Clavis Libri

Personagem

Miranda

Quem é

Negociante português, dono do sobrado que fica ao lado da venda de João Romão, casado com Dona Estela por um dote que sustenta a sua casa comercial, pai de Zulmira sem ter certeza de que o seja. Muda-se para o bairro para tirar a mulher do alcance dos caixeiros, vê o cortiço crescer diante da janela, inveja o vizinho, passa a sonhar com um título e recebe o de Barão do Freixal do governo português. A partir daí o livro o mostra passando da inveja à admiração e da irritação com o cortiço ao casamento da filha com o antigo rival.

Trajetória

Compra o sobrado e se muda com a mulher e a filha. Sabe do adultério de Dona Estela desde o segundo ano de casado e não a deixa por causa do dote; duvida de que Zulmira seja sua filha. Quer comprar um pedaço do terreno de João Romão para o quintal, e o vizinho recusa (capítulo I).

a sua casa comercial garantia-se com o dote que ela trouxera, uns oitenta contos em prédios e ações da dívida pública
Capítulos I a II: O cortiço de João Romão e a casa de Miranda
Prezava, acima de tudo, a sua posição social e tremia só com a ideia de ver-se novamente pobre, sem recursos e sem coragem para recomeçar a vida
Capítulos I a II: O cortiço de João Romão e a casa de Miranda

Dois anos depois não suporta a prosperidade do vizinho, que enriqueceu sem casar com ninguém, e conclui que se prendeu à mulher pelo dote. O título de barão passa a ser o ideal que lhe falta, e ele afeta escrúpulos sociais e abre a casa para festas (capítulo II).

Foi da supuração fétida destas ideias que se formou no coração vazio do Miranda um novo ideal - o título
Capítulos I a II: O cortiço de João Romão e a casa de Miranda

Estende à filha o ódio que tem pela esposa.

a pobre criança nada mais representava que o documento vivo do ludíbrio materno, e o Miranda estendia até à inocentezinha o ódio que sustentava contra a esposa
Capítulos I a II: O cortiço de João Romão e a casa de Miranda

Em casa tem Henrique, filho de um fazendeiro cliente, e o velho Botelho, que concorda com ele contra Estela e com Estela contra ele (capítulo II). Num domingo, perturbado pelo barulho do pagode, aparece à janela com um trinchante na mão e ameaça chamar a polícia, enquanto a mulher e os outros o puxam para dentro (capítulo VII).

Ah, canalhas! O que eu devia fazer era atirar-lhes daqui, como a cães danados!
Capítulos VI a VII: O domingo de Rita Baiana e o pagode

O jornal traz a notícia do título e a casa se enche de preparos para a festa do domingo; é a notícia que tira o sono de João Romão (capítulo X). Três meses depois, quando o vizinho se refaz de dentro para fora, Miranda passa a tirar-lhe o chapéu, e Botelho consegue o convite para o jantar do Barão (capítulo XIII).

Na manhã seguinte ao incêndio chega à estalagem, compungido e superior, felicita João Romão porque tudo estava no seguro, e comenta dos desabrigados:

Nada têm que perder
Capítulos XVIII a XX: Libório, as obras e a queda de Piedade

Ouve o plano de reedificar com quatrocentos ou quinhentos cômodos e sai com a inveja convertida em admiração, restando-lhe uma única reserva (capítulo XVIII).

O que ainda lhe restava da primitiva inveja transformou-se nesse instante num entusiasmo ilimitado e cego.
Capítulos XVIII a XX: Libório, as obras e a queda de Piedade
É um filho da mãe! resmungava ele pela rua, em caminho do seu armazém. É de muita força! Pena é estar metido com a peste daquela crioula! Nem sei como um homem tão esperto caiu em semelhante asneira!
Capítulos XVIII a XX: Libório, as obras e a queda de Piedade

Recebe o vizinho para jantar aos domingos, vai com ele ao teatro e vê o sobrado de João Romão subir mais alto que o seu (capítulo XIX, capítulo XX).

O prédio do Miranda parecia ter recuado alguns passos, perseguido pelo batalhão das casinhas da esquerda
Capítulos XVIII a XX: Libório, as obras e a queda de Piedade

Confirma a João Romão que Zulmira o aceita e que Dona Estela vai marcar o dia (capítulo XXI). Na confeitaria da Rua do Ouvidor conta um caso de disciplina militar que Botelho acompanha com outros e, no Largo de São Francisco, oferece ao futuro genro um lugar no carro, que ele recusa (capítulo XXIII).

Temas que encarna

Os temas-padrão que passam por ele são Inveja, Ambição, Casamento e Classe social. O símbolo que o acompanha é o título de barão, que ele recebe e cujo brilho faz João Romão medir o que lhe falta, e a casa em que vive, o sobrado de Miranda, que o cortiço cerca e que o vizinho acaba por superar.

Miranda e João Romão são a mesma pergunta feita de dois lados: o que o dinheiro compra e o que ainda falta. Miranda tem casa, casamento e título e não tem a liberdade do vizinho; este tem o dinheiro e quer o título. O livro faz um olhar o outro por cima do muro até que a admiração de Miranda acaba em casamento: o vizinho se torna o genro.

A inveja de Miranda no capítulo II tem duas leituras: busca de posição, para não ser pior que o vizinho, ou refúgio de um homem sem outro desejo. A cena do trinchante, a reserva sobre Bertoleza e o "nada têm que perder" mostram um homem que reage à cena que vê da janela, mais do que decide, e o casamento da filha lhe chega como arranjo entre dois homens que se medem, em que Zulmira não é consultada em cena.

Relações

  • João Romão: o vizinho que ele inveja, depois admira, e por fim aceita como genro.
  • Dona Estela: a mulher do dote, de quem ele sabe o adultério e com quem, depois do flagrante, passou a dormir em quarto separado.
  • Zulmira: a filha de quem duvida e que aceita casar com o vendeiro.
  • Botelho: o parasita da casa que ouve as queixas de ambos e leva a João Romão a proposta de casamento.