Quem é
A espanhola que Brás Cubas ama aos dezessete anos em Memórias Póstumas de Brás Cubas, a "linda Marcela" dos rapazes, luxuosa, impaciente, amiga de dinheiro e de rapazes, e a primeira ligação que lhe custa caro. O livro dá duas versões da origem dela, filha de hortelão ou de letrado de Madri, e não escolhe. Brás a perde no balanço de quinze meses e onze contos, e a reencontra mais tarde mudada.
Trajetória
Quando Brás a vê, Marcela é a espanhola a quem os rapazes chamam a "linda Marcela" e que, naquele ano, "morria de amores" pelo abastado e tísico Xavier; ele a segue como pajem e a beija na escada, depois de uma ceia na casa dela (capítulo XIV). A ligação leva trinta dias para nascer e passa por duas fases, uma em que Brás governa com Xavier e outra em que reina sozinho, e o reino custa dinheiro. Marcela protesta contra os presentes, desmente a história da cruz de ouro, promete "Nunca, nunca" e, quando Brás lhe leva o colar que dissera não querer, tenta jogá-lo à rua e fica com ele (capítulo XV).
Vendera muita vez as aparências, mas a realidade, guardava-a para poucos.
Brás corrige depois o verbo: ela não "morria" por Xavier, "vivia", e as joias são parte do comércio dos corações (capítulo XVI). Quando o pai de Brás decide mandá-lo à Europa, Marcela recusa partir invocando o pai morto por Napoleão, responde "Não me aborreça" à humilhação dele e só aceita depois de olhar o pente de marfim com três diamantes que ele lhe traz (capítulo XVII).
Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos.
No corredor escuro, Brás vê o olhar dela sobre um nariz que é ao mesmo tempo o de Bakbarah, o namorado enganado das Mil e Uma Noites, e o seu, e tenta se convencer de que ela o ama (capítulo XVIII). Mais tarde a reencontra velha, marcada pelas bexigas, dona de uma ourivesaria da Rua dos Ourives; ela o reconhece, manda comprar o vidro do relógio, conta a vida e lhe oferece joias a preço baixo (capítulo XXXVIII). Quando a filha de um relojoeiro vizinho lhe oferece o padre-nosso, Marcela a beija e a voz lhe treme de alegria (capítulo XXXIX).
havia um tremor de alegria na voz de Marcela; e no rosto como que se lhe espraiou uma onda de ventura
Brás compara o fim da amizade com a irmã ao fim da beleza de Marcela, que se esvaiu com as bexigas (capítulo XLVI), e ainda relê as cartas dela entre as folhas velhas (capítulo CXVI). Marcela morre no hospital, feia e decrépita, num dia do tempo em que Brás servia na Ordem Terceira, o mesmo em que encontra Eugênia num cortiço (capítulo CLVIII).
Temas que encarna
Os temas que passam por ela são Desejo e Aparência e realidade.
Desejo: o desejo põe o rapaz a serviço dela, "tão pajem como o outro", e o faz gastar a herança do pai (capítulo XIV, capítulo XV).
Aparência e realidade: ela diz vender as aparências e guardar a realidade para poucos, e a beleza que Brás pagou se esvai com as bexigas (capítulo XV, capítulo XXXVIII).
O livro só mostra Marcela por Brás, e dá a ela duas faces que ele admite não ter entendido na juventude (capítulo XV): o riso cândido e a mulher que junta dobras numa caixinha de ferro. O reencontro com a velha ourives não resolve a dúvida, porque o tremor de alegria diante da menina é o raro ponto em que Brás registra um sentimento dela sem ironia (capítulo XXXIX).
Relações
- Brás Cubas: o rapaz que a sustenta com a herança e que a reencontra velha.
- Bento Cubas: o pai que resgata os títulos e manda o filho à Europa por causa dos onze contos.
- Virgília: a moça em cujo rosto Brás vê as bexigas de Marcela.
- Eugênia: a outra mulher do passado que Brás reencontra no dia da morte de Marcela.