Clavis Libri

Personagem

João Romão

Quem é

Português, dono da venda e da pedreira ao lado do sobrado de Miranda, que levanta o cortiço São Romão com as economias de Bertoleza e o material tirado das obras vizinhas, e o refaz, capítulo a capítulo, em estalagem cada vez mais limpa e mais cara. Começa vendendo o ovo de que gosta; acaba de casaca, a caminho de um casamento com a filha do vizinho e de um título de visconde, e o livro se fecha com ele recebendo, como sócio benemérito, os abolicionistas que chegam ao armazém na hora em que Bertoleza se mata. É a figura em que a ambição da obra se mede em dinheiro, em nome e em lugar.

Trajetória

Empregado de venda, herda do patrão o negócio e um conto e quinhentos em pagamento de ordenados e passa a viver de privações. Quando morre o companheiro de Bertoleza, quitandeira e escrava de um velho cego, oferece-se como confidente, guarda as economias que ela juntava para a alforria, passa a mandar no que ela ganha e a morar com ela; depois lhe lê uma carta de liberdade que ele mesmo forjou (capítulo I).

a tal carta de liberdade era obra do próprio João Romão, e nem mesmo o selo, que ele entendeu de pespegar-lhe em cima, para dar à burla maior formalidade, representava despesa porque o esperto aproveitara uma estampilha já servida
Capítulos I a II: O cortiço de João Romão e a casa de Miranda

Com as economias dela compra o terreno da primeira casinha e, com o lucro da venda e o material furtado à pedreira e às obras vizinhas, ergue três casinhas, compra parte da pedreira e toma o terreno dos fundos. Quando Miranda compra o sobrado ao lado e lhe pede um pedaço do chão, recusa, porque o guarda para uma estalagem enorme, e levanta noventa e cinco casinhas, o muro e o portão (capítulo I). O narrador chama isso de moléstia.

Aquilo já não era ambição, era uma moléstia nervosa, uma loucura, um desespero de acumular; de reduzir tudo a moeda
Capítulos I a II: O cortiço de João Romão e a casa de Miranda

Na manhã do cortiço só atende o cavouqueiro depois que o movimento da venda passa (capítulo III); cede aos setenta mil-réis depois de fazer a conta de que o dinheiro volta à gaveta, e no pátio garante que nunca entrou ali a polícia (capítulo IV).

Os meus setenta mil-réis voltar-me-ão à gaveta. Tudo me fica em casa
Capítulos III a V: O cortiço acorda e Romão contrata Jerônimo
Nunca nos entrou cá a polícia, nem nunca a deixaremos entrar
Capítulos III a V: O cortiço acorda e Romão contrata Jerônimo

Em dois meses, radiante com o lucro que Jerônimo lhe dá na pedreira, passa a respeitá-lo como não respeita ninguém (capítulo V). Promete à estalagem que o caixeiro Domingos casa com Florinda ou ela terá o dote e, a sós com o rapaz, lhe nega as contas (capítulo IX).

O seu saldo não chega para pagar o dote da rapariga
Capítulos VIII a IX: Jerônimo, Leocádia e o escândalo de Florinda

A notícia do título de barão de Miranda lhe tira o sono, e o mau humor do dia seguinte cai sobre o fiscal, os italianos, Libório e Marciana, que ele manda despejar; à noite, na batalha do portão, grita "Aguenta!" como um general (capítulo X).

aquele ente atrofiado pela cobiça e que parecia ter abdicado dos seus privilégios e sentimentos de homem; aquele desgraçado, que nunca jamais amara senão o dinheiro, invejava agora o Miranda
Capítulos X a XI: Título de barão, navalhada e visita de Pombinha
um desejo forte de querer saltar e um medo invencível de cair e quebrar as pernas
Capítulos X a XI: Título de barão, navalhada e visita de Pombinha

Depois da polícia, pensa em cobrar o prejuízo dos moradores com um imposto e vai ao subdelegado com a estalagem em romaria (capítulo XI). Vê no Cabeça-de-Gato um rival, persegue-o com fiscais e guardas, e três meses depois se refaz de dentro para fora, em roupa fina, aulas de dança e jornais; combina com Botelho a ponte até Zulmira por vinte contos e, ao voltar do jantar no sobrado, descobre que Bertoleza será estorvo (capítulo XIII).

João Romão, com efeito, tão ligado vivera com a crioula e tanto se habituara a vê-la ao seu lado, que nos seus devaneios de ambição pensou em tudo, menos nela.
Capítulos XII a XIV: Casamento, cortiço rival e plano de vingança

Da janela de Miranda, olha de cima a gente que o enriqueceu (capítulo XIV).

lançava para baixo olhares de desprezo sobre aquela gentalha sensual, que o enriquecera, e que continuava a mourejar estupidamente, de sol a sol, sem outro ideal senão comer, dormir e procriar
Capítulos XII a XIV: Casamento, cortiço rival e plano de vingança

Na briga de Piedade com Rita Baiana guarda o dinheiro da venda e se arma de uma tranca, enquanto Bertoleza ferve água para defender a propriedade dele (capítulo XVI). No incêndio segue o velho Libório até o esconderijo e lhe arranca as oito garrafas de dinheiro; quando conta, descobre notas prescritas, lamenta não ter tomado o dinheiro antes e diz que teria sido um ato de justiça (capítulo XVIII).

Libório, por única resposta, arregaçou os beiços, mostrando as gengivas sem dentes e tentando morder a mão que o vendeiro estendia já sobre as garrafas.
Capítulos XVIII a XX: Libório, as obras e a queda de Piedade
Seria um ato de justiça!
Capítulos XVIII a XX: Libório, as obras e a queda de Piedade

Com o seguro que fizera, o incêndio lhe deixa lucro, e ele anuncia a Miranda a reedificação em quatrocentos ou quinhentos cômodos (capítulo XVIII). Começam as obras, ele ergue um sobrado mais alto que o do vizinho, frequenta a Bolsa, janta aos domingos no sobrado e gasta em obséquios com Zulmira, enquanto Bertoleza deixa de ser amante e fica só escrava de trabalho (capítulo XIX). A estalagem passa de cento e tantos a mais de quatrocentos cômodos e ganha a tabuleta "Avenida São Romão" (capítulo XX).

O prédio do Miranda parecia ter recuado alguns passos, perseguido pelo batalhão das casinhas da esquerda
Capítulos XVIII a XX: Libório, as obras e a queda de Piedade

Na noite em que Miranda lhe confirma o casamento, desce à meia-noite com uma vela pensando em esganar Bertoleza, e recua quando ela levanta a cabeça de olhos abertos. De manhã, Botelho lhe pergunta se ela era escrava, e ele encontra a saída que lhe faltava: devolvê-la ao dono (capítulo XXI).

Em primeiro lugar fazia-se membro de uma família tradicionalmente orgulhosa, como era, dito por todos, a de Dona Estela; em segundo lugar aumentava consideravelmente os seus bens com o dote da noiva, que era rica e, em terceiro, afinal, caber-lhe-ia mais tarde tudo o que o Miranda possuía
Capítulos XXI a XXIII: O fim de Bertoleza e a ascensão de Romão
Bertoleza devia ser esmagada, devia ser suprimida, porque era tudo que havia de mau na vida dele!
Capítulos XXI a XXIII: O fim de Bertoleza e a ascensão de Romão
entregá-la ao seu senhor, restituí-la legalmente à escravidão.
Capítulos XXI a XXIII: O fim de Bertoleza e a ascensão de Romão

O cortiço se aristocratiza (capítulo XXII), e na confeitaria da Rua do Ouvidor ele espera a família de Miranda, enquanto Botelho avisa que o dono de Bertoleza vem nessa tarde com a polícia. Quando ela se mata, foge para o canto escuro do armazém e, ao ouvir a comissão, manda levá-la à sala de visitas (capítulo XXIII).

O cortiço aristocratizava-se.
Capítulos XXI a XXIII: O fim de Bertoleza e a ascensão de Romão
João Romão fugira até ao canto mais escuro do armazém, tapando o rosto com as mãos.
Capítulos XXI a XXIII: O fim de Bertoleza e a ascensão de Romão
Era uma comissão de abolicionistas que vinha, de casaca! trazer-lhe respeitosamente o diploma de sócio benemérito.
Capítulos XXI a XXIII: O fim de Bertoleza e a ascensão de Romão

Temas que encarna

Os temas-padrão que passam por ele são Ambição, Ganância, Dinheiro e riqueza, Classe social e Escravidão. Os símbolos que o acompanham são a estalagem São Romão, que ele levanta e depois aristocratiza, a pedreira, onde fez o primeiro lucro, e o título de barão, o que Miranda tem e ele não, e que o move da inveja ao casamento.

O narrador diagnostica no capítulo I uma moléstia, e o resto do livro mostra o objeto da moléstia mudando: o vintém, depois o título que o dinheiro não compra sozinho, depois a filha do vizinho e a figura na sala. Em cada passo da subida há algo que já existia e que ele apenas aproveita: a carta forjada, o saldo do caixeiro, as garrafas de Libório, o papel de escrava que guardou.

Romão quase nunca aparece decidindo em voz alta. O texto o pega depois da conta, quando o dinheiro "volta à gaveta", quando a apropriação vira justiça, quando a solução legal poupa o crime. Cabe ler isso como o cinismo de quem sabe o que faz, ou como a incapacidade de se ver senão pela conta, e a cena final admite as duas: ele esconde o rosto e, no instante seguinte, manda receber os abolicionistas.

Relações

  • Bertoleza: a mulher cujas economias e cujo trabalho levantam o negócio, e que ele devolve ao cativeiro quando ela atrapalha o casamento.
  • Miranda: o vizinho que ele inveja, imita, supera e por fim torna sogro, depois de se medir por ele ao longo do livro.
  • Botelho: o parasita do sobrado que lhe vende a ponte até Zulmira e lhe sugere a saída para Bertoleza.
  • Zulmira: a filha de Miranda, o prêmio do casamento que ele conduz por interesse.
  • Jerônimo: o cavouqueiro que ele contrata por setenta mil-réis e que lhe devolve o dinheiro em lucro.
  • Libório: o velho avarento de quem ele toma as garrafas no incêndio.