Clavis Libri

Personagem

Virgília

Quem é

Mulher que atravessa a vida de Brás Cubas em Memórias Póstumas de Brás Cubas: a noiva que o pai lhe destina, a esposa de Lobo Neves, a amante da casinha da Gamboa e a visita que o encontra doente. O narrador a retrata aos quinze ou dezesseis anos como bonita, fresca, voluntariosa, ignorante e pueril, e a mostra depois como mulher que se possui, que não separa o amor da consideração pública e que dá as ordens quando o perigo chega. O livro deixa aberto se essa calma é virtude ou longo hábito de dissimular.

Trajetória

Ela aparece sem nome na hora da morte de Brás Cubas, como a terceira senhora presente (capítulo I), e Brás volta a lembrá-la aos cinquenta e quatro anos antes de nomeá-la (capítulo V). Doente, ele a vê à porta da alcova depois de dois anos sem se verem; ela se zanga quando ele fala em morrer e, dois dias depois, volta com o filho, o Nhonhô, e fala com desdém dos amores ilegítimos de uma amiga (capítulo VI). Brás a chama de seu grão pecado da juventude (capítulo IX).

O pai de Brás descobre o nome dela num rabisco (capítulo XXVI); Brás a retrata aos quinze ou dezesseis anos (capítulo XXVII), e o pai a descreve como filha do Conselheiro Dutra, uma influência política (capítulo XXVIII). Brás visita o Conselheiro, que acha legítima a candidatura mas pede meses, e em um mês ele e Virgília estão íntimos (capítulo XXXVII). Ela o recebe de mau humor; ao ver nela as bexigas de Marcela, Brás faz um gesto de repulsa, e ela se afasta e depois o olha de cima, calada, estalando as unhas (capítulo XLI). Quando Lobo Neves lhe toma a noiva, Virgília pergunta a ele quando será ministro e se a fará baronesa, e ele responde que a fará marquesa (capítulo XLIII).

Reaparece casada com Lobo Neves, tão apurada que Brás não a reconhece; diz que ele há de valsar com ela e, na valsa, deixa a mão apertada (capítulo L). O primeiro beijo é dela, trêmula de medo, ao portão da chácara, e o amor dos dois se sustenta numa hipocrisia paciente e sistemática (capítulo LIII). Brás só entende a ligação como questão de momento oportuno quando ela se queixa de um pretendente importuno (capítulo LVI). Confessa a Brás momentos de remorso, ouve que remorso é falta de amor e responde que amá-lo é a vontade do Céu; reza com sono, tem medo de trovoada e guarda um oratório de jacarandá (capítulo LVII).

Amo-te, é a vontade do Céu
Capítulos L a LXIII: Virgília casada e o Fujamos

Aparece abatida porque o marido, a quem chama Damião, parece desconfiar e porque sonhou que ele a matava; empalidece com a proposta de fuga e logo se alegra com a notícia de um camarote para a Candiani (capítulo LXIII). Ofendida por ter sido tratada como um cachorro, responde à ideia de fuga com a imagem de uma casinha escondida num jardim e diz que não deixa o filho (capítulo LXIV). Manda a Brás uma caixa de charutos com um bilhete que diz que desconfiam deles, recusa a fuga com um "Nunca" e aceita a casinha, porque no espírito dela o amor e a consideração pública estão ligados (capítulo LXVII).

Vi que era impossível separar duas coisas que no espírito dela estavam inteiramente ligadas: o nosso amor e a consideração pública.
Capítulos LXIV a LXXVI: A casinha, o vergalho e Dona Plácida

Cumula de afagos o velho parente Viegas, na esperança de um codicilo (capítulo LXXXVIII); o testamento nada deixa, e ela se enfurece, até Brás a mandar pensar no filho dos dois, de que está grávida (capítulo XC). Amua quando ele fala do filho, e ele julga que é medo do parto e vexame da gravidez (capítulo XCIV). Quando Lobo Neves recebe a carta anônima, ela a chama de calúnia diante do marido e se safa, e conta tudo a Brás na Gamboa com uma calma que o perturba (capítulo XCVI).

pela tranqüilidade moral de Virgília, pela falta de comoção, de susto, de saudades, e até de remorsos
Capítulos LXXXVIII a C: Viegas, Quincas Borba e a carta anônima

Quando o marido bate à porta da casa da Gamboa, passada a primeira emoção ela esconde Brás na alcova, manda Plácida voltar à janela, recebe o marido e sai com ele (capítulo CIV). Escreve a Brás que nada aconteceu, mas que o marido suspeita, sério e calado, e pede muita cautela (capítulo CVII). Na véspera do embarque, pede-lhe que não esqueça Plácida e diz que o marido fala em só até as eleições (capítulo CXIV).

Em 1855, num baile, aparece de gorgorão azul, ainda formosa de uma formosura outoniça, e os dois falam muito sem aludir ao passado (capítulo CXXX). Escreve de letra disfarçada pedindo que Brás meta Plácida, muito doente, na Misericórdia (capítulo CXLII). Chora de verdade no enterro do marido (capítulo CL), e Brás resolve o enigma da traição e do choro com a moeda de Vespasiano (capítulo CLII).

Temas que encarna

Os temas que passam por ela são Desejo, Aparência e realidade e Ambição.

Desejo: é a mulher que Brás quer tornar somente sua (capítulo LXIV), numa ligação que, com o tempo, perde o delírio.

Aparência e realidade: a calma diante da carta anônima e a hipocrisia paciente do amor dos dois fazem da compostura o freio da paixão (capítulo XCVI, capítulo LIII).

Ambição: o título que pede a Lobo Neves, ainda pretendente, a baronesa, e a promessa de marquesa que ele lhe dá decidem a escolha entre a águia e o pavão (capítulo XLIII).

O livro nunca entra na cabeça de Virgília: tudo o que se sabe dela vem de Brás, que a lê em favor próprio. Isso deixa duas leituras em quase toda cena, a da mulher que calcula e a da mulher que sofre sem poder dizer (o choro do capítulo LXIV, a calma do capítulo XCVI, o choro do capítulo CL), e o texto sustenta as duas.

Relações

  • Brás Cubas: a noiva perdida, a amante e a visita que o encontra doente.
  • Lobo Neves: o marido, de quem espera título e a quem engana.
  • Dona Plácida: a antiga agregada de sua família, que guarda a casinha e a chama de Iaiá.
  • Marcela: a espanhola cujo rosto bexiguento Brás vê no dela na alucinação.