Clavis Libri

Personagem

Piedade

Quem é

Portuguesa, mulher de Jerônimo, lavadeira diligente que chega com ele ao cômodo 35 e é descrita como honesta, sadia e à altura do marido. É a figura em quem o livro mede o custo da mudança de Jerônimo: ela adivinha o perigo por instinto, tenta retê-lo com banhos e feitiços, perde o marido para Rita Baiana e desce, da tina de roupa à bebida, até o fim do livro, quando a filha dela entra no raio de Pombinha.

Trajetória

Chega com Jerônimo ao número 35, e o narrador a mede pelo ofício (capítulo V).

Piedade merecia bem o seu homem, muito diligente, sadia, honesta, forte, bem acomodada com tudo e com todos, trabalhando de sol a sol e dando sempre tão boas contas da obrigação
Capítulos III a V: O cortiço acorda e Romão contrata Jerônimo

No pagode de domingo, ela e o marido tinham recusado os convites das duas mesas para jantar sozinhos (capítulo VII); à noite, vê-o preso à dança de Rita e esquecido dela (capítulo VII). No dia seguinte vê a rival cuidar dele, e o narrador explica o incômodo como faro, não como raciocínio (capítulo VIII).

Não era a inteligência nem a razão o que lhe apontava o perigo, mas o instinto, o faro sutil e desconfiado de toda a fêmea pelas outras, quando sente o seu ninho exposto
Capítulos VIII a IX: Jerônimo, Leocádia e o escândalo de Florinda

Muda os hábitos e não a alma, e fica cada vez mais triste: o marido deixa a cama dela por uma rede, manda-a lavar-se todos os dias e pede que aprenda com Rita a cozinhar à moda da terra; ela procura a Bruxa, que lhe receita banhos, água de lavagem no café dele e pó de cabelos na comida (capítulo IX). Na luta de Jerônimo com Firmo, clama que lhe vão matar o homem, e depois acode o ferido com Rita (capítulo X). Acompanha-o ao hospital e, na primeira visita, encontra-o frio, impaciente por ouvir falar da outra, e passa a definhar de choro (capítulo XII). Quando ele volta e pede o café feito por Rita, sente a preferência como infidelidade (capítulo XIV).

Na noite em que Jerônimo não volta, espera acordada, imaginando desgraças; pela manhã o caso é o escândalo do dia entre as lavadeiras (capítulo XVI). Revoltada, culpa a terra que lhe roubou o homem, e depois da notícia da morte de Firmo conclui que foi trocada por Rita.

Parecia rebelar-se contra aquela natureza alcoviteira, que lhe roubara o seu homem para dá-lo a outra, porque a outra era gente do seu peito e ela não.
Capítulos XV a XVII: Morte de Firmo, briga de Piedade e incêndio
Se ele matou o Firmo, dormiu na estalagem e não veio ter comigo, é porque então deixou-me de feita pela Rita!
Capítulos XV a XVII: Morte de Firmo, briga de Piedade e incêndio

Vê Rita passar com a mudança combinada, pergunta se se muda, e a resposta atrevida abre a luta de tamancos e unhas em que perde (capítulo XVI). Cai de cama com febre depois do incêndio (capítulo XVIII). Depois da febre, fica resmungona e magra e passa a beber parati para enganar os pesares; a filha começa a ir aos domingos à estalagem da mãe, e quando a diretora ameaça expulsá-la por seis meses de pensão atrasada, procura Jerônimo, que promete pagar e não paga, e na segunda visita o manda embora com a filha (capítulo XIX).

Na noite do jantar humilhante, bebe com o grupo da das Dores e dança arremedando Rita; João Romão a repreende, e o Pataca se aproveita dela, bêbada, na cozinha, e a filha, que acorda, vê de relance e foge (capítulo XX).

Pataca revoltou-se, não com o procedimento de Jerônimo, mas com o dela.
Capítulos XVIII a XX: Libório, as obras e a queda de Piedade

No fim é despejada, ébria e sem trabalho, e se refugia com a filha no Cabeça-de-Gato (capítulo XXII).

Apagaram-se-lhe os últimos vestígios do brio; vivia andrajosa, sem nenhum trato e sempre ébria, dessa embriaguez sombria e mórbida que se não dissipa nunca.
Capítulos XXI a XXIII: O fim de Bertoleza e a ascensão de Romão
A cadeia continuava e continuaria interminavelmente; o cortiço estava preparando uma nova prostituta naquela pobre menina desamparada, que se fazia mulher ao lado de uma infeliz mãe ébria.
Capítulos XXI a XXIII: O fim de Bertoleza e a ascensão de Romão

Temas que encarna

Os temas-padrão que passam por ela são Natureza e civilização, Corrupção e decadência e Classe social. O símbolo que a acompanha é a estalagem São Romão, que cresce e se limpa enquanto ela desce (capítulo XX) e de onde é expulsa para o Cabeça-de-Gato (capítulo XXII).

O narrador nunca a faz culpada. Ela é a que muda por fora e não por dentro (capítulo IX), a que culpa a terra e depois Rita, nunca o marido (capítulo XVI), e a que o texto deixa no chão da cozinha (capítulo XX). O texto deixa em aberto por que ela o poupa: amor, hábito ou medo de perder tudo (capítulo XVI).

Piedade é a contrapartida de Rita: onde a baiana não prende ninguém nem se deixa prender, Piedade está presa ao marido e à filha. Enquanto a estalagem sobe de andares e ganha mobília (capítulo XX), é ela que paga a conta do que Jerônimo faz, e o livro põe as duas trajetórias lado a lado sem dizer se uma causa a outra.

Relações

  • Jerônimo: o marido que se afasta dela, a quem ela ainda procura por causa da filha.
  • Rita Baiana: a rival que cuida do marido e que a vence na luta de unhas.
  • Pombinha: a moça que, no fim, protege a filha de Piedade com a mesma simpatia que Léonie um dia teve por ela.
  • João Romão: o dono que a repreende na roda de bebida.