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A estalagem São Romão

O que é

A estalagem de João Romão, o cortiço que dá nome a Cortiço e o lugar onde quase tudo acontece. Nasce no capítulo I de três casinhas feitas com o lucro da venda e a pedra tirada da pedreira vizinha, a partir de um terreno comprado com as economias de Bertoleza, chega a noventa e cinco casinhas, passa de quatrocentos cômodos no capítulo XX e troca o nome de Estalagem de São Romão por Avenida São Romão à medida que o dono sobe. O narrador a descreve como coisa viva, que cresce, ferve e se defende; para quem mora nela é a casa comum, e para Romão é o negócio.

Onde aparece

No capítulo I Romão levanta as casinhas, fecha a frente com um muro de cacos de vidro e um portão e pendura a tabuleta que dá nome ao lugar. O narrador vê o conjunto crescer como um bicho do meio.

nas vinte braças que separavam a venda do sobrado do Miranda, um grosso muro de dez palmos de altura, coroado de cacos de vidro e fundos de garrafa, e com um grande portão no centro
Capítulos I a II: O cortiço de João Romão e a casa de Miranda
“Estalagem de São Romão. Alugam-se casinhas e tinas para lavadeiras”
Capítulos I a II: O cortiço de João Romão e a casa de Miranda
E naquela terra encharcada e fumegante, naquela umidade quente e lodosa, começou a minhocar, a esfervilhar, a crescer, um mundo, uma coisa viva, uma geração, que parecia brotar espontânea, ali mesmo, daquele lameiro, e multiplicar-se como larvas no esterco
Capítulos I a II: O cortiço de João Romão e a casa de Miranda

No capítulo III o cortiço acorda e o capítulo o mostra por dentro, das bicas ao almoço, como um corpo cheio de vida.

Sentia-se naquela fermentação sanguínea, naquela gula viçosa de plantas rasteiras que mergulham os pés vigorosos na lama preta e nutriente da vida, o prazer animal de existir, a triunfante satisfação de respirar sobre a terra
Capítulos III a V: O cortiço acorda e Romão contrata Jerônimo

No capítulo IV, ao levar o futuro empregado Jerônimo pelo pátio, Romão diz que nunca entrou ali a polícia e que não vai entrar.

Nunca nos entrou cá a polícia, nem nunca a deixaremos entrar
Capítulos III a V: O cortiço acorda e Romão contrata Jerônimo

No capítulo X a briga entre Jerônimo e Firmo é interrompida pela polícia, e os moradores levantam barricada no portão contra o invasor. No capítulo XI nenhum deles denuncia ninguém ao subdelegado.

Um empenho coletivo os agitava agora, a todos, numa solidariedade briosa, como se ficassem desonrados para sempre se a polícia entrasse ali pela primeira vez.
Capítulos X a XI: Título de barão, navalhada e visita de Pombinha
Como de costume, o espírito de coletividade, que unia aquela gente em círculo de ferro, impediu que transpirasse o menor vislumbre de denúncia.
Capítulos X a XI: Título de barão, navalhada e visita de Pombinha

No capítulo XIII nasce o Cabeça-de-Gato, estalagem rival de dono escondido, e Romão a persegue com fiscais e guardas até a vizinhança se dividir em cabeças-de-gato e carapicus.

No capítulo XVII a divisão some quando os cabeças-de-gato entram para vingar Firmo e o fogo começa no número 88: brasileiros e portugueses correm a salvar o pouco que têm.

já não havia ali brasileiros e portugueses, havia um só partido que ia ser atacado pelo partido contrário
Capítulos XV a XVII: Morte de Firmo, briga de Piedade e incêndio
os mesmos que barateavam tão facilmente a vida, apressavam-se agora a salvar os miseráveis bens que possuíam sobre a terra
Capítulos XV a XVII: Morte de Firmo, briga de Piedade e incêndio

No capítulo XVIII, na manhã seguinte ao incêndio, Romão, que estava no seguro, aponta para os moradores desabrigados, e Miranda responde que esses nada têm que perder: o dano é só deles.

Nada têm que perder
Capítulos XVIII a XX: Libório, as obras e a queda de Piedade

No capítulo XX o cortiço reconstruído tem varandas, lampiões e mais de quatrocentos cômodos, e a tabuleta passa a dizer Avenida São Romão. Entre os moradores novos há estudantes, contínuos e caixeiros, e os italianos ocupam o lado esquerdo, o mais sujo.

Fora-se a pitoresca lanterna de vidros vermelhos; foram-se as iscas de fígado e as sardinhas preparadas ali mesmo à porta da venda sobre as brasas; e na tabuleta nova, muito maior que a primeira, em vez de “Estalagem de São Romão” lia-se em letras caprichosas
Capítulos XVIII a XX: Libório, as obras e a queda de Piedade
A feroz engrenagem daquela máquina terrível, que nunca parava, ia já lançando os dentes a uma nova camada social que, pouco a pouco, se deixaria arrastar inteira lá para dentro.
Capítulos XVIII a XX: Libório, as obras e a queda de Piedade
Depois da partida de Rita, já se não faziam sambas ao relento com o choradinho da Bahia
Capítulos XVIII a XX: Libório, as obras e a queda de Piedade

No capítulo XXII o São Romão exige carta de fiança, sobe os preços e ganha alfaiate e relojoeiro, enquanto o Cabeça-de-Gato recebe quem sai, Piedade entre eles.

O cortiço aristocratizava-se.
Capítulos XXI a XXIII: O fim de Bertoleza e a ascensão de Romão

O que significa

O nome na tabuleta acompanha o dono. A Estalagem de São Romão, com casinhas por mês e tinas por dia para lavadeiras, vira a Avenida São Romão no capítulo XX, e o capítulo XXII mostra o preço da mudança: carta de fiança na entrada, preços mais altos, lavadeiras e italianos a sair para o Cabeça-de-Gato. O mesmo lugar é o que os moradores defendem do capítulo X ao capítulo XVII.

O narrador trata a estalagem como organismo do meio, que cresce onde há lama e água, e as cenas mostram o dono a decidir o que ela vira. Pode-se ler a Avenida como a mesma máquina de sempre, agora com uma nova camada social entre os moradores, ou como o cortiço enfim limpo, com lampiões, torneiras e varandas. O texto dá os dois movimentos, o ganho de asseio e a saída de quem fez a estalagem crescer, e não escolhe entre eles.

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