um emplasto anti-hipocondríaco, e confessa que o motivo principal era ver o próprio nome impresso em tudo (capítulo II). Esboça a genealogia, em que o pai, achando que o sobrenome cheirava a tanoaria, inventa que as cubas vinham de trezentas tomadas aos mouros (capítulo III), previne o leitor contra a ideia fixa e define o livro como obra de filosofia desigual (capítulo IV) e atribui a morte a um golpe de ar apanhado por causa do emplasto, numa demonstração que ele mesmo admite frágil (capítulo V).
Doente, vê Virgília à porta da alcova depois de dois anos sem se verem (capítulo VI), e o delírio de vinte ou trinta minutos o leva, de hipopótamo, à origem dos séculos e a uma figura que se diz Natureza ou Pandora, que lhe nega mais anos e lhe mostra o desfile dos séculos (capítulo VII). Na volta da lucidez, a Razão quer despejar a Sandice, que pede mais dez minutos (capítulo VIII), e a transição liga o delírio a Virgília e Virgília ao dia do nascimento (capítulo IX).
Nascido, é erguido pelo pai para ser mostrado à cidade, e cada parente lhe prognostica a carreira que mais lhe quadra (capítulo X). Menino diabo, faz de Prudêncio o seu cavalo e confessa ter saído opiniático, egoísta e algo contemptor dos homens (capítulo XI). Aos nove anos, contrariado porque o jantar da queda de Napoleão adia a compota, espia o Dr. Vilaça com D. Eusébia na chácara e grita a notícia do beijo; o pai lhe puxa as orelhas às escondidas e no dia seguinte ri (capítulo XII). Passa pela escola do mestre Ludgero, onde conhece o colega Quincas Borba, e salta a 1822, ano da independência e do que chama de seu primeiro cativeiro pessoal (capítulo XIII).
Aos dezessete anos vê Marcela na noite das luminárias da independência, segue-a e, três dias depois, na ceia a que o tio João o leva, a beija na escada (capítulo XIV). Gasta trinta dias para chegar ao coração dela e financia o reinado explorando o pai, induzindo a mãe a desviar dinheiro e assinando obrigações sobre a herança (capítulo XV); a reflexão que ele mesmo chama de imoral diz que a pedra fina não diminui a testa bela (capítulo XVI). O pai descobre os onze contos gastos e decide mandá-lo à Europa; Brás se humilha diante de Marcela e a vê aceitar partir só quando lhe leva um pente de marfim com três diamantes (capítulo XVII), mas é conduzido pelo pai, pelo tio cônego e por um homem de libré a uma galera para Lisboa (capítulo XVIII).
A bordo acha ensejo de se matar, mas o capitão poeta o ocupa com uma ode e sonetos, e na tempestade ele admite que, tendo meditado ir ter com a morte, não ousou fitá-la quando ela veio (capítulo XIX). Lisonjeado pelo capitão, troca Marcela pela ambição, estuda mediocremente em Coimbra e recebe o grau de bacharel com a sensação de logro e de orgulho (capítulo XX). No caminho, o almocreve que o salva do jumento ganha um cruzado em prata, e Brás, achando depois que bastariam uns vinténs, tem remorsos por ter pago demais (capítulo XXI). Chamado pelo pai, volta ao Rio (capítulo XXII) e assiste à longa agonia da mãe, a primeira morte que vê de perto (capítulo XXIII); logo depois confessa que era um compêndio de trivialidade e presunção e que a franqueza é a primeira virtude de um defunto (capítulo XXIV).
Depois da missa do sétimo dia isola-se na Tijuca com Prudêncio, livros e uma espingarda, e a hipocondria desabotoa nele como uma flor (capítulo XXV). O pai sobe com dois projetos, um lugar de deputado e um casamento, e Brás rabisca palavras ao acaso até o pai ler no "virumque" o nome de Virgília (capítulo XXVI). Brás retrata a noiva aos quinze ou dezesseis anos e define cada fase da vida como uma edição que corrige a anterior (capítulo XXVII), aceita examinar candidatura e casamento, e o amor da nomeada substitui a hipocondria (capítulo XXVIII). Aceita o que o pai propõe e visita D. Eusébia (capítulo XXIX), onde conhece a filha Eugênia (capítulo XXX), mata uma borboleta preta com uma toalha e se consola com piadas (capítulo XXXI), descobre que a moça é coxa de nascença (capítulo XXXII) e recebe dela o primeiro beijo (capítulo XXXIII). Responde à alma sensível que o chama de cínico que não é cínico, foi homem (capítulo XXXIV), e, no que chama de seu caminho de Damasco, ouve a voz que o manda descer e a deixa, por piedade e pelo terror de amar deveras uma coxa (capítulo XXXV). Descalça as botas apertadas e conclui que toda a sabedoria humana não vale um par de botas curtas (capítulo XXXVI). Visita o Conselheiro Dutra, que acha legítima a candidatura mas pede meses, e em um mês ele e Virgília estão íntimos (capítulo XXXVII).
Reencontra Marcela, velha e marcada pelas bexigas, dona de uma ourivesaria (capítulo XXXVIII), e a visão das bexigas lhe passa para o rosto de Virgília (capítulo XLI). Lobo Neves lhe toma a noiva e a candidatura em poucas semanas, e Virgília, entre a águia e o pavão, elege a águia (capítulo XLIII). O pai repete "Um Cubas!", atônito, e morre quatro meses depois (capítulo XLIV). Na partilha, Brás briga com Sabina e Cotrim e não cede (capítulo XLVI); tenta eliminar o poeta Luís Dutra com silêncio e conversa desviada (capítulo XLVIII) e dá nome a esse gesto na teoria da ponta do nariz (capítulo XLIX).
Nariz, consciência sem remorsos, tu me valeste muito na vida
Reencontra Virgília casada com Lobo Neves e valsa com ela (capítulo L); manda ao chefe de polícia uma meia dobra de ouro achada à porta e fica com cinco contos achados na praia de Botafogo (capítulo LI, capítulo LII). Conta o primeiro beijo (capítulo LIII), explica o amor pelo momento oportuno (capítulo LVI) e entrega o caso ao Destino (capítulo LVII). Ouve de Lobo Neves a confidência de que lhe falta a glória pública (capítulo LVIII) e, no Passeio Público, encontra Quincas Borba mendigo, que lhe furta o relógio no abraço (capítulo LIX, capítulo LX). Chama Virgília de travesseiro do seu espírito (capítulo LXII) e, três semanas depois, propõe a fuga e sente a primeira grande cólera contra ela (capítulo LXIII).
Ciumento depois de uma noite de teatro a que não foi, propõe de novo a fuga e acaba negociando a casinha da Gamboa (capítulo LXIV, capítulo LXVII). No Valongo vê Prudêncio vergalhar um escravo e acha graça na cena (capítulo LXVIII). Paga o consentimento de Dona Plácida com carinho, uma novela inventada e cinco contos (capítulo LXX), confessa que se arrepende do livro, cujo maior defeito é o leitor (capítulo LXXI), ouve a história dela (capítulo LXXIV) e, acusado pela consciência de a ter baixado ao ofício de medianeira, responde que o vício é muitas vezes o estrume da virtude e vai abrir a porta a Virgília (capítulo LXXVI).
Lobo Neves anuncia a presidência de uma província, e Brás entrega a decisão a Virgília e sai (capítulo LXXVIII); aceita ser secretário (capítulo LXXX), recebe Sabina e Cotrim, que propõem as pazes (capítulo LXXXI), e ouve de Cotrim que um caso desses muda de figura na província (capítulo LXXXIII). O decreto de 13 cai pela superstição de Lobo Neves, e Brás saúda o número fatídico (capítulo LXXXIV). O amor, diz, chega então ao cimo da montanha e começa a descer (capítulo LXXXV).
Quando Virgília engravida, conversa em pensamento com o embrião (capítulo XC). Recebe de Quincas Borba um relógio novo e uma carta que anuncia o Humanitismo (capítulo XCI), e Sabina o senta ao lado de Nhã-loló, com quem diz que ele há de casar (capítulo XCIII). Perde o embrião (capítulo XCV), perturba-se com a calma de Virgília diante da carta anônima que denuncia os dois (capítulo XCVI) e acha que a carta devolve à aventura o sal do mistério (capítulo XCVIII).
Confessa que abençoava a revolução que tirou do caminho o Conde B. V., da legação da Dalmácia, que galanteara Virgília durante três meses (capítulo CI). Atrasa-se uma hora ao encontro, diz que foi distração e recomenda o gesto de olhar para baixo a quem não tem resposta pronta (capítulo CIII); escondido na alcova, espia por uma fechadura Lobo Neves levar Virgília (capítulo CIV), explica o gesto de sair pela lei da equivalência das janelas (capítulo CV), imagina-se casado (capítulo CVI) e recusa-se a analisar o bilhete dela (capítulo CVIII). Descobre que o decreto de Lobo Neves vem datado de 31 (capítulo CX), decide ir ao encontro que julga marcado num bilhete do muro baixo e descobre que o bilhete é antigo, do começo dos amores (capítulo CXI) e conclui que o marido teme a opinião (capítulo CXII). Despede-se de Virgília diante de gente que os olha (capítulo CXIV), almoça no dia do embarque (capítulo CXV) e relê as cartas velhas (capítulo CXVI).
Ouve de Quincas Borba o Humanitismo, entre o frango e o café (capítulo CXVII), e, empurrado por Sabina, aceita casar (capítulo CXX). Desce o morro do Livramento com Nhã-loló e perde os anos pelo caminho (capítulo CXXI); quando ela morre de febre amarela, não chora e conclui que talvez não a amasse deveras (capítulo CXXVI). Deputado, diz não ter remorsos, só vontade de ser ministro (capítulo CXXIX). Em 1855 fala a Virgília num baile (capítulo CXXX), confessa uma indiscrição a um oficial de marinha (capítulo CXXXI) e, aos cinquenta anos, acha a idade no fundo do carro (capítulo CXXXIV).
Discursa sobre a barretina da guarda nacional para chegar à pasta e recua quando veem oposição no discurso (capítulo CXXXVII). Perde a cadeira de deputado, e o capítulo do ministério que não foi vem só em pontos (capítulo CXXXIX, capítulo CXL). A conselho de Quincas Borba, funda um jornal de oposição (capítulo CXLVI, capítulo CXLVII) que Cotrim desautoriza pela imprensa (capítulo CXLVIII) e que morre em meses, quando também morre Lobo Neves (capítulo CL). Diz primeiro que não irá ver Dona Plácida doente, mas no dia seguinte, por cortesia, vai à casa dela e a faz transportar para a Misericórdia, e conclui que a vida dela serviu aos seus amores (capítulo CXLIII, capítulo CXLIV). Entra na Ordem Terceira e passa a pensar bem de si (capítulo CLVII); num mesmo dia vê Marcela morrer no hospital e encontra Eugênia num cortiço (capítulo CLVIII). Quincas Borba morre em casa dele (capítulo CLIX).
Ao longo do livro, a voz comenta o próprio trabalho: avisa que a obra é de filosofia desigual (capítulo IV), põe no leitor o maior defeito (capítulo LXXI), anuncia a supressão de um capítulo que continua escrito (capítulo XCVIII), explica ao crítico que a morte não envelhece e que é o estilo que muda com a fase narrada (capítulo CXXXVIII) e se antecipa ao julgamento do leitor chamando de inútil um capítulo de uma linha (capítulo CXXXVI). O último capítulo faz o balanço do que não foi nem teve (capítulo CLX).
Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria
Temas que encarna
Os temas que passam por ele são Morte, Linguagem e narração e Ambição.
Morte: é um defunto que escreve, e abre as memórias pelo fim porque o escrito fica assim mais novo (capítulo I).
Linguagem e narração: a voz se corrige, desvia, suprime e se justifica diante do leitor e do crítico, de modo que o modo de contar vira assunto do livro (capítulo IV, capítulo LXXI, capítulo CXXXVIII).
Ambição: do emplasto com o nome em cartaz ao ministério que não veio, o que ele quer é posição, não obra (capítulo XX).
O livro dá a Brás o álibi da morte para dizer tudo, e cada confissão (o pente de Marcela, o poeta que tenta eliminar, a porta aberta a Virgília depois de ouvir a consciência) vem com uma teoria que a explica ou a absolve. O leitor fica entre admirar a lucidez e notar que cada teoria chega a tempo de ser conveniente.
Relações
- Virgília: o grande pecado da juventude, a noiva perdida, a amante e a visita que o encontra doente.
- Marcela: a primeira ligação, paga com quinze meses e onze contos, reencontrada velha e bexigosa.
- Eugênia: a moça coxa que ele beija e deixa.
- Lobo Neves: o rival que lhe toma noiva e candidatura, e o marido que ele engana.
- Quincas Borba: o colega de escola, o mendigo que lhe furta o relógio, o filósofo do Humanitismo que morre em casa dele.
- Dona Plácida: a guarda da casinha, a quem ele paga e cuja velhice a consciência o obriga a defender.
- Prudêncio: o moleque que foi seu cavalo e que repete a violência no Valongo.
- Bento Cubas: o pai que o exibe, o manda à Europa e planeja o casamento com Virgília.
- Sabina: a irmã com quem briga na herança e que o empurra ao casamento.
- Cotrim: o cunhado que o avisa e que depois se separa dele pela imprensa.
- Nhã-loló: a noiva escolhida por Sabina, morta antes do casamento.