Clavis Libri

Personagem

Bertoleza

Quem é

Quitandeira e escrava de um velho cego, que trabalha de madrugada à noite junto de João Romão, de quem é caixeiro, criada e amante, convencida de que é livre. A liberdade em que acredita é uma carta que ele forjou e que só ele sabe ler; as economias que ela juntava para a alforria ficaram com ele. Aparece pouco em primeiro plano, quase sempre ao fogão, na cozinha da casa de pasto ou limpando peixe à porta da venda, e o livro a deixa para o último capítulo, em que o papel que a mantinha ao lado dele vira o instrumento para tirá-la dali.

Trajetória

Quando morre o companheiro dela, João Romão se oferece como confidente, guarda as economias, passa a mandar em tudo o que ela ganha e a morar com ela. Depois lê-lhe a carta de liberdade que forjou, e ela se crê livre, enquanto o antigo senhor nunca fica sabendo (capítulo I).

a tal carta de liberdade era obra do próprio João Romão, e nem mesmo o selo, que ele entendeu de pespegar-lhe em cima, para dar à burla maior formalidade, representava despesa porque o esperto aproveitara uma estampilha já servida
Capítulos I a II: O cortiço de João Romão e a casa de Miranda

Na manhã do cortiço, a venda e a casa de pasto que ela toca com ele se enchem de operários (capítulo III). No domingo em que todos trocam de roupa, ela continua ao fogão (capítulo VI).

a Bertoleza, sempre suja e tisnada, sempre sem domingo nem dia santo, lá estava ao fogão, mexendo as panelas e enchendo os pratos
Capítulos VI a VII: O domingo de Rita Baiana e o pagode

Quando o vendeiro se refaz de dentro para fora, de roupa fina, dança e jornais, ela nada ganha e vai ficando mais escrava e mais triste; ao deitar-se ao lado dela, que ronca, ele percebe que ela será estorvo no casamento que planeja (capítulo XIII).

João Romão subia e ela ficava cá embaixo, abandonada como uma cavalgadura de que já não precisamos para continuar a viagem.
Capítulos XII a XIV: Casamento, cortiço rival e plano de vingança

Na briga de Piedade com Rita, ferve água na cozinha para defender a propriedade dele (capítulo XVI). No incêndio combate as chamas até a exaustão e adormece às cinco da manhã, hora em que ele confere e esconde as garrafas de Libório (capítulo XVIII). Quando começam as obras, sente o cheiro de outras mulheres no amigo e deixa de ser amante; Botelho aconselha o vendeiro a pedir Zulmira em casamento, e ela chora sem poder trabalhar (capítulo XIX).

pouco a pouco deixara totalmente de ser a amante do vendeiro, para ficar sendo só uma sua escrava
Capítulos XVIII a XX: Libório, as obras e a queda de Piedade

Dorme num vão de escada, sob o quarto novo dele, e, na noite em que João Romão desce com uma vela, levanta a cabeça de olhos abertos e o faz recuar. Depois escuta a conversa dele com Botelho, entra na sala e exige ficar ao lado dele e ter a sua parte no que os dois ganharam (capítulo XXI).

Quem me comeu a carne tem de roer-me os ossos!
Capítulos XXI a XXIII: O fim de Bertoleza e a ascensão de Romão

Passa a viver em sobressalto, só come do que ela mesma prepara e dorme de porta trancada (capítulo XXII). Quando o filho do antigo senhor vem buscá-la com duas praças, ela está de cócoras na cozinha, escamando peixe para a ceia de João Romão, reconhece o homem e entende tudo antes que a prendam (capítulo XXIII).

adivinhou que tinha sido enganada; que a sua carta de alforria era uma mentira, e que o seu amante, não tendo coragem para matá-la, restituía-a ao cativeiro.
Capítulos XXI a XXIII: O fim de Bertoleza e a ascensão de Romão

Com a faca de cozinha na mão, rasga o ventre antes que os soldados a levem e morre ali, enquanto João Romão foge para o canto escuro do armazém.

Temas que encarna

Os temas-padrão que passam por ela são Escravidão, Classe social, Lealdade e traição e Trabalho e vocação. O símbolo que a acompanha é a estalagem São Romão, levantada com o trabalho e as economias dela, a que ela serve sem entrar no mundo novo que a casa passa a ser.

A condição de Bertoleza é o dado que João Romão guarda no capítulo I e usa no XXI: a carta que ele forjou a mantém ao balcão sem lhe dar a liberdade, e o papel de escrava, que ele conhece, a devolve ao dono quando ela atrapalha. Entre a carta falsa do capítulo I e a condição verdadeira usada no XXI, o livro põe a mesma mulher, que acredita em um papel e é devolvida ao dono pelo outro.

O texto sustenta duas leituras para a calada resignação dela nos capítulos XIII e XIX: o medo de ficar sem abrigo, ou o apego a um homem que ela adora, e a sua única fala longa, a do capítulo XXI, mistura as duas. Ela cobra o que lhe parece devido, o trabalho pago com um lugar na casa, sem perceber, ou sem querer perceber, que a conta já foi fechada do outro lado da mesa; a lucidez só chega no último capítulo, num relance.

Relações

  • João Romão: o companheiro que lhe guarda as economias, lhe lê a carta falsa e a devolve ao cativeiro.
  • Botelho: o parasita do sobrado que aconselha o vendeiro a pedir Zulmira e a arrumar a saída para ela.