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O emplasto

O que é

O emplasto anti-hipocondríaco é a invenção a que Brás Cubas atribui a própria morte: uma ideia grandiosa e útil, apresentada ao governo como obra cristã e destinada a aliviar a melancolia da humanidade. O motivo que ele confessa depois de morto é outro, ver o próprio nome impresso nos jornais, nas esquinas e nas caixinhas. O emplasto não chega a existir como remédio. O livro o mostra como ideia fixa que mata e, adiante, como a primeira de várias ambições de Brás que não se cumprem.

Onde aparece

No capítulo I, ao contar a própria morte, Brás diz que uma ideia grandiosa e útil, mais do que a pneumonia, o matou. O capítulo seguinte dá nome a ela.

No capítulo II a ideia ganha nome e justificativa. Pendurada no cérebro de Brás, vira o projeto do emplasto, e ele separa a face que mostrava ao público da que guardava para si: de um lado o alívio da humanidade, de outro o gosto de ver o nome em cartaz. Os dois tios divergem sobre o amor da glória, perdição para o cônego, feição mais humana para o militar, e Brás deixa o leitor decidir.

um emplastro anti-hipocondríaco, destinado a aliviar a nossa melancólica humanidade
Capítulos I a IX: Óbito, emplasto e delírio
o que me influiu principalmente foi o gosto de ver impressas nos jornais, mostradores, folhetos, esquinas [...] estas três palavras: Emplasto Brás Cubas
Capítulos I a IX: Óbito, emplasto e delírio

O capítulo III mostra de onde vem o desejo do nome. O pai de Brás, achando que o sobrenome cheirava a tanoaria, inventou que as cubas vinham de trezentas tomadas aos mouros, e o filho quer o mesmo sobrenome nas caixinhas do remédio.

Meu pai era homem de imaginação; escapou à tanoaria nas asas de um calembour
Capítulos I a IX: Óbito, emplasto e delírio

No capítulo IV a ideia do emplasto já é fixa, e Brás previne o leitor com Cavour, e com Cláudio e Lucrécia Bórgia lembra que a história é volúvel: a ideia fixa faz os fortes e os doidos, e a ideia móbil faz os Cláudios.

é ela a que faz os varões fortes e os doidos; a idéia móbil, vaga ou furta-cor é a que faz os Cláudios
Capítulos I a IX: Óbito, emplasto e delírio

No capítulo V, ocupado com o emplasto, Brás apanha um golpe de ar, trata-se mal e conclui que a invenção o matou. Ele mesmo admite que tratou a doença sem método nem persistência, e a prova é frágil e adotada assim mesmo.

Há demonstrações menos lúcidas e não menos triunfantes
Capítulos I a IX: Óbito, emplasto e delírio

No capítulo XXVIII o emplasto reaparece com o nome de nomeada. O pai diz a Brás que o mais seguro é valer pela opinião dos outros, e a hipocondria do luto dá lugar ao amor da nomeada, que o narrador liga ao emplasto Brás Cubas.

Olha que os homens valem por diferentes modos, e que o mais seguro de todos é valer pela opinião dos outros homens.
Capítulos XXV a XXXVII: Tijuca, a borboleta preta e Eugênia
a flor da hipocondria recolheu-se ao botão para deixar a outra flor menos amarela, e nada mórbida
Capítulos XXV a XXXVII: Tijuca, a borboleta preta e Eugênia

No capítulo LXXXII, feliz com o amor de Virgília, a confiança do marido e a secretaria, Brás abre o capítulo com uma frase dirigida aos hipocondríacos.

Digam o que quiserem dizer os hipocondríacos: a vida é uma coisa doce
Capítulos LXXVII a LXXXVII: A presidência e o cimo da montanha

No capítulo CXVIII, Brás nomeia a terceira força que o chamava ao bulício, o gosto de luzir e a incapacidade de viver só, e diz que o emplasto não veio, e veio o desejo de agitar-se.

Veio o desejo de agitar-me em alguma coisa, com alguma coisa e por alguma coisa
Capítulos CXVII a CXXXVI: O Humanitismo, Nhã-loló e os cinquenta anos

No capítulo CLX, o balanço final do que Brás não foi nem teve, o emplasto está entre as ambições que não se cumpriram, ao lado da pasta de ministro e do casamento.

não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento
Capítulos CXXXVII a CLX: A barretina, o ministério e as negativas

O que significa

No capítulo II o emplasto reúne duas coisas que Brás separa: o remédio para a tristeza de todos e o nome em cartaz. Quem o concebe é um homem rico e solteiro que acaba de se descrever como aborrecido, e o livro mostra nele a hipocondria que a invenção prometia curar nos outros. No capítulo XXV ela desabrocha como flor de cheiro inebriante, isto é, como prazer, e a volúpia do aborrecimento é uma sensação que ele manda o leitor decorar.

Depois do capítulo V, nada no livro mostra Brás trabalhando no emplasto, e o que ele representava passa para outras formas: a nomeada que o pai ensina a querer (capítulo XXVIII), a glória pública que falta a Lobo Neves (capítulo LVIII) e que contagia Brás, que passa a se perguntar por que não será ministro (capítulo LIX), o desejo de agitar-se (capítulo CXVIII). O capítulo CLX fecha a lista.

O remédio que devia curar a melancolia de todos acaba sendo o nome de um homem, e o livro cobra a conta no fim, entre as ambições que ele não realizou, ditas sem queixa. A promessa de consolar os homens tem um par no delírio do capítulo VII, em que a Natureza leva na bolsa os bens e os males e a esperança, consolação dos homens, em Pandora e o delírio. Duas leituras cabem: o emplasto é a vaidade de um ocioso com verniz de filantropia, ou é a melancolia que Brás conhece, tratada pela única via que sabe, a de fazer-se notado.

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